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Internacional

Entrevista Exclusiva

Mudamos a imagem da Bolívia, diz Evo Morales

por André Takahashi — publicado 16/10/2014 16h11, última modificação 16/10/2014 17h19
Presidente reeleito pela segunda vez recebe CartaCapital para conversa sobre socialismo comunitário, integração latino-americano e fontes de energia
Cris Bouroncle / AFP
Evo Morales rumo ao terceiro mandato

"Quando se trabalha para o povo, você não se desgasta"

De La Paz

Na véspera das eleições bolivianas que garantiram seu terceiro mandato à frente da Bolívia, o presidente e candidato Evo Morales recebeu CartaCapital para uma entrevista em Cochabamba, no palácio do governo departamental. Ali, uma comitiva de mídias nacionais e internacionais aguardava o ônibus que os levaria para acompanhar a votação de Evo em Villa 14 de Setembro, no Chapare.

O presidente chegou cedo ao palácio, às sete da manhã, dirigindo seu próprio carro e aparentemente sem seguranças. No momento de sua chegada, apenas os repórteres de CartaCapital e Bolivia TV aguardavam na calçada. Ao nos ver, o presidente veio em nossa direção e nos cumprimentou “Hola, compañeros”, dando um leve soco no punho de cada um, como quem encontra velhos amigos.

Com seu jeito informal e carismático Evo recebeu cada mídia para uma entrevista exclusiva de 10 minutos, com perguntas livres. Segue abaixo os principais trechos da conversa para CartaCapital onde Evo falou sobre socialismo comunitário, transgênicos e integração latino-americana.

CartaCapital: Por que o senhor estava tão bem posicionado nas pesquisas?

Evo Morales: Sinto que durante os nove anos de governo temos trabalhado pelo povo sem descuidar da luta contra o império. Depois de tomar as decisões políticas mediante a Assembleia Constituinte, depois da nacionalização, a nova situação econômica com redução da pobreza sob a política de redistribuição de riqueza, é outra a imagem que temos da Bolívia. Isso tem sido a base do modelo econômico boliviano. Porém, além disso, quando se trabalha para o povo, você se fortalece e não se desgasta, essa é a experiência dessa gestão como presidente.

CC: Em todos os comícios você falava em obter mais de 70% dos votos. Por que essa meta?

EM: A missão do político é sempre subir, subir e subir. Começamos com 20%, chegamos a 54%, 58%, depois 64%. Agora vai ser 70%, mas isso vai depender do povo. Há ambições de seguir melhorando nossas votações. Não sei com que estratégia, mas vamos bater nosso recorde. (Até o fechamento deste texto, Evo havia conseguido 60% de acordo com a apuração oficial.)

CC: Na Bolívia, vive-se um governo socialista?

EM: Aqui temos o socialismo comunitário onde fundamentalmente se respeita a propriedade privada. E todos merecem uma propriedade privada pela constituição, que é resultado da refundação da Bolívia e precisa obrigatoriamente ser respeitada. O mais importante, porém, é que no setor mais empobrecido o que se aplica é o socialismo comunitário.

CC: E o que é o socialismo comunitário?

EM: É um trabalho conjunto. É respeitar as terras dos povos originários (indígenas). Há propriedade privada, há associações econômicas como as cooperativas, há empresas comunais e empresas familiares. Isso é a base do socialismo comunitário.

CC: Atualmente, como está o processo de integração latino-americana?

EM: É sempre importante a integração da América Latina e do Caribe. Temos a Comunidade de Estados Latinoamericanos e Caribenhos (CELAC), por exemplo, que é outra forma de libertação da América do Norte, do Canadá e, especialmente, dos Estados Unidos. CELAC é como outra OEA (Organização dos Estados Americanos), mas sem os EUA. Temos algumas diferenças ideológicas com alguns presidentes, mas a ALBA (Alianza Bolivariana para los Pueblos de Nuestra América) é uma instância de integração que não é usada por ninguém para seus próprios interesses, como faz os EUA. Agora, a ALBA é todo o contrário da Aliança do Pacífico. As políticas norte-americanas usam os países da Aliança do Pacífico para romper esse sistema de integração, caso da UNASUR (Unión de Naciones Suramericanas) e da CELAC. Enquanto na ALBA há decisões políticas e ideológicas bem definidas de que somos de um pensamento anti-imperialista e de um sistema anticapitalista, os países da Aliança do Pacífico se juntam pró-capitalistas e pró-imperialistas para frear o sistema de integração. Essa é a profunda diferença que temos neste momento.

CC: Existem muitos empresários brasileiros na Bolívia trabalhando com agricultura, e alguns analistas dizem que eles estão realizando plantios de transgênicos. Como o senhor vê a questão dos transgênicos ilegais na Bolívia?

EM: São dois temas: um é o da propriedade de terras. Se são legalmente registradas no nome dos brasileiros que as compraram, são respeitadas. Esperamos que não estejam ilegais, porque aí vamos tomar providências. Segundo: estrangeiros não têm porque plantar transgênicos ilegais - o que também não vamos permitir, é claro! É uma política do estado fomentar produtos orgânicos e ecológicos para o bem da vida e para o bem da saúde.

CC: Um dos objetivos do seu governo é converter a Bolívia no coração energético da América do Sul, inclusive com o uso de energia nuclear. Pode falar um pouco dessa escolha?

EM: Energia nuclear com fins pacíficos requer muito tempo para se desenvolver. Decidimos que a Bolívia vai ser um centro energético da América do Sul com as plantas hidrelétricas, estamos começando a incorporar energia solar, a eólica, a geotérmica e a termoelétrica será para o mercado interno. Estamos também considerando a energia nuclear com fins pacíficos. Isso requer tempo e investimentos. Mas, desde que os fins sejam pacíficos, temos direitos. Não é possível que somente alguns países chamados desenvolvidos ou altamente industrializados tenham direito à energia atômica, mesmo que nem sequer com fins pacíficos, mas com fins de acabar com vidas. Por que nós não? Temos todo o direito e vamos desenvolvê-la.