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Internacional

Análise

Iêmen, mais um país à beira do caos

por José Antonio Lima publicado 25/03/2015 13h54, última modificação 26/03/2015 09h47
A crise política ganha contornos sectários e pode fazer da nação mais pobre do Oriente Médio um campo de batalha entre o Irã e a Arábia Saudita
Mohammed Huwais / AFP
Iêmen 1

Apoiadores do movimento houthi levam bandeira do Iêmen durante ato em Sanaa, em 18 de março. O grupo xiita controla a capital do país desde setembro de 2014

Acostumado a um grau de violência moderado, o Iêmen, país mais pobre do Oriente Médio, vive nos últimos meses alguns dos episódios mais sangrentos de sua história e caminha para se tornar outro Estado falido na região, a exemplo da Síria e da Líbia. Um antigo conflito político, agravado pelo mal concebido plano de estabilização pós-Primavera Árabe, tem se acirrado e, mais recentemente, se entrelaçado com um confronto sectário entre xiitas e sunitas. A instabilidade atual, que ameaça derivar para uma guerra civil e para a divisão territorial do Iêmen, na noite de quarta-feira 25 se tornou mais aguda com o início de uma intervenção internacional liderada pela Arábia Saudita.

Em 2011, o Iêmen foi um dos vários países varridos pela chamada Primavera Árabe. A onda de protestos tinha como alvo o então ditador do país, Ali Abdullah Saleh, que ocupava a presidência há 33 anos. Ao contrário de Egito, Tunísia e Líbia, onde os déspotas de plantão foram presos, expatriados ou assassinados, o Iêmen teve uma solução negociada, que deu a Saleh a chance de continuar atuando na política iemenita. Em troca de imunidade e da manutenção da presidência de seu partido (o Congresso Geral do Povo), o ditador entregou o cargo a seu vice, Abd Rabbuh Mansur Hadi. Eleito presidente em 2012, em um pleito no qual era candidato único, Hadi tinha a missão de governar o país no período de transição, supervisionando a elaboração de uma nova Constituição e as eleições presidenciais marcadas para 2014.

Neste ponto, a transição do Iêmen era tida como "modelo" pelo governo dos Estados Unidos e pelas Nações Unidas. Em vez dos sobressaltos ocorridos no Egito, na Tunísia e na Líbia, o Iêmen teria uma transição moderada e calma. O plano falhou de forma clamorosa, no entanto, por conta de sua natureza impositiva. A transição não foi comandada por atores locais, como a juventude que liderou os protestos contra Saleh nem contemplou a plural sociedade iemenita. Foi guiada pelo chamado G-10, que incluía 11 entidades: os cinco países com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (China, EUA, França, Reino Unido e Rússia); cinco países do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã); e mais um representante da União Europeia. Duas necessidades uniam o G-10: manter o Iêmen livre de influência do Irã e com um governo alinhado à "Guerra ao Terror" – está baseada no Iêmen a Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP), o mais ativo braço da organização fundada por Osama Bin Laden, responsável, por exemplo, pela idealização do ataque contra o jornal Charlie Hebdo, em janeiro, em Paris.

O descolamento entre o comando da transição e a realidade iemenita ficou expresso na nova Constituição, endossada pela ONU e pelo G-10. Em vez de dar mais representatividade aos diversos grupos sociais do país, a Carta, aparentemente baseada na fracassada Constituição do Iraque, prevê a transformação do Iêmen em uma federação de seis regiões pouco autônomas diante do governo central. A manutenção de uma governança centralizada, que está na raiz dos problemas políticos do Iêmen e que contribuiu para a sangrenta guerra civil entre as regiões Norte e Sul em 1994, foi rechaçada por dois importantes grupos de oposição: tribos do sul, que pregam a independência de Sanaa; e os chamados houthis, um movimento político religioso de matriz xiita, baseado na região norte do Iêmen, criado para contrapor a influência saudita no país e combater as perseguições sofridas pelos xiitas.

Ao longo do ano passado, a situação no Iêmen se deteriorou de forma aguda, tanto do ponto de vista político como do administrativo. Entre várias medidas impopulares, o corte de subsídios para os combustíveis, anunciado em 30 de julho de 2014, provocou indignação e protestos. A insatisfação com o governo Hadi, somada à insuficiente resposta do presidente às demandas regionais por mais autonomia e participação política, colocou o Iêmen em um caminho sem volta.

