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Oriente Médio

Em 2014, o mundo tem um califado islâmico. Como isso foi possível?

por José Antonio Lima publicado 30/06/2014 14h56, última modificação 30/06/2014 16h24
No Iraque e na Síria surge o resultado mais extremo do ciclo de violência, pobreza e autoritarismo existente no Oriente Médio
AFP
Estado Islâmico do Iraque

Imagem mostra o que seria a execução de soldados iraquianos por integrantes do Estado Islâmico do Iraque e da Síria, em 14 de junho, na província de Salahuddin

No domingo 29, o grupo ultrarradical Estado Islâmico do Iraque e da Síria anunciou a criação de um califado, com o objetivo de governar todas as populações muçulmanas. Por enquanto, o estado islâmico recém-inaugurado se estende do norte da Síria ao Iraque oriental, mas seu projeto é territorialmente ilimitado. A ideia de reeditar o califado é um delírio de extremistas, mas ajuda a mostrar a gravidade daquele que se tornou o problema central para a segurança do Oriente Médio.

Como mostra a reportagem de capa de CartaCapital que está nas bancas desde a sexta-feira 27, o Estado Islâmico do Iraque e da Síria, conhecido pelo acrônimo ISIS, é uma herança da desastrosa ocupação do Iraque liderada pelos Estados Unidos em 2003. Uma das falsas alegações da administração George W. Bush para invadir o Iraque era a suposta ligação entre o regime de Saddam Hussein e a Al-Qaeda. Essa conexão jamais existiu, mas a organização terrorista de Osama bin Laden eventualmente se instalou no país, graças ao vácuo administrativo e de segurança provocado pela política americana de desmantelar o Exército montado por Saddam Hussein e dissolver o Baath, partido que o sustentava no poder.

A origem

Com o Estado iraquiano falido, o país virou polo atrativo para jihadistas do mundo todo e inúmeros grupos militantes passaram a ter mais liberdade para agir. Neste período, cresceu a violência entre a minoria sunita, que até então estava no poder por meio de Saddam Hussein, a maioria xiita, oprimida pelo ditador, e os curdos, também reprimidos. Entre os grupos violentos sunitas estava o Jama'at al-Tawhid wal-Jihad, liderado pelo jordaniano Abu Musab Al-Zarqawi. Em 2004, em sua campanha contra a comunidade xiita, Zarqawi jurou lealdade a Bin Laden e transformou sua facção na Al-Qaeda no Iraque.

O braço iraquiano da Al-Qaeda se notabilizou pelos métodos intensamente violentos empregados na guerra civil ocorrida no Iraque em 2006 e 2007. As atrocidades contra xiitas, curdos, sunitas e estrangeiros eram tão grandes que alienaram também as populações sunitas do Iraque. Sob a coordenação dos EUA, diversas tribos iraquianas se engajaram no que ficou conhecido como Despertar Sunita, e passaram a combater a Al-Qaeda no Iraque ao lado das tropas regulares iraquianas e das forças ocidentais. A campanha resultou no recuo da Al-Qaeda e em uma importante, mas não definitiva, redução na violência sectária no país.

A hostilidade à Al-Qaeda provocou também mudanças de estratégia na liderança local do grupo. No fim de 2006, após o assassinato de Zarqawi, em um bombardeio americano, a Al-Qaeda no Iraque passou a ser conhecida como Estado Islâmico do Iraque. Não era apenas uma troca de nome. O grupo estava abandonando a “marca” Al-Qaeda e também a luta global, para se concentrar na causa iraquiana.

A questão síria

A chamada Primavera Árabe mudou os planos. Assim como na Tunísia e no Egito, a Síria teve, a partir de março de 2011, inúmeras manifestações populares contra o regime de Bashar al-Assad. O ditador alegava que não eram manifestações legítimas, mas promovidas por terroristas. Assad estava errado, mas logo ficou claro que sua profecia era autorrealizável. A repressão promovida por ele, em conjunto o financiamento de milícias anti-Assad pelos países do Golfo Pérsico, fez a Síria tomar do Iraque o posto de polo atrativo de jihadistas.

Desde 2010 sob a liderança de Abu Bakr al-Baghdadi, o Estado Islâmico do Iraque cruzou a fronteira, enviou inúmeros jihadistas para combater Assad e ajudou a formar a Frente al-Nusra, braço da Al-Qaeda na Síria. Em 2013, Baghdadi anunciou a fusão dos dois grupos – Estado Islâmico do Iraque e Frente al-Nusra – sob o nome Estado Islâmico do Iraque e da Síria, ISIS. A aliança não duraria muito.

Em guerra contra todos

Hoje, o ISIS tem uma atuação transnacional. Atua tanto no Iraque quanto na Síria, e vem registrando inúmeros ganhos territoriais.

No Iraque, o principal foco de violência é a província de Anbar, no oeste do país. Líderes tribais sunitas, abandonados pelo governo do xiita Nouri al-Maliki após o Despertar Sunita, combatem o governo central com a alegação de que são marginalizados. Ao lado deles, mas com uma causa global, está o ISIS. Melhor armado e preparado, o grupo tem tomado várias cidades iraquianas, sendo a principal delas Fallujah, que desde janeiro segue sob domínio dos extremistas. Em seu caminho, o ISIS deixa um rastro de violência extrema, que inclui execuções em massa e até mesmo crucificações.

Na Síria, o ISIS combate tanto o governo Assad quanto outras milícias sunitas que lutam para destituir o regime sírio. Parece um contrassenso, mas, pelo ponto de vista de Abu Bakr al-Baghdadi, não é. Como sua causa é global, o ISIS busca firmar seu domínio sobre os jihadistas de todos os tipos. Prefere, assim, atacar agora outros extremistas e deixar a batalha contra Assad para o futuro. Graças a esta estratégia, o ISIS entrou em confronto a Frente al-Nusra e com a liderança global da Al-Qaeda.

A declaração de fundação do califado, desta forma, é também uma tentativa de reivindicar a liderança do jihadismo global. Na declaração pública transmitida pela internet em cinco línguas, o ISIS, que agora deseja ser chamado unicamente de Estado Islâmico, pediu a lealdade de todos os jihadistas do mundo e também de todos os muçulmanos.

A "fundação" do Estado Islâmico escancara os problemas do Oriente Médio. Normalmente, os conflitos na região têm origem nas diferenças entre dois blocos. Em um deles estão os aliados dos Estados Unidos, como Israel, Arábia Saudita e as monarquias do Golfo. No outro está o Irã, o grupo libanês Hezbollah e o regime Assad. Hoje, a disputa entre esses dois blocos é uma das principais causas a impedir o surgimento de governos inclusivos e democráticos na Oriente Médio, e o que acontece no Iraque e na Síria é exemplo claro disso. O ISIS nada mais é que o resultado extremo do desespero existente no Oriente Médio. Eventualmente, o grupo será esfacelado, pelos EUA, pelo Irã ou por uma união entre os dois. Mas a ideia da Al-Qaeda e do jihadismo global continuará viva. Se o terreno fértil de pobreza, autoritarismo e violência em que ela se desenvolve não for tornado infrutífero, novos grupos como esse continuarão a surgir.