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Judiciário americano

Xenofobia e puritanismo

por Eduardo Graça — publicado 16/06/2011 19h42, última modificação 21/06/2011 18h40
Acusado pela ex-mulher de abusar dos próprios filhos, ex-modelo brasileiro tenta provar inocência e conta como é a rotina na prisão do Arizona
Xenofobia e puritanismo

Acusado pela ex-mulher de abusar dos próprios filhos, ex-modelo brasileiro tenta provar inocência, nega-se a assinar confissão e conta como é a rotina na prisão do Arizona. Por Eduardo Graça, de Nova York

de Nova York

Quando Ricardo Azevedo Costa foi acusado de abusar sexualmente dos filhos que teve com sua ex-mulher, a americana Angela Martin, no Arizona, um dos estados mais conservadores dos Estados Unidos, a Justiça estadual decidiu que ele poderia aguardar o julgamento em liberdade. Desde que pagasse 75 milhões de dólares, uma das mais altas fianças estabelecidas na história do sistema judiciário americano.

Há mais de dois anos o ex-modelo brasileiro aguarda, na prisão de Yavapai, no centro-norte do estado, o julgamento ser marcado. A comunicação com a família - que, à exceção de um irmão, Rafael, morador da Califórnia, vive em São Paulo - se dá por um precário sistema de cartão telefônico que custa a Sérgio e Tita Azevedo Souza Costa, seus pais, a bagatela de 500 dólares por mês. O advogado sai por 5 mil dólares/mês, mais 15 mil dólares pelo julgamento.

Mas o mais dolorido para Ricardo e sua família é a impossibilidade de conviver com os três filhos (dois meninos e uma menina, de 15, 8 e 12 anos, cujos nomes serão preservados neste texto) desde que o pesadelo começou.

Conversei com Ricardo Costa na terça-feira 14. A entrevista foi interrompida para uma revista-surpresa na cela do brasileiro. Por conta do esforço descomunal de Tita e Sérgio, a comunicação deu-se via São Paulo. Costa, 39 anos, conta que sua rotina é a mesma há dois anos e meio: acorda às quatro e meia da manhã, faz o desjejum, reza por uma hora, faz exercícios físicos, lava-se na pia, limpa as paredes e o chão da cela, almoça – “eu era vegetariano, mas a dieta da cadeia é pobre em verduras e frutas ” – lê, reza novamente, escreve cartas, janta, vê o jornal da noite por uma fresta da cela (já que o aparelho de tevê fica a 12 metros de distância de sua cama), faz suas preces pela terceira vez e dorme às dez da noite. A cada duas semanas, essa rotina é interrompida para receber um mesmo documento: sua confissão, já preparada. Se assinar, é deportado para o Brasil e a ação é formalmente encerrada. Mas desde dezembro de 2008 Costa age da mesma maneira: devolve o texto em branco.

“É lógico que há uma discriminação por eu ser brasileiro. Denunciei atos de minha ex-mulher antes da prisão, mas nada foi feito, nem sequer investigaram. Por aqui, há uma prática de se fazer com que o imigrante assuma a culpa ou arque com as penas e valores de fiança, sempre mais altas”, afirma.

A história de Costa se assemelha, aparentemente, a de muitos imigrantes que trocam seu país de origem por uma grande paixão. Ele conheceu a mulher quando ambos trabalhavam como modelos no Japão, há duas décadas. Depois de viver por um curto período em São Paulo e em Nova York, os dois tentaram a sorte em Sedona, no Arizona. Tiveram três filhos e, após quase 15 anos juntos, com a relação desgastada, decidiram se separar. Mas a guarda das crianças era um problema.

Tita conta que seu filho acumulava as funções de dono de uma empreiteira, técnico do time de futebol da escola local, professor de artes marciais para crianças e principal figura doméstica na casa, responsável pela higiene das crianças. Dezenas de amigos do casal escreveram cartas entregues à Justiça nas quais afirmam que Ricardo é um pai zeloso e carinhoso. Pouco tempo depois da separação, de acordo com sua mãe, o brasileiro começou a namorar a melhor amiga de sua ex-mulher. “Este foi o grande erro dele. Ela jamais o perdoou por isso e, a partir daí, começou a infernizá-lo”.

Com os ânimos acirrados, Angela entrou com uma ação cautelar contra o marido sob a acusação de violência doméstica. Neste momento entra em cena uma das personagens mais enigmáticas da briga, a psicoterapeuta Linda Bennardo. Indicada pelo escritório de advocacia de Angela, ela iniciou uma série de sessões com os dois filhos mais novos do casal e, por meio de desenhos por eles produzidos, chegou à conclusão de eles teriam sido abusados sexualmente pelo pai quando tinham seis anos. A família de Costa alega que os dois meninos foram induzidos a afirmar que o pai cometeu o crime, que jamais reconheceu. Não há qualquer evidência física e Ricardo não tem antecedentes criminais nem sofreu qualquer denúncia anterior, embora trabalhasse com crianças.

