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Falcões dos Estados Unidos defendem “ordem mundial” na Crimeia

por Envolverde — publicado 06/03/2014 15h04
Para os neoconservadores, a opção diplomática do presidente Barack Obama abre a a porta para a agressão militar da Rússia
Alexey Kravtsov / AFP
Crimeia

Ativistas pró-russos carregam uma enorme bandeira russa durante seu comício na cidade do oeste da Criméia, Yevpatoria

Por Jim Lobe, da IPS

Washington, Estados Unidos, 6/3/2014 – Os “falcões”, a ala mais belicista de Washington, se voltam para a Ucrânia, cuja crise se agrava rapidamente. Neoconservadores e outros intervencionistas dizem que a opção diplomática do presidente Barack Obama está abrindo a porta para uma agressão militar da Rússia. Segundo afirmam, não estão em jogo apenas a soberania e a integridade territorial da Ucrânia, mas também a “credibilidade” dos Estados Unidos como superpotência e a perpetuação da ordem mundial estabelecida desde o fim da Guerra Fria.

Alguns analistas de direita comparam a atual situação na península ucraniana da Crimeia, que está sob domínio militar da Rússia, com a anexação da região checoslovaca do Sudetes, por parte da Alemanha de Adolf Hitler após os Acordos de Munique de 1938. O Sudetes era habitado em sua maioria por alemães, assim como a Crimeia tem maioria russa.

“A beberagem tóxica de percepções negativas sobre a capacidade militar e a vontade política ocidental/liberal está minando rapidamente a ordem pós-1945”, escreveu, no dia 3, no site da revista Forbes o analista Michael Auslin, do neoconservador American Enterprise Institute, que teve um papel crucial em conseguir apoio para a invasão do Iraque em 2003.

“Só podemos supor que China, Irã e Coreia do Norte estarão tão atentos diante do que ocorre na Crimeia quanto Putin esteve com relação às reações de Washington às disputas territoriais no Mar da China Oriental e no Mar da China Meridional, às provocações nucleares de Pyongyang e à guerra civil na Síria”, afirmou.

“Há mais em que pensar além do presidente (russo Vladimir) Putin”, escreveu Eliott Abrams, destacado neoconservador e assessor sobre Oriente Médio do ex-presidente George W. Bush (2001-2009), no site National Review. “Tiranos de lugares como Teerã e Pequim também avaliarão o custo de violar o direito internacional e ameaçar a paz e a estabilidade dos vizinhos. O que fará a China nos mares próximos ou o que fará o Irã em seu pequeno vizinho Bahrein se não houver respostas para ações como as de Putin?”, questionou.

Em um editorial no The Wall Street Journal, o presidente da organização não governamental Freedom House, David Kramer, exortou Obama a enviar a Sexta Frota para o Mar Negro. Por sua vez, o senador Lindsey Graham, do opositor Partido Republicano, propôs ressuscitar planos da era Bush, para instalar sistemas antimísseis na Europa perto das fronteiras com a Rússia.

Entretanto, Obama, que conversou por 90 minutos com Putin no dia 1º, em um esforço vão para convencê-lo a retirar suas tropas da Crimeia, é alvo de uma forte pressão para que tome medidas enérgicas contra Moscou.

Seu secretário de Estado, John Kerry, visitou Kiev no dia 4, para expressar seu apoio ao novo governo da Ucrânia. Washington poderia entregar US$ 1 bilhão para um pacote de ajuda do Fundo Monetário Internacional a esse país. Kerry condenou “o ato de agressão da Rússia” na Crimeia e advertiu Moscou que poderia se isolar da comunidade internacional. Ainda antes de viajar, o secretário anunciou uma série de passos já dados ou em estudo para pressionar o governo russo.

Além de coordenar uma condenação internacional – particularmente com ajuda da Europa – à presença militar russa na Crimeia, Washington cancelou uma série de conversações comerciais bilaterais que previa manter com Moscou, e também avalia boicotar a cúpula do Grupo dos Oito (G-8) países mais poderosos, que Putin organiza para junho em Sochi. O governo de Obama considera inclusive pedir a expulsão da Rússia desse seleto clube.

