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Dilúvio no deserto

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 03/03/2011 09h35, última modificação 04/03/2011 10h18
Depois de 42 anos de domínio quase incontestado, Kaddafi trava uma feroz e inesperada guerra civil. Em uma semana, perdeu o controle da maior parte do país. Por Antonio Luiz M. C. Costa
Dilúvio no deserto

Depois de 42 anos de domínio quase incontestado, Kaddafi trava uma feroz e inesperada guerra civil. Em uma semana, perdeu o controle da maior parte do país. Por Antonio Luiz M. C. Costa. Foto: Christophe Simon/AFP

Matéria de capa da edição 635 de 25.02.2011
Depois de 42 anos de domínio quase incontestado, Kaddafi trava uma feroz e inesperada guerra civil. Em uma semana, perdeu o controle da maior parte do país

Enquanto cresciam as insurreições no Bahrein, no Iêmen e na Jordânia, o país- de Muammar Kaddafi parecia tranquilo em meio à agitação árabe, apesar de ter fronteiras com a Tunísia e o Egito. Mas em menos de auma semana, saltou para a guerra civil aberta. Tudo o que se tinha visto nas manifestações do Oriente Médio e da África – que, além dos países citados, já afetam também Irã, Iraque, Kuwait, Omã, Djibuti, Marrocos, Sudão, Etiópia, Camarões, Angola, Zimbábue e Gabão – foi superado pela rapidez e violência dos eventos na Líbia.

A surpresa foi tanto maior pela falta de informações diretas e confiáveis sobre o país. Há muito tempo a Líbia não despertava o interesse dos correspondentes ocidentais. Nem sequer a Al-Jazira tinha lá um jornalista quando o movimento começou. E entre os que mantinham contato com o país, interesses conflitantes geraram certa relutância em aceitar os fatos.

O passado revolucionário de Kaddafi e sua retórica anti-imperialista, ainda não de todo extinta e às vezes respaldada por polpudos recursos financeiros, granjearam-lhe simpatia em setores da esquerda, notadamente a bolivariana: na terça-feira 22, enquanto o mundo se horrorizava com o bombardeio de civis líbios por aviões, helicópteros e canhões, o presidente Daniel Ortega telefonava ao ditador para lhe oferecer a “solidariedade do povo nicaraguense”.

Ao mesmo tempo, a reconciliação do líder líbio com as potências ocidentais na última década e sua lucrativa relação com as transnacionais, somadas à ameaça velada de Kaddafi de lançar centenas de milhares de refugiados nas costas da Europa, fizeram também a direita relutar em criticá-lo. No sábado 19, ao ter notícia de vítimas do conflito na Líbia, o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, negou-se a comentar o assunto: “Não, não falei com ele (Kaddafi). A situação está em evolução e, portanto, não me permito incomodar”.

O Brasil não foi diferente. Em fevereiro de 2009, José Serra e Gilberto Kassab tinham festejado a visita do vice-primeiro-ministro líbio Imbarek Ashamikh, oferecendo-lhe presentes, abraços e os serviços e produtos paulistas, tentando captar parte dos 500 milhões de dólares que a Líbia prometia investir na América do Sul. E Lula trocou elogios e cumprimentos com Kaddafi, ao encontrá-lo na cúpula da União Africana em Sirte, na Líbia, em julho de 2009 – quando o líbio era tanto anfitrião quanto presidente da organização – e na cúpula América do Sul e países árabes na Venezuela, em setembro.

A quem quer que o interesse econômico ou geopolítico predispusesse a vê-lo com boa vontade, Kaddafi podia ser considerado tanto um líder anti-imperialista quanto um parceiro das transnacionais europeias e um bastião do Ocidente contra o fundamentalismo. Na sua complicada trajetória e nas suas ideias excêntricas, podia encontrar-se de tudo.

Filho de beduínos nômades, Kaddafi era tenente e estudava técnicas militares em Londres quando, inspirado pela revolução nasserista, fundou em 1966 a União dos Oficiais Livres. Voltando à Líbia, conspirou contra o rei Idris, aliado dos interesses petrolíferos anglo-americanos, e deflagrou a insurreição que derrubou a monarquia em setembro de 1969.

