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Internacional

Entrevista - Dilma Rousseff

"Jamais seremos um poder regional com porrete na mão"

por Deutsche Welle publicado 10/06/2015 04h23
Em entrevista exclusiva à DW, presidenta defende política externa de seu governo, promete destravar negociações de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia e diz que ajuste fiscal é necessário
Roberto Stuckert Filho/PR

Por Philipp Barth

A presidente Dilma Rousseff, em entrevista exclusiva à DW, prometeu fazer "o possível e o impossível" durante a cúpula entre a União Europeia e a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), que começa nesta quarta-feira (10/06) em Bruxelas, para destravar as negociações de livre-comércio entre o Mercosul e o bloco europeu.

Durante mais de uma hora de conversa no Planalto, Dilma admitiu enfrentar um cenário interno complicado. Ela defendeu o ajuste fiscal como condição para o país voltar a crescer, lamentou que a reforma política não tenha avançado e disse que nenhum outro governo combateu tanto a corrupção como o seu: "Um dos ônus [de combater a corrupção] é acharem que nós é que fazemos a corrupção".

Sobre as críticas que recebe por não ter uma postura mais firme em relação às turbulências políticas na Venezuela, disse que o Brasil "não é golpista" e jamais será uma potência regional "com um porrete na mão". E, ainda sobre política externa, defendeu reformas no Conselho de Segurança da ONU e em órgãos como Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial, que, segundo ela, não refletem a realidade do mundo.

Ao fim da entrevista, a presidente não fugiu da provocação pela derrota de 7 a 1 para a Alemanha na semifinal da Copa. "Doeu muito. Mas brasileiro não desiste nunca. Por isso eu lhe digo: aguardem que um dia nós voltaremos." E, num momento de descontração, cantou um trecho da música Volta por cima, composta por Paulo Vanzolini: "Ali onde eu chorei, qualquer um chorava, mas dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava. É essa música que está preparada para vocês [alemães]."

DW: A senhora vai participar da cúpula entre a União Europeia e a Celac. O que esperar dessa cúpula? Como a senhora avalia o desenvolvimento das relações entre América Latina e Europa?

Dilma Rousseff: Eu acredito que são relações estratégicas para a região, tanto para a América Latina quanto para o Caribe. Nós queremos estreitar essas relações. Por isso, os países do Mercosul pretendem marcar o prazo para fazer a entrega das ofertas do acordo de livre-comércio com a UE. Do ponto de vista do Mercosul, principalmente do ponto de vista do Brasil, é prioritário, neste ano de 2015, que a gente chegue a esse acordo. Resta saber se nós [os países do Mercosul] vamos poder fazer isso simultaneamente. Os países têm diferenças.

DW: Qual é o principal obstáculo para a conclusão do acordo, que já é negociado há quase 20 anos?

DR: Ele está sendo esboçado há mais de 20 anos, mas foi em 2010 que os parâmetros efetivos foram desenvolvidos. De 2010 até hoje, os países tiveram tempo para consultar o seu setor econômico e construir uma proposta. Por isso eu acho que está maduro. Eu espero que esse acordo saia e, do nosso ponto de vista, tem todas as condições para sair.

DW: O maior obstáculo não é a Argentina e a sua política econômica, que é criticada pelos europeus?

DR: Eu acho que não é possível responsabilizar individualmente a Argentina. A Argentina até chegou a uma ótima proposta. O que se está buscando é que, ao se juntar as propostas, se tenha uma proposta sólida e favorável. Porque muitas vezes o que um país quer, o outro não quer. Vocês vão ter isso também dentro da UE. E os regimes, tanto do Mercosul quanto do bloco europeu, permitem que os países estabeleçam ritmos diferenciados para fazer o acordo.

DW: Ritmos diferenciados? Então o Brasil estaria disposto a levar a negociação adiante de forma independente, mesmo que isso vá contra o interesse de outros países-membros?

DR: Eu respondo isso se você me responder se os países da União Europeia farão, de forma independente, uma proposta para nós. Não acredito. Eu buscarei sempre levar junto todos os países. E estar junto com eles. O Brasil está disposto a fazer todos os esforços, possíveis e impossíveis, para que cheguemos a esse acordo. Está marcada para este ano aqui em Brasília a próxima cúpula. Eu gostaria que a gente tivesse um prazo bastante visível no horizonte para selar esse acordo. E aí passar para outro tipo de acordo, que se chamaria "acordo 2.0". É um acordo na área dos marcos regulatórios, sanitários, enfim, um acordo que, além do comercial, que é a base, coloque e dê um passo à frente no que se refere às relações Brasil-União Europeia. Esse acordo “2.0” é no sentido de fazer a convergência dos marcos regulatórios dos países, facilitando o comércio de uma forma efetiva.

