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The Observer

Igreja Anglicana pede proteção a cristãos no Oriente Médio

por The Observer — publicado 21/08/2014 04h39
Bispos criticam o fracasso contra extremismo islâmico e atacam política "incoerente" do primeiro-ministro do Reino Unido
Safin Hamed / AFP
Crianças cristãs no Iraque

Crianças cristãs que fugiram de Qaraqosh, no Iraque, posam em igreja de Erbil, cidade curda também no Iraque, onde suas famílias buscaram refúgio

A Igreja Anglicana fez uma crítica devastadora à política para o Oriente Médio do primeiro-ministro britânico, David Cameron, descrevendo a abordagem do governo como incoerente, mal pensada e determinada pela "voz mais alta da mídia em qualquer momento dado".

As críticas foram feitas em uma carta extraordinária ao primeiro-ministro, assinada pelo bispo de Leeds, Nicholas Baines, e escrita com o apoio da arcebispo de Canterbury, Justin Welby. Vista pelo Observer, ela descreve a política externa do Reino Unido como tão confusa e reativa que é "difícil discernir as intenções estratégicas" da abordagem governamental para a região.

A carta se segue a afirmações generalizadas de que o Reino Unido e o Ocidente demoraram para reagir aos acontecimentos que se desenrolam no Iraque, enquanto o Estado Islâmico, antes conhecido como Estado Islâmico do Iraque e da Síria, impôs seu regime sangrento no norte do Iraque e em partes da Síria.

Cameron é censurado por não desenvolver um plano efetivo para enfrentar a disseminação do islamismo radical do Iraque à Nigéria, onde o grupo militante Boko Haram aterrorizou o norte do país. "Não parecemos ter uma abordagem coerente ou abrangente ao extremismo islâmico, que se desenvolve por todo o mundo", escreve o bispo.

Cameron é acusado de dar as costas ao sofrimento dos cristãos. A carta pergunta por que as dificuldades das minorias religiosas no Iraque, como a dos yazidis, parecem ter adquirido precedência. Ela nota que, apesar de o governo ter respondido prontamente a relatos de que pelo menos 30 mil yazidis foram encurralados nas montanhas de Sinjar, o destino de dezenas de milhares de cristãos iraquianos que fogem dos jihadistas de Mosul, a segunda maior cidade do Iraque, e outros lugares parece ter "saído da consciência".

Baines pergunta: "Seu governo tem uma resposta coerente para a difícil situação do enorme número de cristãos cuja condição parece ser menos considerada que a de outros? Ou estamos simplesmente reagindo à voz mais alta da mídia em qualquer momento determinado?" Ele condena o fato de não se oferecer refúgio aos cristãos iraquianos expulsos de suas casas: "Os governos francês e alemão já tomaram medidas, mas aqui até agora só houve silêncio do governo do Reino Unido".

A carta pergunta por que as indagações parlamentares feitas no mês passado para saber se o Reino Unido pretende oferecer asilo aos cristãos iraquianos ainda não foram respondidas. Baines diz que o fracasso em confrontar a questão é "algo que causa certa preocupação a mim e a meus colegas".

Escrevendo no Sunday Telegraph, Cameron sugere que está avançando aos poucos para apoiar o envolvimento do Reino Unido em uma reação militar à ameaça do Estado Islâmico. Ele diz que é importante não deixar que a polêmica e a tragédia da guerra de 2003 no Iraque matizem a reação do país à crise atual. "A criação de um califado extremista no coração do Iraque e estendendo-se à Síria não é um problema a milhas de distância de nosso país", escreve Cameron. "Tampouco é um problema que devia ter sido definido por uma guerra dez anos atrás. É nossa preocupação aqui e agora. Porque se não agirmos para conter o avanço desse movimento islâmico excepcionalmente perigoso ele se fortalecerá até que possa atingir a todos nós nas ruas da Grã-Bretanha.

"Também precisamos de uma reação política, diplomática e de segurança mais ampla... Essa ameaça não pode simplesmente ser afastada por ataques aéreos. Precisamos de uma abordagem firme, inteligente e paciente, de longo prazo, capaz de derrotar a ameaça terrorista na origem."

Enquanto o Reino Unido se prepara para dar assistência militar às forças curdas peshmergas no norte do Iraque, um importante especialista em segurança advertiu que a recente intervenção militar na região poderá servir aos interesses do Estado Islâmico. Richard Barrett, ex-chefe de contraterrorismo no MI6, disse que ataques aéreos e a decisão de Cameron de armar forças curdas poderão escalar a ameaça contra o Ocidente, reforçando a decisão dos jihadistas a tal ponto que combatentes do Estado Islâmico e da Al-Qaeda poderão unir forças.

Barrett, que passou mais de uma década rastreando os taleban para a ONU, disse que os ataques ao Estado Islâmico "alimentam a narrativa de que os EUA, o Ocidente faz parte do problema". Ele acrescentou: "Se o Ocidente faz parte do problema, a pergunta é: 'Por que não atacar o Ocidente já?' Existe um claro lado negativo de que a ação dos EUA, particularmente se for prolongada, possa levar os homens da Al-Qaeda e do Estado Islâmico a dizer: 'Está bem, vamos nos unir e agir'."

Avaliações da inteligência dos EUA sugerem que alguns jihadistas estão abandonando a Al-Qaeda no Iêmen e na África para unir-se ao Estado Islâmico. Agências de espionagem observam se líderes graduados da Al-Qaeda estão dispostos a mudar de afiliação.

Barrett disse que o Ocidente também precisa enfrentar o dilema de que, mesmo com o Estado Islâmico derrotado no campo de batalha, problemas significativos estariam à espreita. "Eles têm seu próprio território para defender agora. Mesmo assim, nem todos vão morrer no campo de batalha; os muitos milhares de estrangeiros... voltarão a seus países se forem derrotados, com um forte sentido de injustiça e uma forte motivação para continuar a luta. É claro que se não forem derrotados vão querer espalhar seu regime por seus países, de qualquer modo. Você mais ou menos perde de qualquer maneira."

A coordenadora nacional de contraterrorismo da Polícia Metropolitana, Helen Ball, disse que a situação no Iraque evoluiu a tal ponto que a polícia está apelando às namoradas, esposas e mães de potenciais jihadistas para que os convençam a não viajar ao exterior.

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