O Conselho da Revolução por ele liderado se disse muçulmano, nasserista e socialista e tratou de expulsar as bases militares dos Estados Unidos e do Reino Unido e assumir o controle da produção e da maior parte dos lucros do petróleo. Foi decisivo para a consolidação da Opep: seu governo foi o segundo, após a Argélia, a promover um reajuste unilateral do petróleo (de 2,23 para 2,53 dólares em setembro de 1970) e liderou o embargo petrolífero aos EUA após a Guerra do Yom Kippur, em outubro de 1973, o primeiro “choque do petróleo”.

No plano interno, comandou a modernização da indústria e da agricultura, investindo nesses setores dezenas de vezes mais que a antiga monarquia, e promoveu uma reforma agrária que deu dez hectares, trator e implementos agrícolas a cada família. Os recursos do petróleo proporcionaram uma boa renda per capita e razoáveis serviços de educação e saúde.

Com Nasser morto e seu sucessor Anuar- Sadat mostrando-se conciliador, Kaddafi tornou-se o rosto do nacionalismo árabe radical ao antagonizar as monarquias do Marrocos aos Emirados e apoiar grupos rebeldes, inclusive os palestinos, os Panteras Negras dos EUA, o Exército Republicano Irlandês e a oposição ao ditador Ferdinand Marcos nas Filipinas. De 1972 a 1977, tentou ressuscitar o sonho nasserista com uma federação que uniu Líbia, Egito e Síria, mas as relações com o Egito se deterioraram por causa da aproximação com os norte-americanos e Israel a ponto de produzir uma breve guerra em 1977 e enterrar, outra vez, o projeto pan-árabe.

Enquanto isso, as ideias de Kaddafi tomavam forma. Em 1975, publicou o Livro Verde sobre a “terceira teoria internacional” (em relação ao capitalismo e ao socialismo), um misto de socialismo, lei islâmica e suposta “democracia direta de massas”. Em 1977, o país foi reorganizado como a “Grande Jamahiriya Socialista Popular Árabe da Líbia”. “Jamahiriya” é um neologismo árabe que se contrapõe a “Jumhuriya”, república, com a conotação de “Estado de massas”, nas quais estas governariam diretamente através de comunas e conselhos populares, sem mediação de partidos. De certa maneira, é uma ideologia a meio caminho entre o nacionalismo laico e popular do nasserismo e o fundamentalismo islâmico de décadas mais recentes.

A bandeira tricolor pan-árabe foi trocada por outra, toda verde, e, em 1979, Kad-dafi deixou de ser presidente do Conselho do Comando Revolucionário para ser “apenas” Líder e Guia da Revolução. Mas poucos no exterior se dão ao trabalho de anotar quem são os secretários-gerais de turno do Congresso e do gabinete, teoricamente chefes de Estado e governo. Na prática, Kaddafi tinha o poder absoluto e manipulava os conselhos à vontade.

A Líbia ficou isolada pela virada pró-americana de Sadat, mas, graças ao petróleo, continuou a ser muito influente na África negra, além de apoiar a resistência palestina contra Israel e os aiatolás do Irã contra Saddam Hussein, em ambos os casos em oposição aos EUA. Recebeu também o apoio do filósofo francês ex-marxista Roger Garaudy, convertido ao Islã.

Em 1981, Ronald Reagan enviou o porta-aviões Nimitz ao Golfo de Sidra para desafiar Kaddafi, o que resultou em um combate aéreo e no embargo da Líbia pelos EUA. Ainda nesse ano, diplomatas e militares dissidentes fundaram o que até recentemente era considerado a principal oposição, a Frente Nacional de Salvação da Líbia, que em 1984 tentou assassinar Kaddafi, mas desde então manteve apenas atividades de propaganda.

