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Jornalista brasileiro é humilhado e perseguido na Rússia

por Celso Marcondes — publicado 04/02/2011 15h20, última modificação 04/02/2011 15h23
A saga de Solly Boussidan, que foi preso e maltratado na Rússia porque mandou artigos pela internet sobre o atentado no Aeroporto de Moscou. Por Celso Marcondes

A saga do jornalista brasileiro Solly Boussidan, que foi preso e maltratado na Rússia porque mandou artigos pela internet sobre o atentado no Aeroporto de Moscou

Apresentando o depoimento de Solly Boussidan

Preso na cidade de Sochi, no Mar Negro, dia 28 passado, o repórter free lancer brasileiro Solly Boussidan, foi mais uma vítima da truculência do governo da Rússia contra jornalistas. Seu crime: ter enviado para o portal Terra Magazine artigos nos quais contava como a televisão russa cobriu o atentado no Aeroporto de Moscou no dia 24 de janeiro.

Boussidan estava de passagem pela Rússia, a caminho da Armênia, quando postou seus artigos. Embora identificado como jornalista, tinha apenas visto de turista, o que serviu de pretexto para a sua prisão. A ação do Itamaraty e do governo alemão (ele tem dupla cidadania) possibilitou que saísse do cárcere antes de completar os dez dias determinados por um juiz para que sua deportação fosse realizada. Daí Boussidan foi encaminhado para a cidade de Adler, na fronteira com a Geórgia. Em um centro de detenção para estrangeiros, o brasileiro passou 48 horas sem comida e recebeu pressão para assinar documentos em russo sem tradução e abrir mão da proteção consular brasileira. Depois, passou a receber alimentação uma vez por dia, sem direito a banho e acesso aos seus remédios, confinado numa cela minúscula com outros quatro presos. Ele conseguiu contar sua saga ao repórter Roberto Simon, do Estado de S.Paulo, que ajudou a divulgar a notícia pelo Brasil.

Passados cinco dias, Boussidan foi deportado, dia 1º de fevereiro, para a Abkházia, república separatista da Geórgia. De lá, conseguiu chegar a Tbilisi, capital e maior cidade da Georgia, onde o localizamos. Ele respondeu à CartaCapital assim que chegou. A história que nos contou é inacreditável e conclama à ação dos que lutam pela liberdade de informação, hoje colocada em questão em várias partes do mundo, sobretudo no Egito.

Nos próximos dias Boussidan retomará seu roteiro original. Depois de descansar, vai para a Armênia e só depois de completar seu plano de voo, retornará ao Brasil. Vida de repórter é assim.

O depoimento de Solly Boussidan, à CartaCapital, de Tbilisi, na Geórgia:

Caros, obrigado pelo apoio. Essas situações nunca são fáceis - sabemos que não somos bem quistos em muitas partes, mas quando você recebe "tratamento especial" por ser jornalista é que fica ainda mais patente a importância de nosso trabalho.

Eu estava na Rússia passando dez dias antes de tomar um voo para a Armênia. Não tinha intenção de trabalhar nem reportar do país. Mesmo assim, para evitar problemas mencionei à Polícia de Fronteira que era jornalista e inclusive mostrei a eles alguns de meus artigos.

Em Sochi, procurei a prefeitura para me apresentar e pedir que me enviassem contatos com quem pudesse obter informações de turismo e sobre a preparação para as Olimpíadas de Inverno de 2014. Obviamente fui bem recebido pela prefeitura, pois interessa a eles divulgar a cidade como destino turístico.

No entanto, eles preencheram um formulário padrão de "contato com a mídia" que acabou alertando a polícia de imigração, a qual passou a me monitorar. Isso foi no dia do atentado no aeroporto em Moscou.

O Terra me contatou pedindo informações sobre o que a mídia russa estava reportando. Não era nenhum grande furo jornalístico. Muito pelo contrário, essas informações provavelmente estavam disponíveis no próprio site das emissoras e jornais russos para o mundo todo e serviram em grande parte para complementar matérias de agências.

Esses artigos foram no entanto a "prova do crime", que resultaram na minha prisão.

Dois dias depois fui interrogado por cerca de 12 horas por 5 policiais e levado a uma corte. Os policiais esperavam que eu fosse apenas multado, mas o juiz decidiu me deportar e que até a deportação eu ficasse retido em um centro de detenção.

