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Direto de Lima: a batalha de Ollanta Humala contra "La Prensa" peruana

por Palavras Diversas — publicado 26/04/2011 09h36, última modificação 26/04/2011 10h47
Por que o povo cusquenho não pode visitar Machu Picchu? Ou por que semeia-se tantas incertezas sobre Ollanta Humala?

Por Cláudio Ribeiro

De férias em Cuzco pude fazer a trilha inca, de dois dias apenas, afinal o percurso completo de quatro dias é muito penoso para um blogueiro sedentário como eu.

Pude constatar, nas conversas com meu guia do percurso, Hernán, que o parque histórico de Machu Picchu é somente destinado para turistas e que a grande maioria dos cuzquenhos não conhecem, pelos preços altos e pela falta de incentivo governamental, uma maravilha da humanidade, em sua própria cidade.
Fujimori tentou privatizar o patrimônio peruano, mas o povo cusquenho reagiu e impediu tamanho absurdo.

Paralelo a isso, ocorre uma grande campanha eleitoral no Peru, em que Ollanta Humala e Keiko Fujimori disputarão o segundo turno em junho próximo.  Cheguei a Cuzco após a realização do primeiro turno, Ollanta foi o vencedor neste turno, mas há hoje uma campanha de disseminação do medo impressionante nas TV's locais.  Me lembra 1989 no Brasil onde Lula foi demonizado pela imprensa brasileira, o mesmo que ocorre contra Ollanta no Peru de Hoje.

Assisti na TV RPP, um programa que debate contextos e cenários da atualidade peruana, uma discussão sobre "as incertezas de um governo Ollanta".  Haviam quatro participantes no programa, todos pendendo para um só lado: Ollanta representa perigo para a "estabilidade peruana".  Havia um ex-ministro da economia, algo como se o Pedro Malan fosse convidado para explanar sobre o governo Dilma, um editor de um grande jornal de economia, imaginem a Miriam Leitão, além do apresentador do programa, uma espécie de William Waack, e o editor de política e economia da emissora, quem sabe um "Alexandre Garcia peruano".
Todos foram unânimes em afirmar que uma vitória de Ollanta representa o atraso, a incerteza e o alinhamento ao "eixo do mal" sulamericano, Chávez, Evo e Kirchner.

O medo disseminado passa, necessariamente, pela associação de Ollanta com estes governantes populares.  Neste programa da RPP não havia posicionamentos dissonantes daquele apresentado, não havia ninguém da equipe de Ollanta para rebater e discutir em condições, mínimas, de igualdade.  Não havia o direito ao contraditório, à diversidade de pensamento.  Mas o pior é perceber que isso não ocorre somente na RPP, alguns jornais impressos também praticam este jogo antidemocrático.

Mas o mais irônico de tudo isso é que tais agentes conservadores, abrigados na imprensa peruana, que acusam Ollanta de ser autoritário, ou de ter inclinações autoritárias, fazem debates totalmente antidemocráticos, negando ao seu opositor a oportunidade do debate e da negação do que é afirmado contra sua candidatura.

As pessoas estão sendo, diariamente, bombardeadas com informações sobre uma "venezualização" do Peru e do caos de uma mudança do "modelo econômico peruano".  É uma prática impiedosa e desleal para um processo eleitoral em uma plataforma genuinamente democrática.

Hoje a população peuana está sendo levada a decidir contra Ollanta, não a favor de Keiko.
A imprensa peruana e os grupos políticos locais, sabem que o medo de uma "Chavinização do Peru" já está implantado na cabeça das pessoas.
Todas as pessoas com quem conversei, em Cuzco e Lima, parecem inclinar-se ao voto em Keiko, não por convicção em suas propostas, até porque sempre lembraram que uma vitória dela significaria a liberdade imediata do "ditador" Fujimori, seu pai, como algumas pessoas se referiram a ele.  Mas parecem temer mais uma "tal" mudança do "modelo econômico" alarmado pela imprensa.