O quebra-cabeças ficou ainda mais complicado quando a terapeuta teve de desistir de sua licença médica após ser processada por três pais acusados de abuso sexual de crianças cuja única prova era, mais uma vez, desenhos apresentados pelos filhos. Os três, todos americanos, foram inocentados. Em entrevista ao The Arizona Republic, o principal jornal do estado, Angela, de 49 anos, afirmou que tem sido demonizada pela comunidade local. “Sou a mãe e protetora de três crianças vulneráveis que foram traumatizadas de modo severo. Minha única e principal preocupação é a de que estas crianças inocentes sejam reabilitadas, protegidas e abrigadas do contínuo e prolongado horror desta situação”.

O prolongamento se dá, obviamente, por conta da obstinação de Costa e da morosidade da Justiça do estado do sudoeste americano. O brasileiro vive legalmente no Arizona e, desde que deixou de lado a carreira de modelo, trabalha no ramo de construção civil, uma das atividades mais lucrativas da região, até a explosão da bolha imobiliária. Qualquer incidente criminal permite, porém, o início de um processo de revogação do “green card”.

A xenofobia, presente com grande força em uma área dos EUA com grande incidência de imigração mexicana, recebeu uma dose de legitimidade no ano passado com a aprovação da mais dura legislação anti-imigração do país, considerada inconstitucional pela administração Obama. Mas a tenacidade de Ricardo, avesso a assumir a culpa por algo que alega jamais ter feito, inspirou uma mobilização da comunidade local, em sua maioria americanos natos. O professor e dentista Kirk Westwelt chegou a oferecer sua casa como garantia para a fiança. Um ex-vereador respeitado da cidade abraçou a causa do brasileiro. E uma petição, com 1.247 assinaturas no momento em que esta reportagem foi concluída, circula pela internet exigindo a libertação do brasileiro. Ela será entregue nos próximos dias ao senador republicano John McCain, candidato derrotado à presidência em 2008 e quiçá o político mais influente do Arizona. No texto, a indignação maior é com o total desrespeito à legislação estadual, que é clara: após 150 dias de detenção, o acusado tem a prioridade de ter seu caso julgado. Ricardo excedeu este prazo em mais de seis vezes.

Na página do Facebook “Justice for Ricardo Costa”, o ex-modelo aparece com um sorriso aberto, a farta cabeleira castanha jogada para o lado. É o retrato de um homem feliz. É difícil imaginar o  rapaz, que ilustrou campanhas da C&A com imagens suas espalhadas por lojas de todo o Brasil, e foi parar na capa da Vogue, diante da prova de fogo das artimanhas do sistema judicial americano. Um dos principais suportes de sua família nos EUA tem sido o Consulado do Brasil em Los Angeles. CartaCapital teve acesso à troca de emails entre a família Costa e a ministra Luiza Lopes da Silva, do serviço consular, que interferiu decisivamente quando a família informou da tortura psicológica sofrida pelo ex-modelo, ameaçado por carcereiros. “O Itamaraty está nos ajudando bastante”, faz questão de reconhecer Tita. Foi por meio do consulado que Rafael conseguiu visitar o irmão e tranquilizar a família em São Paulo.

“É difícil dizer como me sinto com toda a mobilização. Os amigos e a família estão movendo montanhas para me ajudar. Todo este amor e carinho sem tamanho é muito especial. Meus amigos, os filhos deles, um de três anos, terem ido à frente da cadeia e protestado, pedir por minha liberdade, é algo que me tocou muito, não tem preço”, afirma Costa.

Enquanto aguarda o anúncio do julgamento, o brasileiro começa a ver seu caso pipocar na mídia norte-americana, espantada com a velocidade de cágado de seu processo e chocada com o valor determinado para fiança. Para se ter uma ideia, o serial killer Dennis Rader, acusado de ter matado ao menos 10 pessoas no Kansas nos anos 70 e 80, poderia responder às acusações em liberdade se desembolsasse 10 milhões de dólares.

Para o multimilionário Michael Jackson, foram 3 milhões de dólares quando acusado de abuso sexual de menores. Mais recentemente, o francês Dominique Strauss-Khan pagou 1 milhão para responder de casa à acusação de atacar sexualmente uma camareira em um hotel de Manhattan. E a recompensa para quem entregasse ninguém menos do que Osama bin Laden não passava de 25 milhões de dólares. Mas o procurador de Arizona indicado para o caso alega que Costa pode voar para o Brasil a qualquer momento, se posto em liberdade, e, como já provado em casos anteriores, jamais seria trazido de volta para os EUA para enfrentar a Justiça local, daí a enormidade do valor de sua fiança.

Enquanto isso os dias passam iguais para o brasileiro, à espera de uma data que inicie o fim do capítulo mais duro de sua existência. Mas ele faz questão de dizer que não esmorece: “Se eu pudesse dizer algo para os meus filhos, seria o seguinte: meninos, eu brigo por vocês desde que nasceram. Se estou preso, é porque não quero que vocês carreguem esta mentira vida afora. Choro por eles todos os dias, pois o sistema os maltrata, os destrói. E o único arrependimento que tenho é o de não ter saído de casa mais cedo. Mas não queria, nunca quis, ficar longe dos meus filhos. E, no fim, há uma lição para eles neste episódio. Eles sabem que eu nunca deixei de amá-los. Tudo o que estou passando não chega perto do amor que sinto por eles”.

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