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França acorda com desastre nuclear japonês

por Envolverde — publicado 18/03/2011 11h31, última modificação 18/03/2011 11h31
Não surpreende que o governo francês tenha tentado minimizar a dimensão da crise japonesa. A explosão em Fukushima “não foi uma catástrofe”, disse inicialmente o ministro da Energia, Eric Besson. Por Julio Godoy

Por Julio Godoy, da IPS

Paris, França, 18/3/2011 – A maioria dos franceses não se preocupava se os 58 reatores nucleares do país são seguros o bastante para continuar operando vários anos mais, até que o Japão começou a ter problemas nas centrais de Fukushima. A população ignorava as provas apresentadas por ativistas que, apesar da indiferença geral, continuaram remexendo nas incomensuráveis complexidades da burocracia francesa em matéria energética para encontrar a verdade sobre a precariedade das usinas nucleares.

Após a catástrofe nuclear japonesa, até o mais estoico dos franceses começou a refletir sobre a possibilidade de seu país estar à beira do desastre. Não foram feitas pesquisas de opinião representativas, mas uma quantidade substancial de pessoas ouvidas por alguns meios de comunicação disse estar a favor de uma política menos dependente da energia atômica. A imprensa conservadora, a favor das usinas, revelou ontem que no ano passado houve mil acidentes de diferentes intensidades nos complexos atômicos do país.

Os dados oficiais constam de um informe sobre segurança nas centrais da França que será apresentado ao parlamento em abril. O documento preparado pela Agência de Segurança Nuclear deveria ser confidencial, mas se tornou público com o desastre no Japão após o terremoto e o tsunami. A França é o país europeu com mais centrais nucleares em funcionamento e o que mais depende dessa fonte de energia no mundo. Os 58 reatores geram 80% da eletricidade consumida. A densidade de sua localização é tal que ninguém consegue estar a mais de 300 quilômetros de distância de um reator.

A grande quantidade de acidentes nas centrais atômicas não é novidade para os ativistas franceses. Metade delas tem mais de 25 anos, disse à IPS o presidente do Observatório de Energia Nuclear, Stéphane Lhomme. “Metade dos reatores está perto do final de sua vida útil e sofre os problemas da idade”, afirmou. Numerosos reatores também sofrem “defeitos de projeto”, que regularmente causam anomalias técnicas, disse Stéphane. “A França esteve várias vezes à beira de um desastre nuclear nos últimos dez anos”, assegurou.

Quando o Furacão Martin atingiu a parte sudoeste da costa atlântica da França, em dezembro de 1999, a usina de Blayais, perto da cidade de Bordeaux, foi inundada pela água do mar e teve de ficar fechada vários dias. “Estivemos perto de uma catástrofe”, recordou Stéphane. Uma rachadura no sistema de esfriamento da central de Civaux, em maio de 1998, causou um grande vazamento radioativo que por várias horas ficou fora de controle. A usina ficou fechada por dez meses. Várias centrais francesas estão localizadas em áreas de atividade sísmica, disse.

“O risco de um terremoto da intensidade do registrado no Japão é baixo na França, mas nossas usinas são mais frágeis do que as dos japoneses”, ressaltou Stéphane. A central mais antiga da França, em Fessenheim, perto da fronteira com a Alemanha e a Suíça, está em “uma área de muita atividade sísmica e perto de um rio”. Apresentou numerosos problemas técnicos, a maioria em seus sistemas de resfriamento, e teve de permanecer fechada quando 50 metros cúbicos de gás radioativo vazaram para a atmosfera, acrescentou.

Não parece que a França vá diminuir sua dependência da energia nuclear no futuro próximo, apesar da amplitude de provas sobre os defeitos técnicos. “Todos os partidos políticos defendem esta fonte de energia e estão ligados, de uma forma ou outra, ao complexo industrial. A França não tem alternativa”, explicou Stéphane.

Não surpreende que o governo francês tenha tentado minimizar a dimensão da crise japonesa. A explosão em Fukushima “não foi uma catástrofe”, disse inicialmente o ministro da Energia, Eric Besson, que depois se corrigiu e afirmou que “um pesadelo havia voltado”. Acrescentou que “é legitimo um debate sobre energia nuclear na França, mas não é indispensável. Continuo acreditando em seu uso com fins civis”.

A oposição pediu um referendo sobre uso da energia nuclear. Os dirigentes do Partido Verde sugeriram eliminá-la em 25 anos. O primeiro-ministro, François Fillon, considerou “absurda” a conclusão a que chegaram jornais e ambientalistas de que “após o acidente de Fukushima, a energia nuclear está completamente condenada”. O governo anunciou que controlaria a segurança de todas as usinas em operação.

A primeira medida que a França pode tomar para reduzir sua dependência nuclear é diminuir o “descuidado consumo elétrico”, disse Stéphane. “Economizaríamos uma grande quantidade se isolássemos melhor as casas e os prédios e deixássemos de nos aquecer com eletricidade”, acrescentou. Dos lares franceses, 80% usam aquecedores elétricos. “É a consequência da conivência entre o monopólio estatal Eléctricité de France e a indústria da construção, que não instala gás nem outros sistemas de calefação nas residências”, explicou.

A França poderia abandonar a energia nuclear em 2035 se adotasse uma política baseada na eficiência energética, para reduzir o consumo desnecessário, e um programa maciço para usar fontes renováveis, especialmente as eólica e solar, segundo a négaWatt, associação de 350 especialistas.

“Em 2035 poderíamos fechar todas as usinas nucleares e dependermos apenas de geradores geotérmicos e hidrelétricos de menor escala, grandes parques com turbinas eólicas, estruturas fotovoltaicas e unidades de biomassa, e ter energia suficiente para atender as exigências elétricas do país”, disse à IPS o diretor da négaWatt, Thierry Salomon. Em 2050, a França consumiria o dobro da eletricidade que usa agora e poderia não necessitar da energia nuclear, segundo Thierry. “Não voltaríamos a usar velas nem necessitaríamos de centrais atômicas”, acrescentou. Envolverde/IPS

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