Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Greve de fome como arma

Internacional

Em tempos de Facebook

Greve de fome como arma

por Paula Thomaz — publicado 26/08/2011 09h00, última modificação 29/08/2011 15h18
Em plena era das revoluções pelas redes sociais, lideranças apelam para a greve de fome para chamar a atenção das autoridades. Por Paula Thomaz. Foto: Sajjad Hussain/AFP

O ano de 2011 começou com o calendário cheio de protestos. Primeiro, as manifestações da primavera árabe que culminaram com a derrubada de ditadores no Oriente Médio. Ocupações de praças, passeatas, marchas e caminhadas no Brasil e no mundo convocadas pelas redes sociais, celulares e e-mails, ditaram uma nova forma de expressar reivindicações, sem o intermédio de partidos ou sindicatos.

Enquanto uns usam a internet para juntar a massa e mostrar indignação, outros recorrem à greve de fome. Recentemente, uma importante figura indiana, o veterano ativista social Anna Hazare, colocou a própria vida em risco em combate à corrupção em seu país. E por uma semana fez greve de fome. Admirador de Mohandas Ghandi, idealizador e fundador do estado indiano moderno, Hazare conseguiu chamar a atenção das autoridades indianas. Nesta quinta-feira 25, teve o primeiro diálogo com o governo. Na Índia, Gandhi não foi precursor da tática, mas foi com ele que a greve de fome se tornou  artifício de luta para seu povo.

Leia mais:

“A greve de fome é um recurso político extremo”, diz o psicólogo social Wanderley Codo, da Universidade de Brasília (UNB). Segundo Codo, é importante distinguir a greve de fome como um instrumento político válido, quando atinge uma causa unanime. “Ela envolve emoção e provoca no oponente um beco sem saída. Se ele faz o que você quer ele perdeu e, se ele deixar você morrer, a opinião pública vai ficar contra ele.”

De grande poder político, normalmente a greve de fome abre um processo de negociação e as autoridades se abrem a um possível acordo. É o que acontece na Índia. Na terça-feira 23, o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, pediu ao ativista que parasse com a greve de fome que já dura uma semana, tendo como moeda de troca o debate de uma versão mais contundente do projeto de lei que deve fiscalizar o poder público. Há sete dias, essa foi a primeira tentativa de diálogo. Hazare aceitou negociar. Como efeito, na próxima quarta-feira 31 uma nova reunião com os partidos do Parlamento indiano está marcada. Nela, deverá ser discutida a criação de uma agência estatal que lutará contra a corrupção no país.

O exemplo vindo da Índia não é o único recente. No Chile, desde o mês de junho estudantes e professores têm saído em protestos nas ruas por melhores condições no ensino público médio e superior. As manifestações expressam o descontentamento com as políticas de privatização da educação do governo de Sebastian Piñera. Depois de dois meses de gritos, em meados de julho cerca 40 estudantes do ensino médio da cidade de Buin decidiram fechar a boca e iniciaram a greve de fome. Sem respostas aos protestos, por mais de 40 dias, na tarde de quarta-feira 24, os estudantes decidiram interrompê-la. Eles estavam ficando com estado de saúde debilitado e criticaram o presidente por falta de resposta ao movimento.

Gloria Negret, uma das grevistas internada há uma semana, falou que o fim dessa forma de protesto se deu pela preocupação dos familiares com a saúde deles. A aluna chegou a dizer que reconhece que todos os grevistas estão em "precário estado de saúde". Cerca de 20 outros estudantes do ensino médio e universitários se mantêm também em jejum em diferentes lugares do Chile.

Para o psicólogo da UNB, válida como um último recurso, a greve de fome é, “no fim das contas, uma tentativa desesperada de mobilização. E não faz sentido enquanto houver outras formas às quais recorrer”.

No Brasil, a greve de fome do bispo de Barra (BA), Luiz Flávio Cappio, contra o projeto de transposição do Rio São Francisco, ganhou as páginas dos jornais brasileiros em 2005 e em 2007. Por duas vezes dom Luiz protestou, colocando em risco a própria vida. Na primeira, pelo projeto em si, com 11 dias de duração, ele conseguiu um acordo com o então presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. “Quando o presidente Lula me chamou lá no Palácio do Planalto depois da primeira greve de fome ele me perguntou por que eu a fiz, e porque eu não o procurei antes para conversar. Eu disse, ‘olha presidente, eu muitas vezes tentei falar com o senhor e o senhor jamais teve a boa vontade de ouvir a nossa fala’."