Encorajados por uma aliança de conveniência com o ex-ditador Ali Abdullah Saleh, que ainda desfruta da lealdade de parte significativa do exército iemenita, os houthis começaram a marchar para a capital do país, Sanaa. Em setembro, o movimento tomou o controle da cidade, em uma tentativa de obter, à força, as mudanças desejadas na Constituição. Sem sucesso, em janeiro o grupo ocupou diversos prédios estatais, ministérios e o palácio presidencial, forçando a renúncia de Abd Rabbuh Mansur Hadi e dissolvendo o governo. Após passar algumas semanas sob a custódia dos houthis, Hadi fugiu em fevereiro para o sul do Iêmen, declarando a cidade de Áden como nova sede do governo central. Desde então, os houthis, com o evidente auxílio das forças leais a Saleh, parecem engajados em uma tentativa de tomar o controle de todo o território iemenita. A terceira maior cidade do país, Taiz, foi capturada no domingo 22, e o palácio que passou a abrigar o governo Hadi em Áden tem sido bombardeado repetidamente. Nesta quarta, Hadi teria abandonado o país.

Xiitas x Sunitas?

A empreitada dos houthis tem efeitos nefastos, por ser percebida, interna e externamente, como uma campanha xiita e impulsionada pelo Irã para tomar território sunita.

Dentro do país, a expansão do domínio houthi é rechaçada por boa parte da população. Em Taiz, por exemplo, milhares de pessoas foram às ruas protestar contra a presença do movimento xiita. Tribos sunitas, com apoio financeiro e logístico da Arábia Saudita, arregimentaram uma frente de 10 mil homens para conter o avanço houthi. Nas regiões sunitas onde as tribos são menos organizadas, a resistência é feita em grande parte por grupos jihadistas, nomeadamente a Al-Qaeda, que nos últimos anos entrou em confronto com os houthis diversas vezes. O risco é que a onda xiita vinda do norte galvanize a população sunita, embaralhando o conflito político interno do Iêmen com um confronto sectário incomum para o país – o zaidismo, a versão do xiismo dos houthis, é a mais próxima do credo sunita. O impressionante duplo atentado da sexta-feira 20, em que 142 pessoas morreram e centenas ficaram feridas em duas mesquitas xiitas de Sanaa, é um indicativo de que esse processo está em curso. Reivindicado pelo Estado Islâmico, que até então não tinha agido no Iêmen, o ataque mostrou que o caos pode estar apenas no início.

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Em Lahj, no sul do Iêmen, separatistas sulistas, guerreiros tribais e integrantes de um Comitê de Resistência Popular posam juntos na quarta-feira 25: a ofensiva houthi conseguiu aglutinar diversos grupos diferentes da sociedade iemenita

À medida que a situação interna do Iêmen degringola, a chance de o país se tornar palco para um acerto de contas entre a Arábia Saudita e o Irã cresce. Os dois países são inimigos declarados e estão engajados em uma ferrenha disputa por poder e influência no Oriente Médio, que tem aspectos político-militaresdiplomáticoseconômicos.

Para a Arábia Saudita, a instabilidade no Iêmen, com a qual divide uma enorme e porosa fronteira, é um problema significativo, em especial porque o governo saudita não tem aliados no país fortes o suficiente para unificá-lo. Atualmente, o Irã tem ganhado influência no Iraque, que se localiza ao norte da Arábia Saudita. A ver um grupo aliado do Irã dominar também sua fronteira sul, caso do Iêmen, a Arábia Saudita pode apostar na tentativa de dividir o território iemenita em dois. Nesta quarta-feira 25, após deslocar blindados e equipamentos de artilharia para a fronteira com o Iêmen, a Arábia Saudita deu início à operação Tempestade Decisiva e começou a bombardear o Iêmen. A campanha saudita é apoiada por quatro dos outros cinco países do GCC – Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Catar e Kuwait (Omã se recusou a participar) – além de Egito, Jordânia, Marrocos, Paquistão e Sudão. Os Estados Unidos apoiam a missão, com apoio logístico e de inteligência ao bombardeios.

O ministro do Exterior do Irã, Mohammad Javad Zarif, afirmou que os ataques sauditas deveriam "parar imediatamente". Segundo ele, a ofensiva é "um passo perigoso" que só vai piorar a situação no país.

Como se vê, a situação no Iêmen é catastrófica. A transição pós-Primavera Árabe, coordenada pelo famigerado G-10, não apenas não resolveu os problemas do país como os agravou, ao ignorar os atores locais e manter ativo o ex-ditador. O novo governo continuou sem dar espaço para grupos historicamente marginalizados e esses, nomeadamente os houthis, foram seduzidos pela possibilidade de fazerem valer suas demandas por meio da força. Com as potências mundiais e regionais descreditadas pela transição fracassada ou cogitando uma interferência militar, caberia à sociedade iemenita buscar soluções pacíficas. A cautela e o equilíbrio, entretanto, estão em falta. Na quarta-feira, a ativista Tawakkol Karman, vencedora do Nobel da Paz de 2011 por sua atuação na Primavera Árabe, chamou o avanço dos houthis, iemenitas como ela, de "projeto invasor persa", uma alusão à influência iraniana sobre o movimento xiita. O Iêmen está diante do precipício e parece não ter mais como voltar atrás.