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Médicos eram cúmplices de tortura em Guantánamo, revela pesquisa

por Opera Mundi — publicado 29/04/2011 09h07, última modificação 29/04/2011 09h07
Equipe contratada com objetivo de prestar auxílio médico ocultaram provas de que os presos eram torturados na base militar norte-americana

Por Daniella Cambaúva, do Opera Mundi

A equipe contratada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos com objetivo de prestar auxílio médico aos presos de Guantánamo ocultaram ou ignoraram as provas de que os presos foram torturados ali. É o que constatou uma equipe de pesquisadores independentes que teve acesso às fichas de nove detidos e às informações dos advogados. Esse estudo foi elaborado para publicação na revista científica norte-americana Plos Medicine, disponível na internet.

Os médicos de Guantánamo atribuíam a “disfunções de personalidade" ou a "tensão por confinamento" os problemas psicológicos e lesões que os presos apresentavam após serem submetidos às “severas técnicas de interrogatório” que, para a ONU (Organização das Nações Unidas), são sinônimo de tortura.

"A omissão de tortura ou seu encobrimento não pode se justificar para nenhum profissional da saúde, seja ele clínico, militar”, afirmaram os autores da pesquisa Vincent Iacopino e Stephen N. Xenakis. Iacopino é médico da Universidade de Minnesota e trabalha como especialista em Direitos Humanos; Xenakis é general afastado do Exército norte-americano.

"Os informes médicos de cada um dos nove casos indicam que as alegações específicas de torturas e maus tratos eram altamente consistentes com as provas médicas e psicológicas documentadas nos documentos médicos e avaliações realizadas por especialistas não governamentais”, constataram os pesquisadores. “No entanto, o pessoal médico que tratou os presos de Guantánamo não perguntou nem registrou as causas, nem das lesões físicas e/ou os transtornos psicológicos que presentavam”.

Os nove detidos afirmaram que foram submetidos a várias formas de tortura como privação de sono, exposição a temperaturas extremas, ameaças, espancamento ou obrigação de permanecer sem roupas. Eles declararam também que foram submetidos a torturas "não autorizadas", como fortes espancamentos que chegaram a provocar fraturas ósseas; agressão sexual e o “submarino” (que consiste em asfixiar o preso colocando sua cabeça na água ou em saco plástico).

Vários dos detidos declararam ter perdido a consciência durante os interrogatórios. Tentativas de suicídio, depressão grave e alucinações são algumas das queixas frequentes daqueles que hoje estão em liberdade, mas que já passaram por Guantánamo.

Os médicos do Departamento de Defesa alegam não terem visto nem notado nada que apontasse para danos provocados intencionalmente nos presos quando eles estavam sob sua responsabilidade.

Os nove casos analisados na pesquisa correspondem a pessoas presas em 2002, com idade média de 33 anos.

Desde a criação da prisão norte-americana, em 2002, morreram sete presos no local, segundo dados oficiais. Sua manutenção não encontra amparo em nenhuma convenção internacional e, portanto, não há como fiscalizar o que acontece em seu interior, motivo pelo qual os EUA são criticados por organizações de direitos humanos. Os EUA também não permitem que a ONU (Organização das Nações Unidas) inspecione as condições da base e do tratamento recebido pelos detidos.

Atualmente, há 172 detidos. O máximo de prisioneiros que ficou no local foi 779 em 2003.

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