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Trópico de Câncer

Entre a moral e a vida

por Gianni Carta publicado 30/08/2010 17h36, última modificação 25/10/2011 13h37
A libertação de dois ativistas espanhóis que atuavam na Mauritânia ressuscita o debate: os governos devem pagar a sequestradores, principalmente se terroristas?

A libertação de dois ativistas espanhóis que atuavam na Mauritânia ressuscita o debate: os governos devem pagar a sequestradores, principalmente se terroristas?

A libertação de dois espanhóis pela Al-Qaeda volta a levantar uma questão premente com o advento da globalização do terrorismo: governos devem pagar resgate a raptores com motivações financeiras ou políticas (ou as duas coisas)? Os governos do Reino Unido e dos Estados Unidos negam-se, ao menos oficialmente, a negociar com raptores de seus cidadãos e oficiais – e, por tabela, não fazem concessões e não pagam resgates. Ceder às exigências de terroristas é, segundo Londres e Washington, uma forma de encorajar futuros raptos.

Experts de contraterrorismo do Departamento de Estado dos EUA lembram aos governos prontos a negociar com raptores a existência de uma convenção internacional que considera crime o pagamento de resgates a terroristas. Madri, signatária da convenção, em vigor desde 1984, mantém-se discreta sobre os detalhes das negociações para a libertação de Albert Vilalta e Roque Pascual, voluntários da ONG Barcelona Acció Solidària sequestrados na Mauritânia nove meses atrás com sua compatriota Alicia Gómez, libertada em março. O governo madrilenho também preferiu não responder ao comunicado da Al-Qaeda, no qual o grupo terrorista anunciou: os dois voluntários foram colocados em liberdade porque Madri satisfez “algumas de nossas exigências”.

E aqui chegamos ao cerne da questão. O premier José Luis Zapatero agiu como deveria ao dar o sinal verde para o pagamento do resgate. Caso não o tivesse feito, o dois voluntários catalães teriam seus dias contados – ou estariam mortos. Na verdade, a convenção internacional que torna crime o pagamento de resgates dificilmente conseguirá, e esse é seu objetivo, “desenvolver uma cooperação internacional”. O motivo? Apoia-se em conjecturas demasiado simplistas: signatários da convenção não pagam resgates e não fazem concessões políticas; por tabela potenciais raptores, cientes dessa postura de potenciais vítimas, desistem desse negócio. Não vale a pena sequestrar alguém e não obter lucro e/ou vantagens políticas.

No entanto, organizações terroristas são complexas. Seus líderes podem crer que, ao sequestrar novos reféns, governos sucumbirão às suas exigências. Ao mesmo tempo, como punir o governo quando este paga um resgate? Com sanções econômicas? E como castigar empresas privadas e doadores dispostos a pagar resgates? Por vezes, governos punem seus próprios cidadãos ao não deixar terceiros pagarem resgates.

Eis o caso de Paul e Rachel Chandler, um casal de britânicos em cativeiro na Somália desde 23 de outubro, quando piratas daquele país abordaram seu iate. Os piratas aceitaram os 110 mil euros que lhes foram oferecidos, mas o Ministério do Exterior bloqueou a transação. “Hipocrisia”, disse à rádio RFI Charles Glass, um jornalista sequestrado pelo grupo Hezbollah em 1987. Glass contrasta o caso dos Chandler com o dos clérigos da Igreja Anglicana raptados no Irã, aparentemente soltos graças à mediação de eclesiásticos. À época, alega Glass, tanques britânicos estavam a caminho, via Suíça, do Irã.

Casos de extorsão existem desde ao menos os tempos do Império Romano, quando Júlio César foi sequestrado. Com a globalização do terrorismo, e contrastes entre países ricos e pobres, como aquele entre a Europa e a África do Norte, o problema aumentou. Não existe uma fórmula para erradicar a pirataria. Nem a extorsão por parte de grupos terroristas. Um navio da Marinha Real- Britânica estava a 15 metros do iate dos Chandler, quando este foi abordado por piratas. Os oficiais não puderam fazer nada porque o casal poderia ter sido morto. Ao mesmo tempo, antes de navios europeus de guerra abordarem lanchas de piratas, os mesmos jogam suas armas e celulares no mar – e se dizem pescadores. Em seguida, graças aos milhões de dólares que embolsam via extorsão, compram novas armas.

Não há dúvida de que negociar com piratas ou com a Al-Qaeda está longe de ser a solução perfeita. Além dos 8 mil euros, a organização terrorista exigiu de Madri a extradição do sequestrador dos voluntários catalães da Mauritânia, onde havia sido sentenciado a 12 anos de prisão, para seu país de origem, o Mali. Omar El-Saharui, de 51 anos, foi detido, em fevereiro, na Mauritânia. A Espanha conseguiu a extradição. Esse foi o preço para salvar duas vidas.

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