Em 1986, após acusar a Líbia por um atentado terrorista em um clube noturno alemão no qual morreram três militares norte-americanos, Reagan bombardeou Trípoli e Bengazi, destruiu a casa do líder e matou 60 pessoas, inclusive uma filha adotiva de Kaddafi de 1 ano de idade. Anos depois, Victor Ostrovsky, ex-agente do Mossad, afirmou que esse atentado tinha sido realizado por sua organização. Mas houve realmente agentes líbios envolvidos nos atentados a aviões comerciais dos EUA (1988, sobre Lockerbie, Reino Unido) e França (1989, sobre o Níger), pelos quais a Líbia sofreu sanções da ONU a partir de 1992. Em 1993, um grupo de oficiais ligados à tribo Warfalla tentou um golpe fracassado contra Kaddafi e oito deles foram executados.

A partir de 1999, por meio da mediação da ONU, a Líbia se reaproximou do Ocidente. Aceitou a responsabilidade pelos atentados aéreos e entregou os suspeitos de Lockerbie à Justiça britânica. Em 2001, condenou os atentados de 11 de Setembro e, em 2003, após a invasão do Iraque, abandonou o programa nuclear, indenizou os parentes das vítimas, reabriu o país às transnacionais e promoveu em 2005 um leilão de reservas de petróleo, beneficiando a British Petroleum, a francesa Total e a italiana ENI, entre outras.

Suas relações com o Ocidente foram praticamente normalizadas. Em 2006, os EUA a tiraram da lista de Estados “patrocinadores do terrorismo” e passaram a ver Kaddafi como um aliado contra o fundamentalismo. Em companhia da Tailândia e de outros países de reputação duvidosa, a Líbia teve anuência de Wash-ington ao ser eleita para o Conselho de Direitos Humanos da ONU em maio de 2010, ao passo que o Irã foi vetado.

Entrou para a lista estadunidense de organizações terroristas, por outro lado, o Grupo de Combatentes Islâmicos da Líbia, que, atuante na região de Bengazi, desafiava Kaddafi: declarou-o “apóstata” em 1995 e tentou liquidá-lo com uma granada em 1996, deixando-o em estado de choque e matando alguns de seus guarda-costas. Apesar de também ter sido fundado por militantes islâmicos que lutaram no Afeganistão contra os soviéticos, é independente da Al-Qaeda.

O último susto pregado por Kaddafi ao Ocidente foi recentemente revelado pelo WikiLeaks. Em novembro de 2009, após acertar a devolução à Rússia de reservas de urânio enriquecido emprestadas durante a Guerra Fria, Kaddafi ofendeu-se porque não o deixaram armar sua tenda na sede da ONU e suspendeu o acordo. Cinco barris de urânio radioativo ficaram ao deus-dará no pátio da usina de Tajoura, vigiados apenas por um guarda e aquecendo-se pouco a pouco, com o risco de ruptura do invólucro e contaminação radioativa da região, ou de roubo por terroristas. Foi preciso Hillary Clinton telefonar pessoalmente e acalmar o líder melindrado para que o avião russo finalmente fosse autorizado a pousar e levar a carga, depois de um mês de impasse.

A tenda que leva e arma em suas viagens é apenas uma da longa lista de excentricidades do líder líbio. Incluem seu famoso corpo feminino de 30 a 40 guarda-costas (virgens, diz a lenda) que o acompanhavam a toda parte, como também a inseparável “enfermeira” ucraniana Galyna Kolotnytska. Kaddafi evita sobrevoar o mar e se nega a voar mais do que oito horas de uma vez, a se acomodar acima do primeiro andar de qualquer edifício ou subir mais que 35 degraus, o que torna a preparação de suas viagens mais complicada do que a do mais caprichoso dos ídolos do rock.- Mas não é apenas megalomania: trata-se de alimentar seu carisma de rebelde hostil às convenções ocidentais junto a um povo orgulhoso de suas raízes beduínas. Como tentou ainda fazer em seu pronunciamento de 22 de fevereiro, no qual, vestido como nômade, discursou agressivamente em frente à sua casa bombardeada pelos EUA em 1986, transformada em monumento à resistência.