"Nós não somos golpistas no Brasil"

DW: O Brasil é uma potência mundial e busca um assento no Conselho de Segurança da ONU. Só que, recentemente, o interesse brasileiro pela política internacional parece ter diminuído. O governo da senhora está preparando alguma iniciativa – por exemplo, junto à Alemanha – ou a política interna agora é mais importante?

DR: Não, nós consideramos essencial a mudança no Conselho de Segurança da ONU. Nós fazemos parte do grupo, junto com a Alemanha, que sistematicamente luta por isso. Inclusive nós levamos isso a todos os nossos parceiros comerciais, na área internacional, na área de cooperação, porque consideramos que a atual composição não reflete a realidade do mundo. E, além de ela não refletir a atualidade, não tem resolvido os problemas que se apresentam. Defendemos também, com o mesmo empenho, a mudança nos órgãos econômicos. A representação no Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial não corresponde à realidade econômica do mundo. Esse empenho vai ficar claro na próxima reunião do G20.

DW: O mundo observa com preocupação a situação na Venezuela. O governo alemão e a comissão de direitos humanos da ONU já se manifestaram preocupados. Como a senhora avalia a situação no país?

DR: Tem sido um princípio tanto do Brasil como de todos os órgãos multilaterais da América Latina, principalmente da Unasul, garantirmos uma das maiores conquistas que obtivemos nos últimos anos, que foi nos transformarmos em países democráticos. Por isso, para nós, é de grande valor a questão do Estado democrático de Direito. Estruturamos toda uma política de apoio e de colocação de determinados marcos na relação com a Venezuela, no sentido de que a oposição e a situação respeitem os marcos institucionais democráticos legais.

DW: Mesmo assim, a senhora é criticada por não adotar uma posição mais firme em relação à perseguição à oposição na Venezuela. Como a senhora recebe essas críticas?

DR: Eu acho que muita gente gostaria que nós virássemos as costas para a Venezuela, como durante muito tempo foi feito com Cuba. Com Cuba, apesar de termos visões diferentes sobre sociedade, processos políticos e econômicos, nós sempre percebemos que a melhor relação era aquela que construísse uma transição. Isso tem mais resultado que os 40 anos de bloqueio, que não levaram a nenhuma transformação de Cuba. E isso que o presidente Obama e o presidente Raúl Castro fizeram tem que ser saudado, porque é o fim da Guerra Fria na América Latina. A mesma coisa na Venezuela. Nós não somos golpistas no Brasil, nós não somos a favor de interferências e intervenções dentro de países irmãos. Nós não fazemos isso. Nós somos um país eminentemente pacífico. Muita gente gostaria que nós tivéssemos uma posição de distanciamento em relação à Venezuela, muitos defenderam isso também para a Bolívia logo que o presidente Evo [Morales] assumiu. Colocar a Venezuela como sendo uma ameaça aos EUA não é algo que contribui para uma maior democracia [no país], contribui para radicalizar posições. A boa notícia sobre isso é que visivelmente os EUA estão fazendo gestos no sentido de garantir o diálogo com a Venezuela, o que é muito bom para a região.

DW: Mas não seria papel do Brasil, como potência regional, se posicionar de forma mais contundente?

DR: Nós não seremos jamais um poder regional com o porrete na mão. Para ser poder regional não precisa ser um interventor, você tem que ser capaz de entender as sociedades e lutar pelas transformações de uma forma que não seja a intervenção. O mundo ficou muito acostumado com intervenções militares. Eu não creio que isso tenha levado à estabilidade das regiões. O Brasil tem que ser uma ponte para o diálogo, para o entendimento, contra todos os processos de intolerância. Obviamente, em relação a rupturas democráticas, nós teremos sempre uma posição muito firme de rejeição. Nós não aceitaremos rupturas democráticas, golpes na oposição ou golpes depondo governos.

"A corrupção é feita escondida"

DW: A senhora enfrentou, no início do segundo mandato, um momento difícil. Problemas econômicos, uma forte resistência da oposição, escândalos de corrupção, protestos nas ruas. Como cumprir as promessas em um cenário tão complicado?

DR: Nós tivemos de fato um cenário muito complicado. Primeiro, nós tivemos uma eleição muito disputada, talvez a mais conflituosa dos últimos tempos. Isso se prolongou. Para manter todas as promessas, e mais do que promessas, todos os compromissos que nós temos de garantir que o Brasil continue sendo o país que fez mais inclusão social, mais redução da miséria, e mais elevação da sua população à classe média, nós precisamos fazer um ajuste. Não fazê-lo seria se deixar derrotar antes da luta começar. Porque nós precisamos ter todos os instrumentos para voltar a crescer, e um deles é necessariamente um equilíbrio fiscal. Nós não fazemos ajuste pelo ajuste, seria uma sandice. Nós fazemos o ajuste porque ele é condição para voltar a crescer.

