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Distorções ideológicas

por Slavoj Zizek — publicado 03/06/2011 12h16, última modificação 04/06/2011 10h49
O Estado de Israel está empenhado em um lento e invisível processo, de modo que um dia o mundo vai despertar e perceber que não existe mais a Cisjordânia palestina

por Slavoj Zizek*

Existe uma piada maravilhosamente dialética em Ninotchka, de Ernst Lubitsch-: o herói visita uma cafeteria e pede café sem creme; o garçom responde: “Desculpe, mas o creme acabou. Posso lhe trazer café sem leite?” Em ambos os casos o cliente recebe somente café, mas este é sempre acompanhado de uma negação diferente, primeiro café sem creme, depois café sem leite. O que encontramos aqui é a lógica da diferencialidade, em que a própria ausência funciona como uma característica positiva.

Por que perder tempo com piadas dialéticas? Porque elas nos permitem compreender em seu sentido mais puro como funciona a ideologia em nossos tempos supostamente pós-ideológicos. Para detectar as chamadas distorções ideológicas, devemos notar não apenas o que é dito, mas a complexa interação entre o que é dito e o que não é dito: o não dito está implícito no que é dito. Recebemos café sem creme ou café sem leite?

Vamos tomar um exemplo do Oriente Médio: em 1º de março de 2009, foi divulgado que o governo israelense tinha planos de construir mais de 70 mil novas unidades habitacionais em assentamentos judeus na Cisjordânia ocupada. Se implementados, os planos poderiam aumentar o número de colonos nos territórios palestinos em cerca de 300 mil, medida que não apenas minaria gravemente as possibilidades de um Estado árabe viável, como também impediria a vida cotidiana dos palestinos. Um porta-voz do governo desmentiu a reportagem, afirmando que os planos tinham relevância limitada: a construção real de novas casas nos assentamentos exigia a aprovação do ministro da Defesa e do primeiro-ministro.

No entanto, 15 mil projetos já foram totalmente aprovados. Além disso, quase 20 mil das unidades planejadas estão em assentamentos distantes da “linha verde” que separa Israel da Cisjordânia, isto é, em áreas que Israel não pode pretender manter em qualquer futuro acordo de paz com os palestinos. A conclusão é óbvia: enquanto diz defender a solução de dois Estados, Israel cria ativamente no terreno a situação que de fato tornará impossível uma solução de dois Estados. O sonho subjacente a esta política é mais bem representado pelo muro que separa a cidade dos colonos da cidade palestina em um morro em algum lugar da Cisjordânia. O lado israelense do muro é pintado com a imagem da paisagem campestre além do muro, mas sem a cidade palestina, mostrando apenas a natureza, capim, árvores... Não é isto limpeza étnica no mais puro grau, imaginar a paisagem além do muro como deveria ser, vazia, virginal, esperando para ser colonizada?

Esse processo é, às vezes, encoberto pelo disfarce de reurbanização cultural. Em 28 de outubro de 2008, a Suprema Corte de Israel decidiu que o Centro Simon Wiesenthal pode construir seu há muito planejado Centro para a Dignidade Humana, Museu da Tolerância em um local disputado no centro de Jerusalém. (Quem senão) Frank Gehry vai projetar o vasto complexo, que consiste em um museu geral, um museu para crianças, um teatro, centro de conferências, biblioteca, galeria, salas para palestras, cafeterias. A missão declarada do museu será promover a civilidade e o respeito entre diferentes segmentos da comunidade judaica e entre pessoas de todas as fés, sendo o único obstáculo (superado pela decisão da Suprema Corte) que o local do museu serviu como principal cemitério muçulmano em Jerusalém até 1948 (a comunidade muçulmana apelou à Suprema Corte porque a construção do museu dessacralizaria o cemitério, que supostamente contém os ossos de muçulmanos mortos durante as cruzadas dos séculos XII e XIII).

Esse ponto escuro expõe maravilho
samente a verdade oculta desse projeto multiconfessional: é um lugar para celebrar a tolerância, aberto a todos... mas protegido pela cúpula israelense, que ignora as vítimas subterrâneas da intolerância, como se fosse necessário um pouco de intolerância para criar o espaço para a verdadeira tolerância.

E como se isso não bastasse, como se devêssemos repetir um gesto para deixar clara sua mensagem, existe outro projeto semelhante, ainda maior, ocorrendo em Jerusalém: Israel executa silenciosamente um plano de desenvolvimento de 100 milhões de dólares em vários anos, na chamada “bacia sagrada”, onde estão alguns dos lugares mais importantes do patrimônio religioso e nacional, junto aos muros da Cidade Velha, como parte de uma iniciativa para reforçar a posição de Jerusalém como sua capital.

