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Internacional

Entrevista - Amós Oz

"Israel só tem a perder com guerra em Gaza", diz Amós Oz

por Deutsche Welle publicado 05/08/2014 10h02
À DW, escritor apoia direito israelense de se defender, mas vê atual ofensiva como excessiva. Para ele, quanto mais vítimas, melhor para o Hamas
Mikael Forth / Biblioteca Municipal de Malmo

Amós Oz vê atual ofensiva israelense na Faixa de Gaza como fez em outros conflitos recentes envolvendo o seu país: de forma crítica. Um dos maiores defensores da solução de dois Estados, o escritor apoia o direito de Israel de se defender, mas condena ações militares excessivas – como, em sua visão, se tornou a atual.

Em entrevista à DW, o autor, que teve suas obras traduzidas para mais de 40 idiomas, demonstra ceticismo sobre o fim da guerra entre Israel e Hamas. As atuais hostilidades, afirma, só vão parar quando uma das partes estiver esgotada. E diz que Israel só tem a perder com essa situação.

"Quanto mais israelenses morrem, melhor para o Hamas. Quanto mais civis palestinos morrem, melhor para o Hamas", afirma.

Amós Oz: Eu gostaria de começar a entrevista de uma forma diferente, apresentando uma ou duas perguntas aos seus leitores. Posso fazer isso?

Deutsche Welle: Claro.

AO: Primeira pergunta: O que você faria se seu vizinho se sentasse na varanda do outro lado da rua, colocasse o filho dele no colo e começasse a atirar em direção ao quarto do seu filho?

Segunda pergunta: O que você faria se seu vizinho da frente cavasse um túnel do quarto do filho dele para o quarto do seu, com o objetivo de explodir a sua casa ou raptar a sua família?

Com essas duas perguntas, eu passo a palavra para você.

DW: Presumo que – assim como no caso da guerra do Líbano de 2006 e da ofensiva de Gaza de 2009 – você apoia a atual ofensiva israelense à Faixa de Gaza?

AO: Não, eu só apoio respostas militares limitadas, e não ilimitadas, assim como fiz em 2006 e, mais tarde, no último conflito em Gaza.

DW: Qual é o limite para você?

AO: Destrua os túneis de onde eles vêm e tente atingir estritamente alvos do Hamas, e não outros alvos.

DW: Parece haver um problema aqui. Os túneis são um sistema elaborado e difícil de se encontrar. As entradas estão escondidas em edifícios públicos e privados, de modo que você teria que fazer buscas de casa em casa, o que afeta os civis. O mesmo se aplica para destruir lançadores de foguetes em áreas civis...

AO: Bem, talvez não tenha jeito de evitar vítimas civis entre os palestinos se o vizinho coloca o filho no colo enquanto atira no quarto do seu filho.

DW: A analogia da criança no colo é realmente adequada? Gaza é densamente povoada, e as posições do Hamas estão inevitavelmente em áreas civis.

AO: Sim – e essa é a estratégia do Hamas. É por isso que Israel só tem a perder nessa situação. Quanto mais israelenses morrem, melhor para o Hamas. Quanto mais civis palestinos morrem, melhor para o Hamas.

DW: Você considera a ofensiva terrestre atual limitada ou ilimitada?

AO: Acho que em alguns pontos ela é excessiva. Não tenho informações detalhadas sobre o que está realmente acontecendo na batalha, mas a julgar por alguns dos ataques do Exército israelense a Gaza, acho que, ao menos em alguns pontos, a ação militar é excessiva – justificada, mas excessiva.

DW: Então, qual é a sua sugestão?

AO: Minha sugestão é uma aproximação com Abu Mazen [o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas] e aceitar os termos – que o mundo inteiro já conhece – para uma solução de dois Estados e a coexistência entre Israel e a Cisjordânia: duas capitais em Jerusalém, uma modificação territorial de comum acordo, a remoção da maior parte dos assentamentos judaicos da Cisjordânia.

Quando Ramallah e Nablus, na Cisjordânia, viverem em prosperidade e liberdade, eu acredito que, mais cedo ou mais tarde, as pessoas em Gaza vão fazer com o Hamas o que o povo da Romênia fez com Ceausescu. Eu não sei quanto tempo vai demorar, mas aconteceria, simplesmente porque as pessoas em Gaza teriam inveja da liberdade e da prosperidade dos seus irmãos e irmãs na Cisjordânia, no Estado da Palestina. Na minha opinião, essa é a solução, embora ela não possa ser implementada em 24 ou 48 horas.

DW: Você pode imaginar um Estado palestino que não seja hostil a Israel?

AO: Plenamente. Acredito que a maioria dos palestinos não morra de amores por Israel, mas eles aceitam, a contragosto, que os judeus israelenses não vão sair de lá. Da mesma maneira que os judeus israelenses – a contragosto – também aceitam que os palestinos estão aqui para ficar. Essa não é uma base para uma lua de mel, mas talvez para um divórcio justo, assim como no caso da República Tcheca e da Eslováquia.

DW: Mas isso evoca a imagem de um Estado palestino com uma economia em crise, um governo fraco que não consegue ser maior que grupos radicais e que pode usar a hostilidade em relação a Israel para permanecer no poder.

AO: Isso depende da quantidade de apoio e ajuda material que o novo Estado palestino receberia de Israel, dos países árabes ricos e do resto do mundo. Muitas pessoas argumentam que a solução de dois Estados está morta, dada a quantidade de assentamentos e estradas construídas na Cisjordânia. Mas anos atrás, eu vi o primeiro-ministro Ariel Sharon remover todos os assentamentos judaicos e os militares judeus da Faixa de Gaza em cerca de 36 horas e sem derramamento de sangue. Não estou sugerindo que isso se repetiria facilmente na Cisjordânia, mas acredito que nada no mundo é irrevogável, exceto a morte.

