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Farc: perigo imaginário?

por Paolo Manzo e Rodrigo Martins — publicado 11/08/2010 11h37, última modificação 11/08/2010 11h37
A guerrilha colombiana vira tema de campanha no Brasil e estremece as relações entre Bogotá e Caracas. Fora dos discursos, poucos acreditam nesta ameaça

A guerrilha colombiana vira tema de campanha no Brasil e estremece as relações entre Bogotá e Caracas. Fora dos discursos, poucos acreditam nesta ameaça

A estratégia do medo volta a embalar a campanha eleitoral brasileira. O fantasma do momento são as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Em nome desse espectro, Índio da Costa, candidato à Vice-Presidência na chapa tucana, associou o partido da concorrente petista ao Planalto, Dilma Rousseff, à guerrilha colombiana. “Todo mundo sabe que o PT é ligado às Farc, ligado ao narcotráfico, ligado ao que há de pior”, afirmou. Serra tirou a menção às drogas, mas o referendou.

O que parecia ser apenas mais uma jogada rasteira na corrida presidencial voltou aos holofotes depois que o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, acusou a Venezuela de hospedar os “terroristas das Farc”. O ministro da Defesa colombiano, Gabriel Dias, antecipou que levaria a uma reunião da Organização dos Estados Americanos as provas, e apresentou à imprensa fotos de supostos acampamentos das Farc em território venezuelano, imagens essas que, na sua interpretação, comprovam o “apoio ao terrorismo” do vizinho bolivariano.

“Trata-se de uma mentira absoluta, como a de Colin Powell (ex-secretário de Estado americano) no Conselho de Segurança das Nações Unidas para justificar o ataque ao Iraque, com provas fajutas de que o país possuía armas de destruição em massa”, afirma Maximilien Arvelaiz, embaixador da Venezuela no Brasil, ao justificar o rompimento das relações com Bogotá. Única diferença: Powell mostrou imagens de supostas fábricas de armas químicas em solo iraquiano, enquanto as provas colombianas mostram apenas quatro guerrilheiros assando um porquinho.

Em meio à troca de acusações, sobrou até para o presidente do Paraguai, o ex-bispo católico Fernando Lugo, acusado pelo diário ABC de ter ligações com o Ejército del Pueblo Paraguayo, adestrado pelas Farc. Também aqui, uma foto do presidente ao lado dos supostos terroristas como prova de seu apoio à organização, que o próprio Lugo considera terrorista. Mas o que seria exatamente esse fantasma que alimenta a campanha do medo no Brasil  e causa abalos diplomáticos na América do Sul? A guerrilha colombiana realmente ameaça a segurança continental?

Muito distante do alardeado risco de guerra entre Bogotá e Caracas parece estar o interesse de Uribe. Especialistas ouvidos por CartaCapital asseguram que as Forças Especiais do Exército estão engajadas no ataque às regiões onde se supõe estar Alfonso Cano, que assumiu o comando das Farc após a morte de Manuel Marulanda. Os alvos são os departamentos de Cauca, Huila, Putumayo e Amazonas, próximos ao Peru e Brasil. Pouca mobilização haveria, de fato, na fronteira com a Venezuela.

O governo americano propôs uma investigação internacional sobre a suposta colaboração de Chávez com as Farc. Militares dos EUA de altíssimo escalão, no entanto, já consideram a guerrilha controlada. Na publicação The Year in Special Operations, editado pela Defense Media Network, por exemplo, há uma entrevista com o general Michael S. Repass, comandante das Forças Especiais americanas, na qual o militar comemora o bom desempenho dos soldados colombianos na luta contra os talebans no Afeganistão. Graças ao adestramento fornecido pelos EUA na luta contra a guerrilha na Colômbia. “Hoje as Forças Armadas (colombianas) são muito mais efetivas que as Farc, que estão em declínio absoluto.”

Além disso, em março deste ano, o senador John McCain perguntou ao general Douglas Fraser, chefe do Comando Sul dos EUA, em audiência no Senado, sobre os supostos vínculos da Venezuela com o terrorismo e as Farc. Resposta: “Continuamos a observá-los de muito perto. Não posso falar sobre nenhuma conexão específica direta do governo com o terrorismo”. Para o escritor e jornalista italiano Guido Piccoli, um dos mais conceituados especialistas europeus sobre as Farc, a guerrilha, de fato, sofreu baixas. “No passado, eram mais de 20 mil combatentes. Hoje, são muito menos, mas ainda superam os 10 mil guerrilheiros”, afirmou a CartaCapital.