O plano, que teve algumas partes terceirizadas- para um grupo privado que está ao mesmo tempo comprando propriedades palestinas para assentamentos judeus em Jerusalém Oriental, quase não atraiu a atenção pública ou internacional. Como parte do projeto, depósitos de lixo e terrenos baldios são limpos e transformados em belos jardins e parques, já acessíveis aos visitantes que podem caminhar por novos caminhos e apreciar vistas majestosas, juntamente com novas placas de sinalização que indicam pontos significativos da história judaica. E, convenientemente, muitas casas palestinas “não autorizadas” têm de ser eliminadas para criar espaço para a reurbanização da área. A “bacia sagrada” é uma paisagem infinitamente complexa, pontilhada de santuários e tesouros ainda ocultos das três maiores religiões monoteístas, por isso o argumento oficial é que sua melhora beneficia a todos, judeus, muçulmanos e cristãos, já que sua restauração vai atrair mais visitantes para uma área de excepcional interesse global, que foi negligenciada por muito tempo. Mas, como comentou Hagit Ofran, do Peace Now, o projeto pretende criar “um parque turístico ideológico que vai determinar a predominância judaica na área”. Raphael Greenberg, da Universidade de Tel-Aviv, explica de maneira ainda mais direta: “A santidade da Cidade de Davi é refabricada, e é um amálgama cru de história, nacionalismo e peregrinação semirreligiosa (...) o passado é usado para desautorizar e deslocar as pessoas no presente”. Mais um grande local religioso, um espaço ecumênico “público” sob a clara dominação da cúpula protetora de Israel...

O que tudo isso significa? Para chegar à verdadeira dimensão das notícias, às vezes basta ler duas reportagens díspares juntas. O significado surge de sua própria ligação, como uma fagulha que salta de um curto-circuito elétrico. No mesmo dia em que a notícia sobre o plano do governo de construir 70 mil novas unidades habitacionais saiu na mídia (2 de março), Hillary Clinton criticou o disparo de foguetes de Gaza como “cínico”, afirmando: “Não há dúvida de que qualquer país, incluindo Israel, não pode observar passivamente enquanto seu território e sua população são submetidos a ataques de foguetes”.

Mas deveriam os palestinos assistir passivamente enquanto o território da Cisjordânia é tirado deles diariamente? Quando os liberais israelenses amantes da paz apresentam seu conflito com os palestinos em termos neutros “simétricos”, admitindo que há extremistas dos dois lados que rejeitam a paz, deveríamos fazer uma simples pergunta: o que acontece no Oriente Médio quando nada acontece diretamente no nível político-militar (isto é, quando não há tensões, ataques, negociações)? O que acontece é o lento e incessante trabalho de tomar a terra dos palestinos na Cisjordânia. O gradual estrangulamento da economia palestina, a divisão de sua terra, a construção de novos assentamentos, a pressão contra agricultores palestinos para fazê-los abandonar a terra (que vai da queima de plantações e da dessacralização religiosa a assassinatos individuais), tudo isso apoiado por uma rede -kafkiana de regulamentos legais.

Saree Makdisi, em Palestine Inside Out: An everyday occupation (A Palestina do Avesso: Uma ocupação diária), descreve como, apesar de a ocupação israelense da Cisjordânia ser em última instância apoiada pelas forças armadas, é uma “-ocupação pela burocracia”: suas formas básicas são formulários, escrituras, documentos de residência e outras autorizações. É essa microadministração da vida cotidiana que faz o trabalho de garantir a lenta e constante expansão israelense: é preciso pedir autorização para viajar com sua família, para arar a própria terra, para cavar um poço, para ir ao trabalho, à escola, ao hospital... Um a um, os palestinos nascidos em Jerusalém são assim despidos do direito de viver lá, impedidos de ganhar a vida, negada a autorização de residência. Os palestinos muitas vezes usam o clichê problemático de que a Faixa de Gaza é “o maior campo de concentração do mundo”. Mas, no último ano, essa designação se aproximou perigosamente da verdade.

Essa é a realidade fundamental que torna obscenas e hipócritas todas as “orações pela paz” abstratas. O Estado de Israel está claramente empenhado em um lento e invisível processo, ignorado pela mídia, uma espécie de escavação subterrânea de toupeira, de modo que um dia o mundo vai despertar e perceber que não existe mais a Cisjordânia palestina, que a terra está livre de palestinos e que só podemos aceitar esse fato. O mapa da Cisjordânia palestina já parece um arquipélago fragmentado.

*Slavoj Zizek é filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Seus mais recentes livros lançados no Brasil são Em Defesa das Causas Perdidas e Primeiro como Tragédia, depois como Farsa, ambos pela Boitempo Editora

** Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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