O primeiro protesto importante aconteceu em 15 de fevereiro, em Bengazi, Bayda e Zintan, contra a prisão de Fathi Tarbil, advogado dos parentes de 1.270 detentos chacinados pela polícia líbia na prisão de Abu Salim (Trípoli) em 1996. No dia seguinte, a violência explodiu: 1,5 mil manifestantes tentaram tomar a sede da polícia em Bayda e seis pessoas foram mortas. Kaddafi tentou aplacar as manifestações com a libertação de 110 militantes islâmicos presos, mas 17 de fevereiro foi declarado “dia de fúria” e os mortos começaram a se contar às dezenas. No sábado 19, já eram centenas, o aeroporto e grande parte da cidade de Bengazi tinham caído nas mãos dos revoltosos e havia saques em Trípoli.

No dia 20, clérigos muçulmanos e líderes das tribos – a começar pela Warfalla e pelos tuaregues – pediam a renúncia do governo. Manifestantes incendiaram prédios do governo em Trípoli. Embaixadores e outros diplomatas líbios no exterior começaram a renunciar e apoiar a rebelião. Saif al-Islam (a espada do Islã, em árabe), filho de Kaddafi, foi à tevê acusar “agentes estrangeiros” pela revolta, afirmar que os rebeldes pretendiam dividir a Líbia em pequenos emirados islâmicos e oferecer reformas – descentralização, nova Constituição, novo hino, nova bandeira, tudo que quisessem desde que a família permanecesse no poder.

Parecia conciliador, mas a violência saltou de patamar na segunda 21. Navios de guerra, caças, helicópteros, metralhadoras e canhões antiaéreos dispararam contra manifestantes. Continuaram as defecções de diplomatas e funcionários do governo. Dois pilotos de caça pousaram seus Mirage F1 na ilha de Malta, desertando por se recusarem a bombardear manifestantes. Um pronunciamento de Kaddafi foi anunciado à noite e ansiosamente aguardado, mas ele só apareceu por breves 15 segundos da madrugada, dizendo-se cansado e desmentindo os boatos de que tinha fugido para a Venezuela.

Na terça 22, líder líbio voltou à tevê para convocar seus apoiadores a sair às ruas e limpar a Líbia “casa por casa”. Alegando ainda não ter recorrido à força, ameaçou fazer “tudo queimar” e invocou os exemplos da repressão da China na Praça Tiananmen e dos EUA em Waco. Mas o apoio a seu governo continuou a dissolver-se. Além de mais diplomatas, soube-se da demissão do ministro da Justiça, Mustafá al-Jeleil, e do ministro do Interior, general Abdul Fatah Younis, tido como o número 2 do regime.

Apesar de Kaddafi insinuar que a alternativa a ele seria a invasão pelos Estados Unidos ou algum “barbudo” islâmico (Osama bin Laden), perdeu apoio no exterior e foi expulso da Liga Árabe. O teólogo Yussuf Al-Qaradawi, líder espiritual- da Fraternidade Muçulmana no Egito, emitiu uma fatwa autorizando quem tiver oportunidade a assassinar Kaddafi em nome de Alá, para acabar com o sofrimento do povo líbio. Grande parte do Exército também mudou de lado.

Restou a Kaddafi, além de 5 mil dos 45 mil soldados regulares, uma guarda pretoriana de 7 mil mercenários, que continuam a ser recrutados em países da África negra com a promessa de até 2 mil dólares diários. Sua estratégia parece ser resistir o máximo possível, com a esperança de forçar um acordo que o deixe com boa parte do poder. No dia 23, seu filho Al-Saadi- deu entrevista ao Financial Times e disse que o irmão Saif trabalhava numa nova Constituição que deixaria a Kaddafi o papel de “grande pai” e conselheiro.