Se a Rússia “não voltar atrás” em sua intervenção na Crimeia, “poderia haver, em última instância, congelamento de contas e proibições de vistos” a indivíduos específicos e empresas associadas com a atual crise, declarou Kerry no dia 2. “Estamos examinando toda uma série de passos, econômicos e diplomáticos, que isolariam a Rússia e teriam um impacto negativo na economia desse país e em seu status no mundo”, advertiu o próprio Obama no dia 3, em entrevista coletiva conjunta com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

Ao mesmo tempo, no entanto, Obama destacou a necessidade de buscar uma solução diplomática para a crise – possivelmente com a ajuda da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa, que teria enviado observadores à Ucrânia no dia 3 – para garantir a Moscou a proteção dos russos que vivem na Crimeia.

Putin afirmou, no dia 4, que a presença militar na península ucraniana tem o objetivo de proteger os cidadãos de origem russa, e garantiu não ter intenções de anexar a região à Rússia. Além disso, alertou o Ocidente de que, se forem adotadas sanções contra Moscou, “os danos serão mútuos”.

Analistas de Washington e a própria administração de Obama concordam que a resposta para a crise ucraniana deve ser necessariamente coordenada com seus aliados europeus, alguns dos quais, como a Alemanha, apoiam esforços diplomáticos para aliviar a tensão. A Alemanha obtém um terço de seu fornecimento de gás da Rússia e mantém há tempos uma relação estratégica com Moscou que é considerada fundamental para a estabilidade na Europa central.

Tudo isto claramente frustra os falcões de Washington, ainda que alguns deles, como o senador republicano John McCain, reconheçam que os Estados Unidos não estão preparados para uma opção militar e que, em todo caso, deve coordenar ações com Bruxelas. Contudo, ao falar no Comitê Norte-Americano-Israelense de Assuntos Públicos (Aipac), McCain também responsabilizou pela crise a suposta falta de ação de Obama, a quem criticou por não ter cumprido sua ameaça de lançar uma operação militar na Síria em setembro.

“Isto é, em última instância, resultado de uma irresponsável política externa, e já ninguém acredita na fortaleza dos Estados Unidos”, declarou McCain em meio a calorosos aplausos de uma audiência de falcões que também recebeu Netanyahu no dia 4. De fato, os neoconservadores pró-israelenses, que vivem criticando a “debilidade” e a “contemporização” de Obama frente aos seus inimigos nos últimos cinco anos, também utilizam a crise da Ucrânia para exigir uma posição mais firme de Washington no Oriente Médio.

“No brutal mundo da política do poder global, a Ucrânia é em particular uma vítima do fracasso do senhor Obama na hora de traçar uma ‘linha vermelha’ na Síria”, disseram os editorialistas do The Wall Street Journal. “Os adversários e aliados na Ásia e no Oriente Médio estarão observando a resposta do presidente Obama. O Irã conta com a debilidade dos Estados Unidos nas conversações nucleares”, acrescentaram.

“Como Putin, os aitolás provavelmente verão a falta de ação na Síria como um sinal de que podem regatear conosco sobre seu programa de armas atômicas sem adotar nenhuma mudança em troca e obtendo um alívio de sanções”, escreveu Abrams no blog do Conselho de Relações Exteriores. “E agora nos veem reagindo à agressão russa à Ucrânia, que envia tropas à Crimeia, apenas estalando a língua” em sinal de reprovação, acrescentou, exortando o congresso – como provavelmente fará Netanyahu esta semana – a aprovar novas sanções contra o Irã.

“Isso tem tanto sentido como dizer que uma adequada resposta a um ataque terrorista por parte de um grupo no Afeganistão é lançar uma guerra contra o Iraque”, replicou Paul Pillar, principal analista da comunidade de inteligência em temas de Oriente Médio e Ásia meridional entre 2000 e 2005, no blog Nationalinterest.com.

Da Envolverde/IPS