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Internacional

Faixa de Gaza

Israel, a violência é um beco sem saída

por Envolverde — publicado 30/07/2010 11h59, última modificação 30/07/2010 13h02
Ataques a comboios humanitários estão longe de terem fim

Ataques a comboios humanitários estão longe  de terem fim 

Por Maired Maguire*

Belfast, Irlanda do Norte – Passaram-se dois meses desde que Israel atacou um comboio humanitário dirigido a Gaza com trágicos resultados, que incluíram a morte de nove pessoas e 40 feridos. Entretanto, como revelam os últimos fatos, tudo parece indicar que Israel sairá impune de sua flagrante violação da lei internacional.

No dia 12 de junho, foi informado que uma comissão militar israelense não encontrou falhas na ação dos comandos que participaram do ataque. E, embora o Conselho de Segurança das Nações Unidas e grupos de defesa dos direitos humanos reclamassem uma investigação independente, não há plano algum a respeito em execução. Israel considera que tais esforços a favor de uma investigação independente são uma ameaça para a existência do Estado de Israel. Qual é o resultado de tudo isto? Que os Estados Unidos e o resto da comunidade internacional se fazem de desentendidos a respeito do grave problema.

No dia 5 de junho, eu estava a bordo do Rachel Corrie, um barco que leva o nome de uma jovem ativista norte-americana morta em Gaza por um “bulldozer” (retroescavadeira) do exército israelense. Precisamente, três dias antes havíamos ouvido por um telefone via satélite que comandos israelenses haviam abordado seis barcos, incluindo a nave turca Mavi Marmara, em águas internacionais e que haviam matado e ferido muitas pessoas.

Nós, 19 tripulantes e ativistas a bordo do Rachel Corrie ouvimos que 35 comandos israelenses fortemente armados estavam se preparando para a abordagem de nossa embarcação. Alguns de nós nos perguntamos se teríamos a mesma sorte de nossos colegas do Mavi Marmara.

O assassinato de civis desarmados foi uma notícia devastadora para todos nós. Eles não eram terroristas. Como eu também penso, eles acreditavam que Gaza não deve ser um lugar de sofrimento para seus habitantes.

Na década de 70, me diziam que a paz não chegaria à Irlanda do Norte, tal como agora dizem que a paz não é possível entre Israel e Palestina. Perdi minha sobrinha, dois sobrinhos e minha irmã para a violência na Irlanda e isso destroçou meu coração, tal como o sinto destroçado agora, ao ver que o mesmo destino sofrem tantas famílias israelenses e palestinas.

No entanto, tal como levou a paz à Irlanda do Norte, a resistência não violenta poderá trazer a paz a esta região atormentada pela guerra.

Nesta viagem da Flotilha da Liberdade, o mundo estava ciente do que ocorria. Muitos, eu inclusive, acreditávamos que os fatos trágicos de 31 de maio finalmente abririam os olhos das pessoas para uma tragédia ainda maior, a do castigo coletivo que Israel aplica a 1,5 milhão de palestinos. A violação da lei internacional por Israel está bem documentada pelas Nações Unidas e por muitos organismos independentes de defesa dos direitos humanos.

Apesar disso, as violações continuam com o pretexto da defesa da “segurança nacional” e de que a política de isolar Gaza tem por objetivo debilitar o Hamas.

Porém, essa política claramente não está funcionando. No lugar disso, transformou Gaza no que corretamente foi descrito como a maior prisão a céu aberto do mundo. O bloqueio que Israel impõe a Gaza nos últimos três anos só castiga os palestinos inocentes. A falta de acesso a suprimentos médicos e tratamentos hospitalares causa uma grande perda de vidas. As famílias não podem reconstruir suas casas destruídas durante o brutal ataque a Gaza que matou mais de 1.400 pessoas no inverno 2008-2009.

E o Hamas, objetivo que Israel diz ter e que foi escolhido como o representante do povo palestino em Gaza, é cada vez mais forte.

Entretanto, o recente informe divulgado pelas autoridades militares mostra que Israel pretende continuar com suas ineficazes políticas e sua violência em lugar de optar por medidas a favor da paz. O informe chega inclusive a exaltar os comandos israelenses que mataram nove civis e diz que agiram “adequadamente, com profissionalismo, valentia e iniciativa”.

Outra investigação à parte está em marcha em Israel, conduzida por um juiz aposentado da Suprema Corte de Justiça. Devido aos antecedentes, não há razões para crer que este painel de investigadores faça algo que não seja reforçar a cultura da impunidade de Israel. Nada menos do que uma investigação verdadeiramente independente é o indispensável para as famílias das vítimas do ataque israelense e, o que é até mais importante, para o povo palestino que vive em Gaza.

A comunidade internacional deve finalmente deixar de permitir que Israel siga agindo com descarada falta de respeito em relação à lei internacional e aos direitos humanos. O recente levantamento parcial do cerco a Gaza mostra que a pressão internacional serve, mas o obtido não é suficiente.

É hora de Israel escolher a paz. É hora de os líderes mundiais e a comunidade internacional se unirem para exigir de Israel que levante por completo o cerco a Gaza e ponha fim à ocupação da Palestina, bem como permita que o povo palestino exerça seu direito à autodeterminação. IPS/Envolverde

* Mairead Maguire recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1976 por suas ações para acabar com a violência na Irlanda do Norte. É membro-fundadora da Iniciativa de Mulheres Prêmio Nobel.

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