E continua: "Em cima da mesa dele tinha muitos documentos, uma pilha e eu mostrei, ‘tá vendo todos esses documentos que o senhor tem sobre a sua mesa, assinado por todos os segmentos da sociedade civil brasileira?, todos têm a minha assinatura, sou signatário de todos os documentos contrários a esse projeto.’ Nós nunca fomos ouvidos ou atendidos. De muitas maneiras a sociedade civil se mobilizou: universidades, técnicos, cientistas, comunidades ribeirinhas e associações, grupos quilombolas, indígenas.”

A segunda greve de fome teve início porque, depois de assinar um acordo com o governo, dom Luiz viu o projeto saindo do papel e o acerto sendo descumprido. E em 2007 ficou mais 24 dias em um novo jejum.

É como ele prefere denominar a greve de fome. “É um nome mais religioso” afirma. Na época todas as tentativas de diálogo com o governo brasileiro sobre a questão das águas do Rio São Francisco e o projeto de transposição de águas foram frustradas. “O governo se fechou ao diálogo com a sociedade civil brasileira. Entendíamos que um projeto dessa magnitude, que envolvia tantos segmentos sociais e também consumiu tantos recursos do dinheiro público deveria ser dialogada e assumida conjuntamente com a sociedade. Apenas um pequeno grupo do governo que estava decidindo por todos”, diz.

Foi quando o bispo decidiu fazer a segunda greve de fome. Na ocasião, recorda, ele tomava somente água, todos os dias, várias vezes, mas era só. Para aguentar, segundo ele, o fundamental é a espiritualidade. “Se a pessoa que assume uma postura dessa natureza, não está dentro de um contexto e de uma profunda espiritualidade com Deus e com o povo, com um grande ideal, não consegue realiza-la. Na medida em que os dias da greve vão caminhando, você vê a morte chegando passo a passo próxima de você. E se não estiver fortalecido espiritualmente, você não alcança o objetivo. E eu, como bispo, como pastor de Deus, eu sou capaz de dar a vida a bem das ovelhas de meu rebanho e a minha missão é o meu rebanho. E por missão eu tenho que colocar, até se for necessário, a minha vida à disposição.”

Após quase um mês de greve, o bispo perdeu os sentidos, desmaiou e foi parar na UTI. Nesse momento, todos os grupos que o acompanhavam pediram que ele deixasse o jejum e continuasse a luta de outras maneiras. “Foi o que fizemos. E teve início um longo período de lenta recuperação da ingestão de alimentos. Porque o organismo perde totalmente a capacidade de ingerir alimentos e a gente tem de reaprender a ingerir alimentos. A gente tem de voltar a comer bem devagar, até que o organismo se acostume novamente.”

Para dom Luiz, valeu a pena fazer a greve. Foi um grande alerta. “Isso fez com que em torno desse gesto, todos os grupos que sempre se manifestaram contrários ao projeto, sentiram fortalecidos e confirmados na sua posição contrária. E alertou não apenas o Brasil, mas o mundo inteiro sobre o absurdo do projeto.”

Atualmente o bispo acompanha de perto a evolução das obras de transposição do São Francisco. Ele acaba de voltar de uma visita a Juazeiro e, segundo ele, as obras da região estão paradas. “Já gastaram rios de dinheiro com as obras, mas elas estão paradas e eu tenho certeza de que não vão para frente. Por enquanto é muito cedo, só o tempo vai dizer quem estava com a razão.”

Exemplos não mais felizes de greve de fome também ilustram a trajetória de guerreiros solitários. O prisioneiro cubano Orlando Zapata, que protestava pela maneira como era tratado na prisão, passou 85 dias em greve de fome e não resistiu. Desde 2002 ele vivia em recorrente entra e sai das prisões em seu país. Em 2003, foi detido por fazer parte do grupo conhecido como Primavera Negra e condenado a 18 anos de prisão por desordem pública.

Outro cubano que resolveu fazer greve de fome este ano, foi opositor cubano Guillermo Fariñas. Mas depois de uma semana sem comer em protesto contra a morte do dissidente Juan Wilfredo Soto, ele decidiu suspendê-la para evitar que ex-presos políticos, que já estavam mal de saúde, se unissem à ação. Na época Fariñas chegou a afirmar que desistiu do protesto porque foi “chantageado, no bom sentido da palavra. Posso arcar com minha morte, mas não com a de outras pessoas”, disse.

Com seu protesto, Fariñas pretendia "causar o maior custo político ao governo". Nos últimos 15 anos ele diz já ter feito mais de 20 greves como essa.

registrado em: