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Protesto

'Estado da Palestina Já!'

por Gianni Carta publicado 22/09/2011 09h17, última modificação 22/09/2011 15h34
Pleito palestino, que será levado à ONU por Mahmoud Abbas, é entoado durante protesto em São Paulo que reuniu autoridades e militantes simpáticos à causa. Por Gianni Carta

Praça Ramos, diante do Teatro Municipal, São Paulo, 17h, dia 20. Faixas, cartazes, banners. Bandeiras da Palestina. Entidades e legendas a compor o Comitê de Campanha pelo “Estado da Palestina Já!” - entre elas o PT, PCdoB, CUT, CTB e MST - estão reunidas para o começo de uma manifestação com o seguinte objetivo: “Dar suporte ao pedido a ser apresentado pelos palestinos na 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas”.

A proposta pela criação do Estado Palestino será submetida por Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, ao Conselho de Segurança da Onu na sexta-feira 23. Os palestinos pedem reconhecimento internacional como Estado independente e soberano na Faixa de Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental, e com base nas fronteiras de 1967.

Nas escadas do Teatro Municipal perfilam-se integrantes dos diferentes sindicatos e agremiações. Eis um xeque a posar para os fotógrafos. Músicas palestinas revolucionárias emanam de um megafone invadem o espaço. É quando Rosane Bertotti, da CUT, toma a palavra: “Reconhecimento pelo Estado da Palestina quando?”

“Já”, retruca a massa.

“Quando?”

“Já.”

Eis Lejeune Mirhan, sociólogo e arabista, envolvido até as orelhas no movimento “Estado da Palestina Já!” Ele acaba de descer do carro de som, de onde capitanearia, ao lado de um punhado de colegas, a passeata. Vestido a caráter, com um manto árabe, ele parece bem-humorado. Tira de uma pasta o programa dos objetivos e rota da nossa manifestação em árabe. "Acho que você prefere a versão portuguesa”, brinca.

Pergunto-lhe se o provável pedido do presidente palestino Abbas, para ser membro-pleno do Conselho de Segurança da Onu, não seria forçar a barra. Mirhan rebate dizendo que Abbas tem que tentar de tudo. “A Palestina poderá recorrer à Corte Internacional em Haia, e abrir processos contra Israel relativos às atrocidades cometidas por Israel contra Gaza”, observa Mirhan.

“Falamos em negociações entre israelenses e palestinos faz duas décadas”, continua Mirhan. “Mas negociações pressupõe dois países com forças semelhantes, e esse não é o caso. De um lado você tem o quarto exército do mundo, do outro um punhado de pessoas com estilingues.”

Provavelmente, mais de 140 países dos 193 a integrar a Onu apoiarão o reconhecimento do Estado Palestino na Assembleia Geral. Em miúdos, com dois terços dos votos na Assembleia Geral, o Estado da Palestina entra para o grupo da Onu.

Segundo Max Altman, do PT, “esse resultado poderia colocar pressão nos Estados Unidos a não vetarem o ingresso da Palestina entre os 15 países a compor o Conselho”. Para ser aprovada a como integrante do Conselho, a Palestina precisaria de oito votos, mas os EUA, aliados de Israel, vêm martelando que vetarão a criação do Estado Palestino.

Mas poderia Washington mudar de ideia, como prevê Altman, e, diante do resultado na Assembleia, não vetar o ingresso da Palestina no Conselho?

O problema, não resta a menor sombra de dúvida, é sempre Washington. E Barack Obama, a despeito de seu discurso no Cairo a defender a criação de dois Estados na região, parece estar seguindo a política pró-Israel de George W. Bush. Como me disse o expert em política norte-americana Ben Barka, da universidade de Valenciennes, na França, Obama foi eleito, em grande parte, com dinheiro do lobby judeu e “agora tem de retribuir”.

Altman também lembra que a questão das fronteiras de 67 não resolve o êxodo de palestinos com a formação do Estado de Israel em 1848. São, ao todo, 5 milhões de palestinos a viver no exterior. Como resolver o problema? Segundo Altman, essa é uma das questões a ser levantada em negociações posteriores à criação de um Estado Palestino.

Indago a Altman se o fato de o Hamas, legenda eleita em 2006 e ainda a controlar Gaza, não reconhecer Israel não será um enorme obstáculo nas negociações. Para o petista, uma vez reconhecido o Estado Palestino, o Hamas poderá mudar de discurso. Nunca se sabe.

“Não são somente os palestinos que têm de ser livres, mas também os israelenses”, me diz o doutor Ibrahim Al Zeben, embaixador da Palestina no Brasil. Como assim? Com o Estado Palestino livre, os israelenses e palestinos terão elos mais amigáveis. Num clima mais pacífico, negociações trarão acordos. Altman concorda. O dinheiro canalizado para armar os Estado Israelense poderia ser usado para resolver questões ligadas ao nível de vida elevado em Israel. De fato, recentes greves reivindicavam do governo israelense melhores condições, mas poderiam, nas palavras de Altman, “abarcar outras questões”, como a paz com a Palestina.

“De qualquer modo, o futuro, como essa manifestação”, observa Al Zeben, “tem de ser pacífico”. O Estado Palestino, emenda o embaixador palestino, “é conciliador”. Al Zeben espera que Israel seja o primeiro país a aceitar a criação do Estado Palestino. O Embaixador lembra que a Palestina foi designada como Estado em 1947, como Israel.

No protesto, cerca de 500 pessoas (os organizadores falam em 2.000) seguem o carro de som pela rua São Luís. Uma mulher a trajar um tailleur preto olha assustada para a multidão. Música árabe, fantástica, nos mais altos decibéis.

Bertotti, da CUT, volta a gritar:

“Reconhecimento do Estado da Palestina quando?”

“Já.”

“Quando?”

“Já.”

Na Câmera Municipal, grades e policiais nos impedem a entrada.

Jeitoso, Mirhan diz: “Essa é uma manifestação pacífica, deixem-nos ocupar esse espaço democrático”.

Os policiais afastam as grades (garantindo ao menos a remoção de um dos obstáculos). Discursos. Falam o embaixador da Palestina e o presidente da Câmara, José Police Neto (PSD).

“Os palestinos vivem num campo de concentração, têm de cavar túneis para conseguir água”, afirma Nilva Sader, blogueira militante. “Esse é um momento histórico.” Veremos.

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