O juiz optou por ignorar o fato de que a Embaixada Brasileira em Moscou já havia assegurado meu credenciamento junto ao Ministério das Relações Exteriores da Rússia. Ignorou também o fato de eu ter me identificado como jornalista na fronteira e desconsiderou o meu argumento de que eu não tinha como prever um ataque terrorista no país, sendo que as informações que eu transmiti foram circunstanciais e em função de um evento repentino e inesperado.

Durante os dois primeiros dias não me deram comida - depois disseram que "esqueceram" de me avisar que a comida ficava disponível em uma sala do centro de detenção na hora do almoço. Mesmo assim, recebíamos comida somente uma vez ao dia. O banheiro era uma várzea e era impossível tomar banho, pois apesar de haver chuveiro, não tínhamos toalhas e fazia frio. Passei cerca de uma semana sem tomar banho. Dividia um quarto pequeno com mais quatro pessoas - todos sem tomar banho há dias - uma situação bastante desagradável. Contudo, não fui maltratado por nenhuma autoridade.

A Embaixada em Moscou ficou incansavelmente em cima do meu caso e em contato com o Ministério das Relações Exteriores russo e a corte para tentarem reverter a decisão judicial ou pelo menos acelerar minha deportação, que havia inicialmente sido marcada para o dia sete de fevereiro. O principal problema foi que o ministério russo assumiu muito mais uma postura defensiva do que de cooperação com o Itamaraty

A embaixada alemã em Moscou também tentou interceder e cooperar com o Itamaraty e a priori haviam conseguido que minha deportação fosse para Berlim, ao invés do Rio como os russos queriam inicialmente.

A sentença e o tratamento que eu recebi deixaram inclusive alguns policiais da imigração um pouco perplexos e os funcionários da prefeitura de Sochi preocupados com as repercussões, afinal de contas, caso o episódio não tivesse ocorrido eu provavelmente estaria escrevendo matérias em algumas semanas que promoveriam o turismo na Rússia.

Esses policiais acabaram conseguindo acelerar minha deportação caso eu conseguisse acesso ao território da Abkházia, por onde entrei na Rússia. Entrei em contato com as autoridades abkházias, que gentilmente se prontificaram em me receber e dar assistência.

No dia 1 de fevereiro fui entregue as autoridades abkházias e segui para Sukhumi. Estava exausto, me sentindo péssimo após uma semana me alimentando mal e sem tomar banho. Passei uma noite lá e segui para a fronteira com a Geórgia, onde potencialmente enfrentaria um novo problema. Como a Abkházia declarou-se independente da Geórgia, os georgianos consideram a entrada em território abkházio a partir da Rússia como uma entrada ilegal na Geórgia. Como consequência, podem lhe prender e deportar. Novamente o Itamaraty através da Embaixada em Ancara intercedeu a meu favor e consegui chegar a Tbilisi hoje ( 4 de fevereiro), após dois dias de viagem.

Agora estou bem alimentado, de banho tomado e mais relaxado. O incidente todo foi bastante traumático, pois realmente nunca fiz ou tive a intenção de fazer nada errado. Meu relato ao Terra poderia facilmente ter sido também descrito em sites de mídia social - não acho que se qualifica como "trabalho jornalístico ilegal".

A decisão e o modo como fui tratado pela Rússia foram completamente desproporcionais, principalmente levando-se em conta que ocorreram em função de um atentado terrorista na capital do país que pegou a todos - inclusive às próprias autoridades russas - de surpresa. Continuo exausto pelo estresse acumulado nos últimos dias - além da situação desagradável, da falta de condições de higiene e alimentação, da multa que paguei, me senti naturalmente humilhado e injustiçado (a advogada apontada pelo tribunal para me representar nem sequer leu o processo ou falou comigo antes do julgamento, saiu antes da leitura da sentença e não voltou para falar comigo!). Ademais, a tensão de não saber se o processo ia ser revertido, se algo ia mudar a cada momento, se iam me permitir contato com a embaixada e minha família e para onde ou quando eu ia ser deportado era constante e não me permitiam relaxar em momento algum.

Enfim, o pior passou. Tecnicamente estou impedido de retornar à Rússia por cinco anos, mas há modos de tentar reverter essa proibição.

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