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Em Barcelona, um novo jeito de fazer política

por Mariana Bastos — publicado 31/05/2015 08h59, última modificação 02/06/2015 12h37
Ada Colau, a nova prefeita da cidade, chega ao poder prometendo democratizar instituições e aproximar governo dos cidadãos, dando exemplo de como duelar com os poderes econômicos estabelecidos
Quique Garcia / AFP
Ada Colau

Ada Colau celebra sua vitória pelo Barcelona en Comú no domingo 24. A promessa é mudar a política por dentro

De Barcelona

“Eu ia embora caminhando para pegar meu filho no colégio depois da entrevista, e o jornalista me disse: ‘Vou te acompanhar. Você não pode ir sozinha. Alguém pode te atacar’”, contou entre risadas Ada Colau, a recém-eleita prefeita de Barcelona, em um comício. “Disse que não queria sua companhia. Quero fazer política de forma diferente, poder caminhar na rua como prefeita, buscar meu filho no colégio.”

A anedota revelada durante a campanha é apenas um exemplo entre tantos do que Colau e a coalizão da qual faz parte, a Barcelona en Comú, pretendem: uma nova forma de fazer política que sirva de referência para o mundo. 

A cidade, que nas últimas décadas apresentou-se como um modelo urbanístico a ser seguido, sobretudo por aquelas interessadas em sediar os Jogos Olímpicos (incluindo o Rio de Janeiro), foi também fortemente afetada pela crise econômica. A retração da economia iniciada em 2008 deixou um rastro de despejos, altas taxas de desemprego da população jovem e aumento da desigualdade social. Nos últimos quatro anos, a diferença de renda entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres da cidade cresceu 40%

“A Olimpíada de 92 serviu para fazer intervenções urbanísticas necessárias, mas não houve apostas em moradias sociais por exemplo”, afirma Colau. “O fato de não ter sido levado em conta o interesse público acabou abrindo portas para o grande capital, para operações especulativas que acabam expulsando a população da cidade”, diz.

Por conta disso, a cidade teve de se reinventar politicamente. Agora, com o Barcelona em Comú, surge como ponta de lança na busca da reaproximação entre a política institucional e o cidadão comum. “Hoje temos instituições governamentais em todo o mundo que tratam o cidadão como um incômodo, como uma ameaça que questiona o poder. Deveria ser o contrário”, diz.

Segundo ela, a cidade tem condições para mudar essa situação e pode ser exemplo de governar com cidadania. “Em Barcelona, temos um tecido social militante e organizado acima da média de outras cidades e esse é nosso maior tesouro”, afirma. “Se você consegue liderar um projeto coletivo no qual todos contribuem com um grão de areia, você tem a garantia de êxito”.

O programa de governo do Barcelona em Comú indica que a proposta pode ter efeito. A plataforma foi costurada nos últimos sete meses contando com ampla participação popular, sobretudo das associações de bairro e de representantes de movimentos sociais (imigrantes, LGBTs, feministas, entre outros). A forma de organização do Barcelona em Comú foi marcada pela horizontalidade, compondo uma rede. Tudo para atender os anseios de uma juventude que reivindica participação política.

Entre as propostas da coalizão e da nova “alcaldessa” estão o banimento dos carros oficiais para autoridades e um teto salarial de 2,2 mil euros líquidos (cerca de 7,6 mil reais). O valor é bem inferior ao que ganha o atual prefeito, Xavier Trias (cerca de 11 mil euros). É baixo até mesmo para os padrões brasileiros. Fernando Haddad (PT), prefeito de São Paulo, por exemplo, ganha cerca de 23 mil reais por mês. “Parece pouco, mas mais da metade dos habitantes de Barcelona vive com menos de mil euros por mês”.

Alçada a grande fenômeno eleitoral da Espanha no domingo 24, a jovem política de apenas 41 anos é o símbolo maior dessa transformação. Feminista, criada em um bairro de classe média baixa, ex-líder de uma organização de defesa dos despejados pela hipoteca, militante dedicada de direitos humanos, Colau tem um perfil que em muito destoa dos engravatados costumeiramente eleitos para postos governamentais. 

Sentada em um banco de praça próximo ao Palau de La Música Catalana, Colau conversou com CartaCapital enquanto era continuamente abordada por passantes que a cumprimentavam alegremente. Sua trajetória se confunde com a emergência da nova esquerda da Espanha, surgida depois do fatídico 15M, forma com que os espanhóis chamam o 15 de maio de 2011 – foi nessa data que os “Indignados” iniciaram a ocupação das ruas pleiteando um rompimento com o bipartidarismo e a crise de representação.