"Pensión 65"
Uma das grandes plataformas e capitais políticos de Ollanta nas eleiçoes de 2011 é o "Pensión 65", um programa de governo que estabelece uma pensão universal a todo peruano com 65 anos ou mais, no valor de S. 250,00 mensais (duzentos e cinquenta soles, cerca de 90 dólares).
Uma clara intenção de promover a distribuição de riquezas, ferozmente combatida por todos os adversários políticos e pela imprensa.
Dia e noite, todo dia, vi "especialistas" convocados para dizer, entre outras coisas, que o programa de Ollanta é insustentável economicamente, incentiva a informalidade, pois o peruano "não se preocuparia mais em contribuir para a pensão pública, pois receberia da mesma forma", algo como alguns políticos e jornalistas brasileiros dizem que o bolsa família incentiva a "vagabundagem".
O "Pensión 65" é um dos grandes temas do segundo turno, é por onde tentam derrubar a candidatura nacionalista e neutralizar seu apoio entre os mais pobres.

Efeito Lula
As pessoas com quem dialoguei logo que souberam que era do Brasil lembravam: Ronaldo "Fenômeno", Copacabana, samba, futebol e Lula!
Pois é, Lula é uma marca da democracia brasileira, um produto de governo democrático e de esquerda nesta parte do continente, as pessoas o reconhecem e o respeitam como modelo bem sucedido de govenança popular.  Ou seja, Lula poderia ser o antídoto de Ollanta contra a selvageria histérica dos que o acusam de estar a serviço de "Chávez". Não sou partidário da demonização de Chávez, creio no seu governo renovador e democrático, mas também creio que, em um embate tão desigual e conflituoso como este, Lula seja o exemplo a ser copiado, uma aspiração coletiva e pacífica de mudança das condições sociais, em que pese o bom momento da economia peruana, ainda é extremamente concentrada a distribuição de riquezas, o que talvez explique porque o cuzquenho não pode visitar Machu Pichu.

Ollanta publicou o "Compromisso por el Peru", uma versão peruana da "Carta ao povo brasileiro" que Lula precisou escrever para "acalmar o mercado" e neutralizar seus críticos junto ao eleitorado.
Mas não foi suficiente para diminuir a sanha de seus opositores e da imprensa local, logo foi instado por Pedro Pablo Kurcinski, o PPK, a firmar um "Pacto por El Peru", uma grande armadilha política, baseada em termos ligados a manutenção da democracia e pilares macroeconômicos liberais, o que inutilizaria todo o discurso renovador de sua candidatura, limitando suas aspirações de equidade social, pelos compromissos fiscais atuais ora vigentes.  Keiko logo correu para firmar o proposto por PPK, terceiro colocado no primeiro turno e disputado pelo apoio no segundo turno.

Dificuldades de Ollanta no segundo turno
Diferentemente de 1989 no Brasil, a economia peruana vem de um crescimento considerável em 2010, acima dos 8%,  mas as pessoas, em geral, dizem que não querem parar onde estão, nem tampouco retroceder, aí entra o mantra do Chavismo que a imprensa repete diariamente por aqui.
As dificuldades de Ollanta serão extremas, mas há por onde vencer Keiko, pela também rejeição ao "Fujimorismo".

No primeiro turno Ollanta venceu em mais da metade das zonas mais pobres do país, seguido por Toledo, obteve grande apoio no norte do país, principalmente em Puno e Cuzco, mas viu decrescer em cerca de 1% seus votos em Lima, considerando 2006.
Keiko teve maciço apoio entre os mais ricos e nas regiões suburbanas carentes do país.
A classe média é a grande trincheira deste segundo no Peru, por isso, Ollanta conseguiu agregrar cerca de 40 personalidades peruanas, das mais diversas áreas, em seu apoio e combater o clima de incertezas, medo e desinformação criado em torno sua candidatura, este reforço de última hora é, justamente, para respaldá-lo junto a classe média peruana.
De qualquer maneira, a batalha de Ollanta será dificílima, mas não impossível, o efeito Lula, bastante omitido no noticiário local, poderá ajudá-lo, porque a demonização de lideranças políticas importantes na América do Sul como Chávez, Evo, Kirchner e Correa já foi bastante "concretado" no pensamento da população local, principalmente sobre a classe média, e isto é impressionante.
Se a imprensa conservadora brasileira quisesse graduar-se mais no ofício de desinformar e amedrontar a opinião pública, seria no Peru que poderia buscar tal especialização.

*Matéria publicada originalmente em Palavras Diversas

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