DW: No entanto, o governo de direita de Israel tem uma base de apoio forte entre os colonos judeus.

AO: É um governo de direita apoiado por um partido centrista e pacifista chamado Yesh Atid. E é está nas mãos desse partido centrista e relativamente pacifista decidir o futuro do governo de direita.

DW: Você fala de uma solução de longo prazo, mas o que poderia ser um acordo de curto prazo?

AO: As atuais hostilidades só vão parar, infelizmente, quando uma das partes ou ambas estiverem esgotadas. Esta manhã, eu li com muita atenção a carta de princípios do Hamas. Ela diz que o profeta ordena cada muçulmano a matar todos os judeus em todo o mundo. Ele cita os Protocolos dos Sábios de Sião e diz que os judeus controlam o mundo através da Liga das Nações e das Nações Unidas, que os judeus ocasionaram as duas guerras mundiais e que todo o mundo é controlado por dinheiro judaico.

Eu quase não vejo perspectiva de um acordo entre Israel e Hamas. Eu fui um homem de acordos toda a minha vida. Mas mesmo um homem apaziguador não pode se aproximar do Hamas e dizer: "Talvez haja uma solução e Israel só existirá às segundas, quartas e sextas-feiras." O Hamas está exigindo atualmente que o bloqueio à Faixa de Gaza acabe. Eu concordo com isso. Eu acho que uma abundância de recursos internacionais, árabes e israelenses deveriam ser direcionados para Gaza em troca de uma desmilitarização eficaz. Esta é uma proposta que Israel deveria fazer imediatamente.

DW: Isso não seria um sinal de que de que lançar foguetes seja um meio viável de exercer pressão?

AO: Se o retorno for uma eficaz desmilitarização da Faixa de Gaza, tenho certeza que pelo menos 80% dos judeus israelenses vai endossar tal acordo – mesmo no presente estado de espírito militante.

DW: Você está entre os 85% dos israelenses que querem que a ofensiva continue até que os objetivos estratégicos de destruir os túneis e foguetes sejam atingidos?

AO: A única alternativa para continuar a operação militar israelense é fazer como Jesus Cristo e dar a outra face. Eu nunca concordei com Jesus Cristo sobre a necessidade de dar a outra face a um inimigo. Ao contrário de pacifistas europeus, nunca acreditei que o mal supremo no mundo é a guerra. Na minha opinião, o mal supremo no mundo é a agressão e a única maneira de repelir a agressão é, infelizmente, pela força. É aí que reside a diferença entre um pacifista europeu e um pacifista israelense, como eu. E se posso adicionar uma pequena história: um parente meu que sobreviveu ao Holocausto nazista em Theresienstadt sempre lembra seus filhos e seus netos que sua vida foi salva, em 1945, não por manifestantes de paz com cartazes e flores, mas por soldados e metralhadoras soviéticos.

DW: Qual o efeito que as hostilidades constantes têm sobre as pessoas?

AO: Um efeito muito ruim. Elas aumentam o ódio, o rancor, as suspeitas, a desconfiança. Mas este é o caso de todas as guerras. É uma suposição sentimentalista e muito comum a esperança de que, de alguma forma, os inimigos vão começar a entender uns aos outros e a gostar uns dos outros e, eventualmente, eles vão se conciliar e fazer a paz. Ao longo da história, as coisas sempre funcionam ao contrário. Inimigos com seus corações cheios de amargura e ódio assinam um contrato de paz de cara feia e com sentimentos de vingança. Então, no decorrer do tempo, eventualmente, pode-se conseguir uma melhora gradual.

DW: Você escreveu há 50 anos que "mesmo uma ocupação inevitável é uma ocupação corruptora".

AO: Eu não concordo comigo mesmo sempre, mas aqui eu ainda concordo. A ocupação é corruptora, mesmo que isso seja inevitável. Brutalidade, chauvinismo, estreiteza mental, a xenofobia são as síndromes habituais do conflito e ocupação. Mas a ocupação israelense da Cisjordânia não é mais inevitável.

DW: Se você não tivesse começado a entrevista, eu teria perguntado: Como você está?

AO: Bem, pessoalmente, eu não estou muito bem. Acabo de retornar do hospital após três cirurgias e estou lentamente me recuperando em casa entre uma sirene de ataque aéreo e outra. Quando as sirenes tocam, nós vamos para o abrigo, esperamos por alguns instantes e, em seguida, tentamos continuar as nossas vidas até o próximo aviso.

DW: Você não conseguiu buscar abrigo em um hospital. Parece assustador.

AO: Não, não é. Eu vivi uma vida longa e eu lutei no campo de batalha duas vezes. Por isso, só o que é assustador é quando penso em meus netos.

DW: Os israelenses podem se sentir seguros?

AO: O quão seguro o povo judeu se sente neste planeta? Eu não penso sobre os últimos 20 ou 50 anos, mas sobre os últimos 2 mil anos. Mas vou dizer-lhe que a minha esperança e oração para o futuro de Israel é que o país saia das primeiras páginas de jornal de todo mundo para conquistar, ocupar e construir assentamentos na literatura, nas artes, na música e na arquitetura. Este é o meu sonho para o futuro.

  • Autoria Michael Hartlep (ba)
  • Edição Luisa Frey / Rafael Plaisant