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Jeb Bush: nem tão moderado, nem tão favorito

por Deutsche Welle publicado 17/06/2015 03h55
Ex-governador da Flórida entra na corrida pela Casa Branca como o rosto mais conhecido entre os republicanos
Andrew Patron
Jeb Bush

O ex-governador da Flórida Jeb Bush acena durante o lançamento de sua candidatura, na segunda-feira 15, em Miami

Em qualquer lista de fatos importantes sobre a vida de Jeb Bush constaria que ele é o herdeiro de uma dinastia política. Um homem rico, ex-governador da Flórida, que fala espanhol e é casado com uma mexicana. Diria-se também que ele é um moderado – especialmente em comparação ao irmão George W. – e que, ao contrário de muitos em seu partido, apoia uma reforma nas leis de imigração. Ou que, após oito anos de governo democrata, tem chances reais de chegar à Casa Branca.

Parte dessas informações, no entanto, é imprecisa ou totalmente errônea. Há pelo menos quatro importantes questões mal interpretadas sobre Jeb Bush, suas chances de ganhar a candidatura republicana e, talvez, as eleições presidenciais.

1. Um moderado

A julgar por seu histórico político durante oito anos como governador da Flórida – o único cargo eletivo que já exerceu – ele pode ser claramente qualificado como um conservador dentro dos padrões americanos.

"Jeb Bush não é um moderado. Ele é um conservador – e muito forte", opina Daniel Smith, cientista político da Universidade da Flórida. Durante seu governo, lembra o especialista, Jeb fez lobby pela privatização do sistema educacional, prisional e de transportes.

"Não é só um liberalismo de livre-mercado, mas também uma tentativa de abalar sindicatos do setor público para reduzi-lo. Isso é thatcherismo", completa.

Segundo o cientista político Lance deHaven-Smith, que escreveu um livro sobre as conturbadas eleições de 2000, Jeb Bush vem tentando mostrar uma posição moderada. Mas, na Flórida, afirma o especialista, "ele foi um governador muito conservador".

"Ele não dá muito valor para questões relacionados às minorias", diz Smith. "Quando ele foi eleito governador, e lhe perguntaram o que ele faria pelos afroamericanos, ele respondeu, e acho que de forma sincera: 'Nada'."

O consultor político Bob Shrum, estrategista em campanhas democratas há décadas, vai além: "Em assuntos internos, ele é provavelmente mais conservador que George W. Ele seria similar a seu irmão em termos do aconselhamento neoconservador que receberia em política externa."

2. Vitória certa nas primárias

Jeb Bush é o candidato a ser batido nas primárias. É ele que tem mais dinheiro, é o favorito do establishment do partido e conta com as conexões políticas e operacionais da família Bush. Antigamente isso seria mais do que suficiente para garantir-lhe a candidatura. Hoje não.

"Bush vai testar uma regra que impera há 50 anos no Partido Republicano", diz Shrum. "A de que o favorito sempre vence as primárias e se torna o candidato. Isso vem se tornando mais difícil a cada eleição."

Em 2000, George W. Bush conseguiu a nomeação com facilidade, enquanto John McCain teve dificuldade em 2008. Já em 2010, Mitt Romney se viu seriamente ameaçado por Rick Santorum, um pré-candidato que teria poucas chances de chegar à Casa Branca, segundo Shrum. "É possível que o establishment perca o controle sobre o Partido Republicano desta vez", afirma o consultor político.

DeHaven-Smith afirma que, nas primárias republicanas, Jeb Bush é tão presidenciável como qualquer outro: "Ele certamente tem todas as credenciais que os americanos esperam de um presidente. A grande pergunta é se eles querem mais um Bush", diz o cientista político.

3. Campanha insuperável

A última campanha de Bush foi em 2002 – muito tempo quando se compara o panorama de mídia atual e o de então. Ele está enferrujado, mas isso não significa que, com a vantagem financeira e o apoio da família, não possa se adaptar. Isso, porém, tem que acontecer rapidamente, e ele precisará encontrar as pessoas certas. Talvez o maior problema de Jeb Bush seja que ele não é um político nato.

"Minha teoria para a política americana é: você tem que gostar de pessoas para ser eleito presidente", diz DeHaven-Smith. "Você tem que gostar muito delas. E isso vai ser um problema para Jeb Bush."

"Ele é muito estudioso, vai a fundo nos detalhes", diz, por sua vez, Shrum. "Mas para mim não está claro se ele terá uma relação emocional com os eleitores durante as primárias republicanas."

4. Favorito contra Hillary

Mesmo após dois mandatos seguidos para os democratas, não é certo que o próximo presidente dos EUA será um republicano. "Jeb Bush não é exatamente um grande catalizador de votos", diz DeHaven-Smith. "Acho que as pessoas às vezes superestimam sua popularidade na Flórida."

Ele foi eleito governador duas vezes, mas sempre em anos em que não houve pleitos presidenciais e quando eleitores democratas deixam de ir às urnas na Flórida. "É um erro achar que, simplesmente por ter sido governador, ele vai vencer as eleições na Flórida", opina DeHaven-Smith.

Há dúvidas, por exemplo, sobre como Jeb Bush vai ser sair em estados como Iowa, onde a campanha requer um contato especial com os eleitores e a imprensa local.

Além disso, alguns setores da sociedade são hoje claramente favoráveis aos democratas. "O Partido Republicano se meteu num beco sem saída", observa Shrum. "Tem pouco apelo entre jovens eleitores e entre a Geração do Milênio [eleitores entre 18 e 29 anos, que cresceram no novo milênio], muito pouco apelo entre mulheres solteiras e alienou os hispânicos com suas posições sobre a reforma migratória."

Analistas políticos afirmam também que o sistema eleitoral americano favorece os democratas. "Num cenário em que Hillary Clinton for candidata, acho que ela vence", prevê Shrum.

Deutsche Welle