Se as Farc não chegam a ameaçar o -poder na Colômbia, resta ainda a acusação de que são poderosos narcotraficantes. Como é de conhecimento de todos, nenhuma guerrilha vinga sem o suporte de atividades ilegais. Desde o início da insurgência, as Farc se sustentavam com o que Guido Piccoli chama de “taxas revolucionárias”, que, na realidade, não passam de “extorsões relacionadas ao furto de gado e ao sequestro de pessoas”. Hoje, segundo informações da Drug Enforcement Administration (DEA), ligada ao governo americano, a guerrilha controla 1% do faturamento do tráfico internacional de cocaína. “Como fazem esse cálculo, só unidade de propaganda imperialista saberia informar”, pontua Wálter Fanganiello Maierovich, ex-secretário nacional de combate às drogas e colunista de CartaCapital.

Piccoli não tem dúvidas de que as Farc bebem na fonte do narcotráfico. As atividades concentram-se, porém, no controle da primeira fase de produção da cocaína. “Prova disso é que, nas grandes operações de combate ao tráfico, nenhum guerrilheiro acabou sendo preso, ao passo que diversos paramilitares foram pegos”.

Paramilitares esses que cresceram com o apoio da família Uribe. O ex-senador Mário Uribe, primo do presidente, por exemplo, está sendo julgado pela Suprema Corte da Colômbia por associação com Salvatore Mancuso, extraditado em 2008 para os EUA, onde enfrenta um processo por tráfico de drogas. Mancuso, por sinal, era o chefão do mais poderoso grupo paramilitar, as Autodefensas Unidas de Colombia (AUC), e um dos principais parceiros comerciais da máfia calabresa ‘Ndrangheta.

Maierovitch sublinha que o pai de Uribe, Alberto, “era ligado ao narcotraficante Pablo Escobar e um de seus helicópteros, por diversas vezes, foi fotografado – por agentes da CIA e da DEA – na Tranquilândia, nome dado a uma enorme área onde, sem ser incomodados pela polícia, funcionavam os laboratórios de refino de cocaína de Escobar, chefe do cartel de Medellín, juntamente com a família Ochoa”.

O colunista também acentua que “o presidente Uribe era íntimo da família Ochoa, composta por traficantes de cocaína extraditados para os EUA e autorizados a retornar à Colômbia num acordo feito com a CIA, delações envolvidas. Hoje, os Ochoa são os mais ricos latifundiários colombianos. Não se deve esquecer que Álvaro Uribe, quando prefeito de Medellín, fez promessa de executar os ‘projetos sociais’ elaborados e difundidos pelo próprio Escobar.”

“Quando diretor do Departamento da Aviação Civil Colombiana, Álvaro Uribe renovou as patentes e os brevês de aviadores notoriamente a soldo dos cartéis de drogas, em especial do chamado Expresso Aéreo da Cocaína, de Escobar”, diz Maierovitch. “Como deputado, Uribe foi contra a reforma constitucional que autorizava a extradição, com relação a naturais da Colômbia condenados por tráfico internacional de drogas. Essa sua posição favorecia os seus fraternos amigos Ochoa e, por tabela, Escobar. Coube a Uribe dar apoio aos paramilitares, tendo sido o artífice da fase de privatização da guerra contra às Farc, tudo como já havia ocorrido antes, por decisão da Suprema Corte Colombiana.”

Por mais que se condene os métodos de financiamento das Farc, baseados no sequestro, no roubo e no tráfico de drogas, há de se levar em conta que a guerrilha, criada em 1964, surgiu para lutar contra a brutal desigualdade social de um país afogado em uma violência extrema. Um cenário que não mudou tanto assim ao longo das últimas décadas. “A Colômbia é um dos países com a maior injustiça social e onde a democracia é apenas aparente”, afirma Piccoli. “E, no campo, onde as guerrilhas atuam, o Exército é acostumado a uma forma de agir criminosa. Nessas regiões, os camponeses têm mais terror dos militares do que das Farc. Basta lembrar os últimos crimes denunciados, sem paralelo no mundo, dos falsos positivos.”

