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Foro de São Paulo chega a acordo em resolução sobre as FARC

por Opera Mundi — publicado 19/08/2010 10h04, última modificação 19/08/2010 11h09
O projeto de resolução afirma que “não ha solução militar para o conflito na Colômbia” e reivindica “saída política negociada” entre o governo e as forças guerrilheiras

Por Breno Altman e Luciana Taddeo, de Buenao Aires*

A comissão de redação da declaração final do XVI Encontro do Foro de São Paulo, após horas de negociação e debates, chegou a um consenso no início dessa madrugada (19/08). A situação colombiana era o principal ponto de discórdia. Mas o texto final, que ainda deverá ser apresentado à plenária das organizações presentes, faz um apelo para que “as hostilidades sejam imediatamente interrompidas” e prega “respeito aos direitos humanos, com o fim dos sequestros, desaparecimentos e prisões arbitrárias”.

O projeto de resolução também afirma que “não ha solução militar para o conflito na Colômbia” e reivindica “saída política negociada” entre o governo e as forças guerrilheiras, se necessário com “mediação internacional”. A entidade continental considera que o primeiro passo para essa negociação seria a concretização de “acordos humanitários”, que levem à “libertação das pessoas detidas” de ambos os lados.

O acordo adotado foi um ponto de equilíbrio entre a posição do Partido dos Trabalhadores (Brasil), que defendia apelo direto para as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia ) declararem cessar-fogo unilateral, e delegações que não aceitavam pressão direta sobre a guerrilha colombiana. O secretário-executivo do Foro, Valter Pomar, da direção petista, tornou pública a posição de seu partido na véspera do encontro continental.

No ato político de abertura do Foro, na noite de quarta-feira (18/08), o deputado federal José Eduardo Martins Cardozo, secretário-geral do PT, voltou à carga durante seu discurso aos 600 delegados inscritos, representando 54 partidos e movimentos. “É chegada a hora de cessar as ações armadas, que trazem tanto dano à população colombiana e golpeiam fortemente a própria esquerda daquele país”, declarou o parlamentar. Apenas parte da platéia aplaudiu sua opinião.

Nos bastidores, representantes de partidos da própria Colômbia trataram de resistir ao ponto de vista dos dirigentes petistas, com apoio de outros agrupamentos. “Em um conflito como o nosso não é possível o desarmamento, isto já foi tentado e não funcionou”, afirmou a senadora Gloria Inés Ramírez Ríos, do Partido Comunista, em entrevista ao Opera Mundi. “Temos que começar com uma agenda humanitária que dê início ao processo de negociação, libertando reféns e presos políticos, além de acabar com o sequestro como instrumento de ação política e o recrutamento de menores.”

O temor da senadora reflete os acontecimentos de 1985. Naquele ano, após negociações com o então presidente Belisario Betancur, as FARC aceitaram depor armas e seus militantes se integraram a União Patriótica, uma frente de esquerda que se preparava para disputar eleições. Desarmados, milhares de seus militantes foram assassinados por grupos paramilitares e de narcotraficantes.

"Consenso possível" - A posição do PT, contudo, parece ter outras preocupações. “A guerrilha deveria adotar uma posição forte, mesmo que arriscada e unilateral, para romper com o ciclo da guerra e forçar negociações sérias”, explica Valter Pomar. “A libertação incondicional de reféns e o anúncio da deposição de armas facilitaria a mediação internacional e o oferecimento de garantias humanitárias.”

Apesar do apoio da delegação argentina aos brasileiros, outras organizações importantes – como a Frente Ampla (Uruguai), a Frente Sandinista de Libertação Nacional (Nicarágua) e a Frente Farabundo Marti (El Salvador) – referendaram a posição dos representantes colombianos. “O consenso possível foi uma convocação aberta para que os combates cessem e negociações sejam imediatamente iniciadas, com prioridade à agenda de direitos humanos”, afirmou Pomar.

A resolução do Foro também deverá condenar a instalação de bases militares norte-americanas no país andino, a reativação da IV Fronta (que circula pelo hemisfério sul do continente americano) e a continuidade do Plano Colômbia (apoio militar dado pelos Estados Unidos com o suposto motivo de combater os narcotraficantes e as formações guerrilheiras).

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