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Líder das Avós da Praça de Maio recupera neto roubado na ditadura

por AFP — publicado 06/08/2014 09h44, última modificação 06/08/2014 09h45
Estela Carlotto, presidente da organização humanitária que cuida das vítimas da ditadura argentina, esteve separada do neto por mais de 35 anos
Ezequiel Amigo/AFP
Estela Carlotto

Estela Carlotto teve a filha Laura assassinada por militares durante a repressão argentina. Seu neto estava desaparecido há 36 anos

A presidente da organização humanitária Avós da Praça de Maio, Estela Carlotto, reencontrou nesta terça-feira, 5, seu neto, de 36 anos, que tinha sido roubado pela ditadura argentina (1976/83) logo depois do nascimento, enquanto sua mãe era mantida em poder dos militares, anunciou um familiar.

"Agradeço a Deus, à vida, porque não queria morrer sem abraçá-lo. Quero tocá-lo, olhar para ele", disse Estela durante uma emocionante entrevista coletiva na sede da organização que preside desde o final da década de 80.

"Laura sorri do céu", afirmou Estela, 83 anos, ao lembrar a filha, uma militante "montonera" - a guerrilha de esquerda dos anos 70 - que estava grávida de três meses quando foi sequestrada e levada a um campo de concentração da ditadura argentina.

A mãe deu o nome de Guido à criança, que depois seria roubada pela ditadura. Laura Carlotto foi sequestrada durante a gravidez. Ela foi assassinada no dia 26 de junho de 1978, pouco tempo depois de dar à luz, segundo o relato de uma companheira de cativeiro.

Laura foi assassinada pelos militares, que entregaram seu corpo mais tarde a Estela. Desde então, Estela Carlotto procurava seu neto, certa de que ele estava vivo.

A avó mais célebre da Argentina revelou na coletiva que ainda não conheceu o neto pessoalmente, que se apresentou há um mês, voluntariamente, para fazer o teste de DNA.

"Alguns disseram que se parece comigo. Ele já sabe e está muito comovido", disse Estela sobre o neto, de 36 anos. "É um artista, músico, como vários de seus primos", e vive em Olavarría, 350 km a sudoeste de Buenos Aires.

Kivo Carlotto, filho de Estela e tio do homem encontrado, havia confirmado mais cedo "o resultado positivo" do exame de DNA. "Encontramos meu sobrinho depois de 35 anos. Ele se apresentou voluntariamente, submeteu-se a um exame de DNA e deu 99,9% de compatibilidade. É uma emoção enorme".

"Foi um choque terrível para ele. Mas se apresentou voluntariamente, e está tudo bem", acrescentou Kivo, que é secretário de Direitos Humanos da província de Buenos Aires.

Claudia Carlotto, outra filha de Estela, revelou que o sobrinho "está muito emocionado e feliz, e vamos vê-lo logo".

Muitos bebês de prisioneiras "desaparecidas" durante a ditadura foram entregues a policiais e militares, que os criaram como seus próprios filhos.

Em 2012, os ex-ditadores Jorge Videla - já falecido - e Reynaldo Bignone foram condenados a 50 anos e 15 anos de prisão, respectivamente, por um plano sistemático de roubo de bebês.

A organização Avós da Praça de Maio nasceu em outubro de 1977 como uma organização próxima das Mães da Praça de Maio, quando algumas mães de desaparecidos deram prioridade à busca por seus netos, sequestrados junto com seus pais ou bebês nascidos nos centros de tortura e extermínio, hoje adultos.

O neto de Carlotto é o 114° encontrado pelas Avós de cerca de 500 bebês e crianças que foram roubados por repressores ou por seus cúmplices durante a ditadura.

Publicada originalmente na AFP.