Poucos jornalistas escreveram no Brasil sobre essa modalidade criminosa. Revelados há pouco tempo, os “falsos positivos” são execuções sumárias de camponeses pela mão de militares que afirmam, em seus relatórios, haver eliminado subversivos das Farc. Obtinham em troca recompensas em dinheiro, promoções na carreira e outras benesses. Tudo por matar falsos combatentes. “Obviamente, se você não mata um guerrilheiro das Farc, você finge que o seja, para obter recompensas e honrarias”, agrega Piccoli. O documentário Los Falsos Positivos, lançado em 2009 no Sundance Festival, explica em detalhes o caso e impressionou o público americano.

Embora ignorado no Brasil trata-se de um problema atual. Na terça-feira 27, o Tribunal Superior de Antioquia condenou a 30 anos de prisão o tenente Alejandro Ramírez Riaño por matar um campesino em Cocorná e reportar o caso como uma batalha contra as Farc. O número de vítimas do estratagema dos falsos positivos está na casa dos milhares, dizem especialistas.

As valas comuns de mortos nas montanhas colombianas reforçam a estimativa macabra, bem como os assassinatos indiscriminados. Apenas em La Macarena, o maior cemitério clandestino já descoberto no continente, foram encontradas 2 mil ossadas, próximo de uma área que era o-cupada pelo Exército. O ministro da Defesa colombiano negou que as Forças Armadas tenham ocultado o massacre. “Trata-se de um cemitério das Farc já reconhecido e relatado há mais de dez anos”, justificou-se.

Quanto às relações das Farc com políticos do PT, só se espantou o Índio. O partido foi um dos articuladores do Fórum de São Paulo, criado em 1990 para reunir partidos e organizações de esquerda latino-americanas, incluindo os grupos que aderiram à luta armada. Representantes das Farc, inclusive, deram palestras em solo brasileiro. “Com a eleição de Lula, o PT retirou o apoio à participação de organizações armadas no fórum. Mas, claro, há simpatizantes no partido, e não só no PT. No mundo inteiro”, afirma Edson Albertão, ex-vereador de Guarulhos pelo PT, hoje filiado ao PSOL. Tido como um contato informal das Farc no Brasil, Albertão se diz amigo pessoal de Raúl Reyes, que cuidava das relações exteriores das Farc. “Estive várias vezes nas montanhas com ele. E participei de encontros com as Farc em diversos países. Isso não significa que os governos desses países davam apoio. Eram todas reuniões- clandestinas”, completa.

Morto em 2008 no Equador, após bombardeio colombiano que gerou uma crise muito superior à existente hoje entre Bogotá e Caracas, Reyes chegou a ser recebido no Vaticano juntamente com uma delegação da guerrilha. Não consta que o papa tenha sido acusado de ser simpatizante do terrorismo internacional, como ocorreu com Marco Aurélio Garcia, um dos promotores do Fórum de São Paulo. O atual assessor para política internacional de Lula foi citado em e-mails confiscados no computador de Reyes, após a morte do guerrilheiro. O colombiano reclamava, inutilmente, da falta de apoio de Garcia para as Farc.

O governo da Venezuela pretende esperar a posse de Manuel Santos, no 7 de agosto, para retomar o diálogo com a Colômbia. “Não faz sentido conversar com um presidente que está de saída e fez acusações tão graves”, explica Arvelaiz, embaixador venezuelano no Brasil. Até lá, prevê Piccoli, o problema não será o risco de uma guerra, e sim a possibilidade de Uribe intensificar os atos de força contra a guerrilha.

Quando assumiu a Presidência em 2002, Uribe prometeu que acabaria com as Farc em poucos meses. “Depois de oito anos, estão ainda aí. O triunfo, para ele, seria levar como troféu de saída da Presidência a cabeça de Cano”, avalia Piccoli.

Para a posteridade, restam os julgamentos dos paramilitares extraditados por Uribe para os EUA. Antigos parceiros de negócios de sua família podem criar problemas se falarem demais.

“Uribe os mandou para fora com a condição de que não falassem. O problema é que eles começaram a revelar parte dos crimes cometidos por vários políticos”, completa o especialista. Para ele, não seria surpresa se o Tribunal Penal Internacional fizesse uma devassa na história da Colômbia, semelhante à ocorrida com a ex-Iugoslávia. “Uribe sabe que corre o risco de ser processado como Milosevic. Por isso teme.”

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