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Internacional

Igualdade de direitos

EUA ainda vivem divisão 50 anos após discurso de Luther King

por Deutsche Welle publicado 28/08/2013 10h22, última modificação 03/09/2013 18h21
Com seu discurso "Eu tenho um sonho", ativista escreveu história. Meio século depois, afroamericanos e grupos minoritários nos EUA ainda sofrem com a discriminação social
United States Library of Congress
Martin Luther King

Com seu discurso "Eu tenho um sonho", ativista escreveu história. Meio século depois, afroamericanos e grupos minoritários nos EUA ainda sofrem com a discriminação social

"As pessoas estavam de pé em frente ao Memorial e em ambos os lados do espelho d'água", diz Bob Tiller, olhando para os degraus do Lincoln Memorial na capital Washington – o mesmo local onde, em 28 de agosto de 1963, Martin Luther King Jr. fez o discurso "Eu tenho um sonho" ("I have a dream"). "As pessoas estavam cheias de reverência, mas também entusiasmadas por vivenciar aquele momento", descreve.

Tiller era uma dessas pessoas. Então com 22 anos, ele deixou seu trabalho sem permissão para participar de uma marcha que reuniu 250 mil pessoas diante do memorial. "Eu cresci com o movimento dos direitos civis. Eu sentia como era importante estar aqui naquele dia", diz Tiller.

As milhares de pessoas reunidas em Washington sentiram o mesmo e escutaram o discurso de Luther King e de outros oradores que queriam assumir uma posição contra a discriminação de negros. "A parte mais memorável do discurso foi aquela em que Luther King descreve como, um dia, crianças de todas as raças andarão de mãos dadas", lembra Tiller.

"Eu tenho um sonho de que, um dia, meus quatro filhos vivam numa nação onde elas não serão julgadas em função da cor de sua pele, mas em função de seu caráter. [...] Eu tenho um sonho de que um dia [...] os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos sentem juntos à mesa da fraternidade", assim Luther King descrevia sua visão de futuro.

Numa tarde de domingo, 50 anos depois, famílias negras e brancas sentam juntas na escadaria do Lincoln Memorial, tiram fotos, sorriem. Com Barack Obama, um afroamericano está à frente do governo americano. O sonho parece ter se tornado realidade.

Nenhum branco à vista

Mas, a cerca de 25 quilômetros de distância do memorial, vê-se um quadro diferente. No bairro de Anacostia, na capital americana, voluntários distribuem café da manhã para desabrigados. Não se vê nenhum branco, nem perto nem longe; Anacostia é dominado pelos negros.

Enquanto dá um sanduíche a uma garota, a voluntária Geneva Heyward conta que "quando criança, eu também estava do outro lado da mesa. É um círculo vicioso. Minha avó era pobre, minha mãe era pobre e eu também sou pobre. Minha avó pedia comida na distribuição de alimentos, minha mãe também e eu também." A voluntária de 36 anos perdeu sua mãe para o álcool. Hoje, ela própria é mãe de quatro crianças e conseguiu romper o círculo vicioso.

Ela se engaja em áreas problemáticas de Washington. "Eu volto aqui e ajudo, justamente porque eu conheço as necessidades e a situação das pessoas."

Altas taxas de pobreza entre os negros

Legalmente, desde as Leis de Direito Civil da década de 1960, os negros americanos gozam de igualdade de direitos. Discriminação na escola, trabalho e na vida privada são proibidos.

No entanto, as consequências da segregação racial imposta pelo Estado no passado ainda são visíveis. Em Anacostia, as taxas de criminalidade e desemprego são as mais altas entre os bairros da capital americana.

Também no resto dos EUA a situação não é diferente. Segundo um relatório do Escritório do Censo dos EUA, órgão responsável pelo censo da população americana, entre 2007 e 2011, por volta de um quarto da população negra vivia na pobreza. Entre os cidadãos brancos, essa cifra correspondia somente a 10%.

"A escravidão fez com que famílias afroamericanas tenham hoje ainda menos recursos à disposição que os brancos", disse Tiller, que já trabalhou para diferentes organizações de direitos civis. "Após o fim da escravidão, eles tiveram que começar do zero e continuaram a ser discriminados. Se as pessoas não conseguem encontrar trabalho por décadas, e seu acesso a escolas e universidades é negado, fica difícil para eles dar um bom futuro a seus filhos."

Ascensão com trabalho duro

Mesmo assim, atualmente, há negros bem-sucedidos em posições de liderança por toda parte. Um deles é James Farmer, engenheiro químico e consultor administrativo. Aos 32 anos, ele conseguiu realizar o que o sonho americano promete: ascender através do trabalho duro.

"Durante a universidade, eu nunca vivenciei discriminação. Ali o que valia era o rendimento. Eu era um estudante muito ambicioso e interessado. Isso impressionou os chefes de departamento de pessoal. Na minha turma, eu fui quem mais recebeu ofertas de emprego", explica.

Farmer logo percebeu que tinha de se esforçar. "Meu avô me disse que para mim não era suficiente ser um bom aluno ou um bom funcionário. Ele disse que eu tinha de ser o melhor, porque os outros estavam me observando e, para mim, as exigências eram diferentes do que para os brancos." Mesmo assim, Farmer diz ver a sociedade americana num bom caminho.

"Não há nenhuma razão para que eu, como americano, seja discriminado por causa da cor da minha pele, da minha religião ou da minha sexualidade. Acredito que compreendemos isso gradualmente. Esse aspecto do sonho de Luther King está se tornando agora realidade", afirmou Farmer.

Novos direitos civis para gays e lésbicas

Farmer vive com seu companheiro e não conhece somente a situação dos negros americanos, mas também dos gays e lésbicas. Sua atual luta contra a discriminação é semelhante à do movimento afroamericano pelos direitos civis da década de 1960 e 1970.

Há pouco a comunidade de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT) conseguiu um grande avanço: a Suprema Corte dos EUA declarou inválida a lei que limita benefícios fiscais e outras disposições somente ao casamento entre uma mulher e um homem. Também uma lei da Califórnia que proibia o casamento homossexual foi derrubada.

Mas a luta da comunidade LGBT continua. "Em 29 estados, funcionários podem ser demitidos devido à sua orientação sexual. Já tentamos há bastante tempo levar ao Congresso um projeto de lei que acaba com essa discriminação. A resistência é grande", disse um funcionário da Human Rights Campaign (Campanha dos Direitos Humanos), um das maiores organizações LGBT dos Estados Unidos.

"O primeiro passo é sempre que a discriminação seja tornada ilegal. Isso é o que já conseguimos para os afroamericanos, e eu estou contente que a comunidade LGBT também está conseguindo isso gradualmente. Não acredito que possamos mudar o coração das pessoas tão rapidamente, mas conseguimos modificar algumas leis importantes", disse o ativista de direitos civis Tiller, olhando mais uma vez em direção ao espelho d'água em frente ao Lincoln Memorial, para o mesmo local onde, há 50 anos, ele ouviu as palavras de Martin Luther King Jr.

Autoria:
Ann-Kristin Schäfer, de Washington (ca)
Edição: Renate Krieger

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