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Divididos, os EUA vão às urnas

por Eduardo Graça — publicado 03/11/2014 05h28
As eleições de meio-termo refletem um país que rachou ao meio durante a presidência de Barack Obama
Jessica McGowan / Getty Images / AFP
David Perdue

David Perdue, republicano candidato ao Senado pela Geórgia, durante ato de campanha em McDonough, em 24 de outubro. Ele faz disputa acirrada com Michelle Nunn

De Savannah, Geórgia, EUA

voz que vem do rádio instalado no topo da prateleira do restaurante mais concorrido para almoço na cidade mais charmosa do estado da Geórgia é de Michelle Nunn, a candidata democrata ao Senado nas eleições de terça-feira 4. Ela acusa o oponente republicano, o executivo David Perdue, de ter colaborado na destruição da indústria têxtil na vizinha Carolina do Norte, na década passada: “Enquanto meu adversário embolsou 1,7 milhão de dólares em nove meses com a estratégia de usar mão-de-obra mais barata fora dos EUA, quatro mil trabalhadores americanos perderam seus empregos”. Entre um e outro grito de “sai um Conquistador”, o sanduíche de frango ao forno com molhos secretos que faz a fama do Zunzi’s, a propaganda rival rebate: “Não se iluda, Michelle Nunn tem um único patrão: Barack Obama”. Do lado de lá do balcão, um dos atendentes da casa interrompe a enquete informal conduzida pelo repórter da CartaCapital com os famintos clientes: “Não dá para saber quem vai ganhar. Esta fila é o retrato de um país, de uma sociedade rachada ao meio. Bem-vindo à América”.

Disputas acirradas não são exatamente uma novidade na democracia ianque. Nos pleitos presidenciais mais recentes, foram regra. Se considerado apenas o voto popular (pelo sistema americano o primeiro-mandatário é eleito por um colégio eleitoral), Obama venceu Mitt Romney em 2012 com vantagem de 3,86 pontos percentuais, pouco mais dos que os 3,28 pontos percentuais da frente que a presidenta Dilma Rousseff abriu sobre Aécio Neves na semana passada. Em 2008, George W. Bush teve vantagem ainda menor, de apenas 2,47 pontos, sobre o democrata John Kerry, em sua campanha pela reeleição. Quatro anos antes, com direito a uma confusa recontagem na Flórida, ele perdera, por apenas 0,51 ponto, o voto popular para o então vice-presidente Al Gore. O inusitado este ano é o aperto previsto nas disputas para o Senado e governos de vários estados, um atestado de que a divisão política do país só aumentou na Era Obama.

As chamadas eleições de meio-termo – já que ocorrem justamente na metade do mandato presidencial – renovam toda a Câmara dos Representantes, equivalente à Câmara dos Deputados nos EUA, e um terço do Senado, além da maioria dos governos e assembleias estaduais. Como a maioria dos estados com pleitos majoritários esta semana são de eleitorado com perfil mais conservador, em que o presidente Obama perdeu para Romney há dois anos, há, de acordo com os principais institutos de pesquisa, 65% de possibilidade de a direita conquistar a maioria do Senado. Das dez cadeiras mais competitivas a oposição precisa vencer seis para controlar, a partir de 2015, todo o Capitólio.

“Se eu tivesse de batizar estas eleições, elas seriam a Disputa do Caos. O eleitor vai votar com medo e ansiedade, guiado por uma vaga, porém sempre presente noção de que nada neste país está indo na direção correta, ou, ainda mais relevante, de que os EUA não irão tão cedo entrar nos eixos, e só”, escreve William Galston no site especializado Politico. Se a reforma da saúde pública deixou de ser a principal bandeira de guerra da direita, com o Obamacare gradualmente caindo nas graças dos cidadãos, os péssimos índices de aprovação do presidente, com notas especialmente baixas em quesitos como economia e política externa têm sido o principal combustível usado pelos republicanos para seguir à frente dos governistas nas intenções de voto nas disputas mais decisivas. O protesto “contra isso que está aí”, no entanto, também afeta republicanos em disputas regionais, já que o partido tem 29 governos e em 23 deles controla também o Legislativo. De acordo com a pesquisa CBS News divulgada na última quinta-feira, apenas 39% dos entrevistados estão satisfeitos com o Obama, contra 51% de desgostosos com a Casa Branca. A aprovação da Casa dos Representantes, que deve permanecer sob controle da direita, por sua vez, é ainda mais modesta do que a de Obama, não passando de 14%.

Jason Carter
Jason Carter, neto de Jimmy Carter e candidato democrata ao governo da Geórgia, durante ato de campanha na cidade de Columbus, em 27 de outubro. Ele quer romper a hegemonia republicana no estado

Um dos piores serviços de relações públicas oferecido pelos legisladores republicanos foi a interrupção forçada e seguida do governo, com uma ameaça de deslanchar uma crise de proporções globais, por conta da agenda de austeridade fiscal defendida pela ala mais radical do partido, abrigada no Tea Party, e entrincheirada na Casa dos Representantes. A atenção dada à disputa pelo controle do Senado é, portanto, natural, pois acredita-se que, se confirmadas as pesquisas, Obama terá de governar, na prática, usando e abusando de vetos e o equivalente a medidas provisórias, ou se tornará refém dos republicanos.

Em editorial-apelo para que os eleitores levem em conta o impasse político de Washington na hora de votar, o USA Today, segundo maior jornal em circulação do país, e relevante na chamada América Profunda, pediu atenção ao aumento do número de disputas competitivas para executivos estaduais país afora: “Republicanos podem vencer em estados identificados com os democratas, como Massachusetts e Illinois, enquanto democratas vêem oportunidades inéditas no Kansas e no Arkansas. São disputas que podem parecer menos significativas de imediato, mas que terão enorme repercussão nas primárias presidenciais de 2016”.

Tema recorrente nas mais recentes eleições brasileiras, a relação entre democracia e alternância de poder entrou na pauta de disputas locais em estados como a Georgia, em que o democrata Jason Carter aparece nas pesquisas com 44,2%, em empate técnico, dentro da margem de erro, com o governador republicano Nathan Deal (46.2%). O neto do ex-presidente Jimmy Carter tem argumentado que o estado é comandado há onze anos pelo Partido Republicano, que também controla as duas casas do Legislativo e não elegeu sequer um senador democrata neste século. Deal devolve com a mesma moeda: em 2003, seu antecessor no comando do palácio do governo em Atlanta, George “Sonny” Perdue (por sua vez, primo do atual candidato republicano ao Senado, o mesmo David Perdue acusado pelos democratas de agir na esfera privada contra o interesse dos trabalhadores), interrompeu uma seqüência de nada menos do que 131 anos do Partido Democrata no comando do executivo estadual.

A Georgia e a Louisiana, outro estado-chave na balança de poder do Senado, são os únicos a prever um segundo-turno, respectivamente em janeiro e dezembro, no caso de um dos candidatos não alcançar a maioria absoluta dos votos na terça-feira. A se acreditar nas pesquisas e na fila do Zunzi’s, a Casa Branca precisará esperar até o ano que vem para saber se terá de enfrentar uma oposição ainda mais cerrada nos dois anos derradeiros da administração Obama.