“Nossa campanha tem muito a ver com os processos de mobilização cidadã dos últimos anos, cujo ápice foi o 15M, no qual as pessoas saíam às ruas para dizer: ‘essas instituições não nos representam’", afirma. "E denunciavam que havia uma convivência muito forte entre os poderes econômicos e os principais partidos [PSOE e PP] que governaram nos últimos 40 anos. As instituições não estão à altura da sociedade atual. Temos de atualizá-las, democratizá-las e colocá-las a serviço das pessoas”, afirmou Colau, que saiu às ruas durante o 15M mesmo tendo um bebê de um mês em casa.

O Partido Popular, do primeiro-ministro Mariano Rajoy, chegou a criticar na época os Indignados. O porta-voz do partido no Congresso, José Antonio Bermúdez de Castro, dissera na ocasião: “tratem de conseguir seus objetivos com votos e não com cartazes”.  Os votos chegaram e o PP, tradicional força nas eleições passadas, viu sua popularidade cair abruptamente no último pleito municipal, dando lugar a candidaturas alternativas por toda a Espanha, sobretudo nas três principais cidades: Barcelona, Madri e Valencia.

Agora, com o avanço da nova esquerda, capitaneada pelo Podemos de Pablo Iglesias (que apoiou as candidaturas alternativas), o PP mais do que nunca se vê ameaçado nas eleições gerais do fim do ano. “É lógico que nossa campanha é reflexo eleitoral do 15M, mas não suficiente. Seria um erro de leitura pensar que, depois de muitas mobilizações, agora se dá o passo à política. Não é um movimento depois do outro. É paralelo e complementar”, aponta Colau.

Segundo ela, foi um erro de sua geração crer que a democracia foi algo alcançado em sua integridade depois do fim da ditadura nos anos 70. “A democracia nos foi apresentada como um ponto de chegada, como algo já feito e acabado, mas isso foi um erro, pois a democracia se constrói a cada dia", afirma. "Não somos ingênuos. Vivemos em um mundo globalizado, em que há poderes econômicos mais fortes que qualquer parlamento. Sempre haverá muitas pressões. Por isso, é necessário que a cidadania siga mobilizada para por suas prioridades na agenda política.”

Diante de sua vasta trajetória como militante, a posição de Colau em relação a manifestações não poderia ser diferente. Ela mesmo, quando presidia a Plataforma de Afetados pela Hipoteca em 2013, chegou a ser detida pela polícia. O flagrante foi fotografado e a foto foi compartilhada incessantemente nas redes sociais após sua vitória na eleição.

Com esse histórico, Colau faz críticas severas à Lei da Mordaça, como ficou conhecida a série de leis que limitam os protestos com multas que podem chegar a 30 mil euros. Na época da aprovação, ela tuitou: “ou desobedecemos ou aceitamos a escravidão”. “A Lei da Mordaça é um dos últimos exemplos do autoritarismo do PP. Já estão perdendo todas as razões, a legitimidade, e agora milhões de votos. Então a única coisa que resta é a linguagem do medo e da ameaça.”

Revolução feminina

Embutida na ascensão de Colau está também a participação da mulher. Ainda na apresentação de sua candidatura, em setembro, ela lembrou que representa "as mulheres sub-representadas nos espaços de decisão, nos espaços de poder político e sobrerrepresentadas no cuidado invisível que faz possível a vida de todos e todas”, disse. 

Para ela, sua eleição carrega um simbolismo forte. “Já temos democracia há 40 anos e nunca uma mulher havia sido prefeita de Barcelona. Isso me parece algo absolutamente irregular levando em conta que somos a metade da população. Então, já estava mais do que na hora de haver uma mulher na prefeitura.”

Não só a eleição de Barcelona. Manuela Carmena, uma juíza aposentada, é a mais cotada para assumir a prefeitura de Madri. Ela ainda depende de coalizões para ser confirmada. Carmena, aliás, foi signatária de um manifesto assinado por 26 mulheres candidatas de diferentes cidades no qual se postula uma nova forma de fazer política atrelada às novas lideranças femininas que emergem.

O manifesto lembra que as lideranças femininas do ciclo político atual são radicalmente distintas com as anteriores. Mulheres que chegaram a altos postos de poder até hoje o fizeram com um alto grau de adaptação ao sistema, como a ex-premiê do Reino Unido Margaret Thatcher, a ex-prefeita de Madri Esperanza Aguirre e a ex-secretária de Estado do EUA Condoleezza Rice. "As atuais lideranças feministas estão se caracterizando por um maior grau de trabalho horizontal e colaborativo e por uma mudança de discurso. Apostamos por conciliar a política com as nossas vidas e não ao contrário”, diz o manifesto.

A onda de vitórias femininas na Espanha na última semana, inclusive, estimulou a freira Teresa Fourcades, de forte inclinação de esquerda e amiga de Colau, a lançar candidatura para o governo da Catalunha no final do ano. Outra liderança feminina que desponta é Monica Oltra, candidata a comandar o governo da Comunidade Valenciana. “Essa mudança será feminista ou não será”. Essas palavras encerram o manifesto. Convém não discordar.