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EUA e Israel fizeram lobby para lucrar com segurança de Copa 2014 e Rio 2016

por Opera Mundi — publicado 03/12/2010 09h42, última modificação 03/12/2010 09h42
Mensagens enviadas pela embaixada norte-americana em Brasília e publicadas pelo Wikileaks revelam que os EUA estão preocupados com a segurança da Copa do Mundo de 2014 no Brasil e os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro – e querem lucrar com isso

Mensagens enviadas pela embaixada norte-americana em Brasília e publicadas pelo Wikileaks revelam que os EUA estão preocupados com a segurança da Copa do Mundo de 2014 no Brasil e os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro – e querem lucrar com isso
Por Natalia Viana*
Mesmo antes da escolha do país como sede da Copa, a segurança dos jogos já era um dos principais temas na pauta de reuniões bilaterais entre diplomatas e militares. Os EUA buscam cooperação militar, oportunidades comerciais e já preparam um aumento do seu pessoal no país.
O blecaute de 10 de novembro de 2009, que deixou 18 estados brasileiros no escuro, ofereceu uma "excelente ocasião" para tratar do assunto, nas palavras da conselheira para assuntos administrativos da embaixada.
"A preocupação, recentemente ampliada, com a infraestrutura brasileira depois do blecaute, aliada à necessidade de resolver desafios de infraestrutura na contagem regressiva para a Copa de 2014 e a olimpíada de 2016, apresentam uma oportunidade para os EUA se envolverem em desenvolvimento de infraestrutura e também na proteção de infraestrutura crítica e segurança cibernética", escreveu Cherie Jackson num despacho para Washington.
O documento traz uma análise sobre o blecaute, incluindo detalhes técnicos obtidos em conversas com membros do governo como Plínio de Oliveira, presidente do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e o então secretário do Ministério de Minas e Energia José Coimbra.
Jackson acreditava que, embora a segurança física das instalações nunca tenha sido prioridade no Brasil, o foco deve ser cada vez maior à medida que se aproximam os jogos. Segundo ela, autoridades brasileiras "admitem a possibilidade de um ataque" e estariam identificando as principais instalações que precisam ser protegidas. Cherie Jackson fez um apelo para que diversos setores do governo dos EUA explorassem as oportunidades a médio prazo no país.

"O Brasil pode estar aberto a buscar cooperação em proteção crítica de insfraestrutura", disse ela.

Ameaça terrorista

Além dos norte-americanos, o governo israelense também ofereceu apoio para a coordenação dos Jogos Olímpicos. Em 11 de novembro de 2009, o presidente de Israel, Shimon Peres, liderou uma comitiva de representantes de 40 empresas israelenses ao Rio de Janeiro.

"Da mesma forma que fizemos com as olimpíadas da Grécia e na China, estamos oferecendo tecnologias especiais de comunicação e segurança", disse ele durante a visita.

Em 24 de dezembro de 2009, Departamento de Defesa norte-americano recebeu um detalhado relatório intitulado "Olimpíadas do Rio - O Futuro é Hoje". O despacho, assinado pela ministra-conselheira Lisa Kubiske - que permanece no cargo mesmo depois da troca de embaixadores, este ano - aponta oportunidades comerciais e militares.

"O governo brasileiro compreende que enfrenta desafios críticos na preparação dos Jogos de 2016 e demonstrou grande abertura em áreas como compartilhamento de informações a cooperação com o governo dos EUA - chegando até a admitir que poderia haver a possibilidade de ameaças terroristas", diz o documento.

A admissão, "pouco usual" para um "governo que oficialmente acredita que não existe terrorismo no Brasil", teria sido feita pelo assessor do Ministério das Relações Exteriores Marcos Pinta Gama. Ela prossegue: "além de preparar as oportunidades comerciais que os jogos vão oferecer às empresas norte-americanas, o governo dos EUA deveria se aproveitar do interesse do Brasil no sucesso olímpico para progredir na cooperação bilateral em segurança e troca de informações".

Jeitinho brasileiro

Kubiske reclama, no entanto, de muitas promessas e pouco planejamento e ação. Por exemplo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu conceder entradas grátis para estudantes e trabalhadores de outros países, mas não pensou em como fazer isso. Além disso, diz ela, tentativas dos EUA e do Reino Unido - que sediará a olimpíada de 2012 - de entrar em contato com o Ministério dos Esportes não foram bem-sucedidas.

"Articular os objetivos mais amplos e deixar os detalhes para o último minuto pode ser o jeito tipicamente brasileiro, mas pode gerar problemas", comenta Kubiske. "Os atrasos que esperamos do governo brasileiro em planejar e executar os trabalhos de preparação para uma Copa do Mundo e Olimpíadas bem-sucedidas com certeza vão gerar um ônus maior para o governo norte-americano poder garantir que os padrões necessários serão alcançados".

Por isso, a missão norte-americana já está coordenando a ampliação de pessoal, estrutura e recursos, com suas agências em Brasília e no Rio de Janeiro - o que seria necessário para gerenciar o envolvimento dos EUA nos Jogos.

"Já existem oportunidades para o governo norte-americano para buscar colaboração em função dos Jogos, incluindo aumentar a cooperação e a experiência brasileira em contraterrorismo", conclui o despacho.

* Matéria originalmente publicada pelo Opera Mundi 

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