No dia 23, a União Africana expulsou Kaddafi e até o nada liberal Mahmoud Ahmadinejad condenou a “grotesca” repressão da Líbia. O chanceler italiano, Franco Frattini, estimou (conservadoramente) mil mortos na guerra civil, que deixara toda a Cirenaica, metade leste do país, sob controle rebelde. Isso foi confirmado por jornalistas do Guardian e da Al-Jazira, que, apesar das ameaças de Kaddafi, atravessaram a fronteira com o Egito, guardada apenas por milícias da oposição. Rebelaram-se cidades do oeste, entre elas Misurata, a terceira do país- (depois de Trípoli e Bengazi) e outras perto da fronteira da Tunísia. A produção de petróleo caiu pela metade e a tripulação de um bombardeiro Sukhoi SU-22 ejetou seus assentos e deixou o avião se espatifar no deserto para não bombardear os rebeldes. Houve relatos de oficiais e pilotos executados por se recusarem a cumprir ordens de ataque a civis.

No dia 24, Kaddafi concentrava suas forças em torno de Trípoli e a oposição se organizava como governo em Bengazi, já com a maior parte do país sob seu controle. Segundo o Guardian e a Al-Jazira, a administração está nas mãos de profissionais liberais – médicos, advogados e engenheiros – e chefes de tribos negociam com os líderes políticos e militares que desertaram de Kaddafi, o ex-ministro da Justiça à frente, o que parece ser o embrião de um governo interino. Kaddafi voltou a falar em Zauiya – disputada ligação estratégica entre a capital e a fronteira da Tunísia –, acusando os rebeldes de serem jovens drogados e manipulados por Bin Laden. Por que se erguer contra ele em massa, perguntou, se a vida na Líbia é boa e os salários não são tão ruins?

A pergunta procede. A Líbia tem o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da África (0,755), superior ao do Brasil (0,699). O índice de alfabetização, 86,8%, é o terceiro melhor da África (depois de Namíbia e África do Sul) e pouco inferior ao nosso. A distribuição de renda é satisfatória e o índice de pobreza um dos mais baixos entre países periféricos. Para os Estados Unidos, Kad-dafi, longe de ser um maluco, foi hábil na gestão dos conflitos internos de seu país e de sua própria família, marginalizando seus rivais e confrontando lucidamente os líderes estrangeiros que os encontravam. De onde tantos cidadãos tiraram energia e indignação para enfrentar uma repressão tão brutal?

Havia inquietação por falta de moradia e empregos para os jovens, mas não com a gravidade dos países vizinhos. A oposição inclui fundamentalistas, mas estes não parecem ter grande influência na revolta ou em sua linguagem.

O símbolo do levante é a bandeira da monarquia anterior a Kaddafi. Poderia ter significado regionalista: o rei foi originalmente emir da Cirenaica (leste) e a região, que detém a maior parte do petróleo líbio, tinha em seu tempo muita autonomia. Mas se o movimento fosse regionalista, por que tantas cidades e tribos acompanhariam a rebelião na Tripolitânia (noroeste) e em Fezã (sudoeste)?

A resposta só ficará clara depois do desfecho, mas provavelmente estará relacionada às 30 tribos às quais pertencem 85% dos líbios nativos (cerca de 5 milhões dos 6,5 milhões de habitantes, sendo os demais imigrantes do Egito e África negra). É principalmente por meio das conexões tribais que os líbios conseguiam os direitos teoricamente garantidos pela cidadania, proteção, empregos e postos no governo ou no aparato de segurança.

Tanto por respeito à tradição beduína quanto para evitar o surgimento de uma grande liderança rival, Kaddafi alimentou a divisão do país e do Exército em bases tribais. Punia ou premiava tribos segundo sua fidelidade, enquanto se mantinha acima delas, no comando de mercenários sem vínculos com a nação. Mas pode ter errado a mão ao marginalizar tribos demais por tempo demais e frustrar aspirações, de modo a criar uma vasta coalizão espontânea contra ele.

Isso pode explicar a rapidez impressionante da defecção de diplomatas, unidades militares e ministros e a disposição de enfrentar forças pesadamente armadas: essas redes sociais multisseculares constituem laços de solidariedade, confiança e lealdade muito mais confiáveis do que qualquer Facebook e mais difíceis de devassar. Uma vez negociada e decidida a revolta por lideranças respeitadas, parentes e companheiros lutam até o fim e conseguem encurralar num beco sem saída até o mais brutal dos ditadores.

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