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"Existe uma inflação de papas santos", diz historiador

por Deutsche Welle publicado 28/04/2014 09h19, última modificação 28/04/2014 10h50
Em entrevista, o historiador eclesiástico Hubert Wolf questiona a canonização de João Paulo II e João XXIII. O que predestina um papa a ser santo?
AFP

Neste domingo 27, o papa Francisco declarou santos dois de seus antecessores – os papas João Paulo 2° (1920-2005) e João 23 (1881-1963).

O papa emérito Bento 16 também esteve presente à cerimônia de canonização na Santa Sé. Assim, a Praça de São Pedro foi palco de um evento "sem precedentes na história, ou seja, a presença de dois Papas vivos e dois Papas santos", declarou no início da semana o vice-presidente da Obra Romana de Peregrinação (ORP), monsenhor Liberio Andreatta.

Em entrevista à Deutsche Welle, o historiador eclesiástico Hubert Wolf falou sobre o sentido da canonização. Wolf é diretor da Faculdade de Teologia Católica na Universidade de Münster, na Alemanha.

DW: A canonização de papas revela muito sobre os canonizados. O que ela revela sobre o atual alinhamento da Igreja Católica?

Hubert Wolf: Ao longo dos séculos, somente algumas poucas vezes um Papa foi canonizado. E houve séculos em que não houve nenhuma canonização. E, agora, desde meados do século 19, um em cada dois papas ou foi beatificado ou foi canonizado ou o processo está em andamento. Ou seja, no que se refere a papas, existe uma inflação de papas santos. E eu acho isso um pouco problemático. Pois o que predestina um Papa a ser santo, frente a um trabalhador católico, cuja atuação no trabalho é aliada às convicções católicas?

Assim fica claro: quando papas são canonizados por papas, isso também é uma autoencenação do papado como uma instituição sagrada. E tendo-se agora duas canonizações – João 23 e João Paulo 2° –, então isso foi uma coisa bem orquestrada.

Aqui se trata de duas práticas diferentes do ministério petrino. Por um lado, João 23, o papa que convocou o Concílio Vaticano 2° representa o abrir de portas para que entre a renovação.

Do outro lado, encontra-se João Paulo 2° com seu papel inegável na unificação política na Europa, mas também com um forte reposicionamento da Igreja em direção a Roma, com um papado marcado por viagens e uma forte presença midiática. Se Francisco canoniza dois papas de uma só vez, ele está tentando satisfazer todas as expectativas. Ele quer mostrar os dois papas como complementares.

DW: Ou seja, a canonização dos dois papas revela a compreensão de papado por parte Francisco?

HW: papa Francisco assumiu os processos de seu antecessor. Eles já existiam simplesmente. Mas o fato de ele unificá-los é decisivo. Ele poderia ter dito: "OK, agora é a vez do Santo Súbito [nome dado pela imprensa italiana à rápida canonização de João Paulo 2°]. Eu vou canonizar João Paulo 2° sozinho." Isso poderia levar a crer que esse seria o alinhamento seguido pelo papa Francisco.

O fato de ele também canonizar João 23 torna a coisa toda bastante católica, ou seja, katholon – de acordo com o todo, abrangente. Ele não está dizendo: "os papas devem ser como João Paulo 2°!", mas: "Eles também podem ser como João 23!" Em entrevista, Francisco disse ter cogitado chamar-se João 24.

DW: Então ficamos sabendo: a canonização simultânea diz, programaticamente, muito sobre o atual pontificado.

HW: Qualquer canonização faz isso, não só a de papas. Aqueles que são elevados às honras dos altares e apresentados como paradigmas aos olhos dos fiéis são naturalmente o modelo. Todas as comissões de historiadores, todas as Congregações para as Causas dos Santos só podem fazer sugestões. No final, o Papa decide de forma solitária e imperativa. Assim fica claro que a forma da canonização e as pessoas escolhidas fazem parte de uma orientação.

Francisco não está submetido a nenhuma crítica. Ele diz: "OK, eu sou a favor do Santo Súbito. Esse foi o desejo de muitos que admiram como ele aceitou o seu sofrimento e a sua morte." Ele recomendou João Paulo 2° como modelo. E, por outro lado, também levou João 23 junto. Assim, ele está manifestando seu apoio ao Concílio, à abertura do Concílio para o mundo, à implementação das reformas do Concílio.

Esta é a tensão sob a qual está todo o pontificado. Será que vai prevalecer uma ou outra direção? Ou Francisco vai tentar equilibrar isso de alguma forma? Qual será a posição de sua cúria, de seus colaboradores mais próximos, seus adversários na cúria também seguirão esse caminho?

  • Autoria Stefan Dege (ca)
  • Edição Roselaine Wandscheer