DW: De fora, o Brasil neste momento parece ainda marcado pela corrupção. A senhora, desde o início do primeiro mandato, combateu o problema, mas ainda há partes da população que acham que a senhora sabia da corrupção na Petrobras. Muitos deles até pedem um impeachment. Como convencer essa parte do povo de que a senhora é a pessoa certa para combater a corrupção?

DR: Um dos ônus é acharem que nós é que fazemos a corrupção. Mas esse ônus é insignificante perto do fato de que eu posso lhe garantir que o Brasil, nesta área, mudou. Nunca antes no Brasil quem corrompia era preso, nem tampouco quem era corrompido. Agora é. É óbvio que o Brasil precisa fazer uma reforma política. É óbvio, e isso nós temos há muito tempo discutido e insistido. Nós do governo somos contra financiamento empresarial de campanha. A contribuição tem de ser de pessoa física e não de pessoa jurídica. Infelizmente, isso não passou no Congresso.

Dizer que a gente sabia da corrupção, por exemplo, na Petrobras, é um absurdo. Para descobrir a corrupção na Petrobras foi necessário que a PF, o MP, o STF, o Judiciário todo se estruturasse para fazer a investigação, e só se conseguiu investigar através do instituto legal chamado delação premiada. Esse poder de saber o que estava acontecendo implica uma visão extremamente ingênua sobre a corrupção. A corrupção é feita escondida. Ela é escamoteada, ela é coberta. Descobri-la envolve muito mais do que uma pessoa saber.

"Chance para uma Fifa mais transparente"

DW: Os últimos dias foram marcados também pelas notícias sobre a corrupção na Fifa. Também com funcionários importantes do futebol brasileiro incluídos…

DR: Funcionário da Fifa, não?

DW: Da Fifa, mas brasileiros...

DR: Eu só quero dizer que eles são funcionários da Fifa. São brasileiros, funcionários da Fifa.

DW: Isso foi uma surpresa para a senhora?

DR: Atualmente, em relação ao mundo, eu não me surpreendo com nada. O que eu acho é que, se isso servir para que a gente possa passar em revista uma radiografia da Fifa, transformar a Fifa num órgão mais transparente e que não deixe a menor fresta para corrupção, vai ser uma grande conquista. Fico triste por um brasileiro estar preso, porém, acho que, se ele tem qualquer responsabilidade, tem que responder pelo que fez.

DW: No ano passado, o Brasil recebeu a Copa do Mundo, e a Fifa também ganhou muito dinheiro por aqui. Como a senhora se sente ao saber que uma organização corrupta fez dinheiro em seu país?

DR: Nossas relações foram bastante conflituosas com a Fifa. Não tenho nenhuma queixa do senhor [presidente da Fifa, Joseph] Blatter, que sempre teve um comportamento bem respeitoso em relação ao Brasil. O mesmo não digo de outras pessoas. Eu fico inconformada com o fato de que [o escândalo atinja] uma coisa tão importante para o mundo, como é o futebol. Eu acredito que, aqui no Brasil, nós fornecemos, talvez, o maior lucro para a Fifa nos últimos anos, porque o Brasil é um país do futebol, é um país que adora o futebol.

DW: A dez minutos daqui do Planalto, fica o Estádio Mané Garrincha, que é lindo, mas, infelizmente, está quase o tempo todo vazio. Os gastos com a Copa do Mundo levaram a protestos nas ruas. Hoje, a senhora faria tudo de novo, mesmo sabendo que esse legado é questionável?

DR: Eu não fiz os estádios. Os estádios são uma negociação da Fifa com os governadores. O que o governo federal fez foi colocar 400 milhões de reais de financiamento para todos os estádios. Ou foi tomado pela iniciativa privada, ou foi tomado pelos governadores. A dimensão dos estádios não foi responsabilidade do governo brasileiro.

DW: Um ano depois da Copa, a senhora já se recuperou do 7 a 1?

DR: Eu vou responder porque é uma provocação (risos). Doeu muito. Doeu, sim, senhor. Mas você sabe que nós temos uma característica: brasileiro não desiste nunca, muito mais em futebol. Por isso eu lhe digo: aguardem que um dia nós voltaremos. Não digo que vai ser um 7 a 1, mas a gente ainda vai imprimir uma derrota em vocês. Tem uma música no Brasil que você deve conhecer, é sobre outro assunto, mas pode ser usada para isso: Ali onde eu chorei, qualquer um chorava, mas dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava. É essa música que está preparada para vocês.

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