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The Observer

A corrida para a Casa Branca em 2016 já começou

por The Observer — publicado 17/11/2014 05h25
O presidente está isolado após a derrota dos democratas nas eleições legislativas da semana passada. Os dois lados da divisão política já planejam o futuro
Casper Manlangit
Barack Obama

Oposição expande domínio no Congresso e ameaça forçar Obama a mudar curso de suas políticas nos últimos dois anos de mandato

Por Dan Roberts

Mesmo pelos padrões de alta octanagem da política americana, foi uma mudança de marcha incrivelmente abrupta. Uma hora e 50 minutos depois de fechadas as urnas na eleição legislativa mais cara da história, começou a disputa pelo próximo embate: a corrida para a Casa Branca em 2016.

O primeiro político a romper o interlúdio da eleição de meio de mandato na terça-feira 4 – o pré-candidato republicano à presidência Rand Paul – não estava em clima de sutilezas. Perguntado pela Fox News sobre o que achava da vitória, minutos antes, de seu colega senador Mitch McConnell, do Kentucky, contra o candidato democrata Alison Lundergan Grimes, Paul gastou poucas palavras para identificar um alvo totalmente diferente.

"Aqui no Kentucky foi um referendo não apenas sobre o [atual] presidente, mas sobre Hillary Clinton", respondeu Paul, que sorriu timidamente quando perguntado se essa afirmação tinha algo a ver com a ex-secretária de Estado ser seu mais provável adversário caso ele ganhe a nomeação republicana.

O Congresso está há muito tempo preso no modo de campanha. O novo legislador médio que chega a Washington deverá gastar, segundo estimativas, 40% de seu tempo angariando fundos para a eleição seguinte. Raramente presidentes em segundo mandato têm muito poder sobrando depois de disputar sua última eleição de meio de mandato, especialmente se, como ocorreu com Barack Obama na semana passada, seu partido perder o controle das duas câmaras do Congresso.

Mas o fracasso de Obama em superar a Câmara de Deputados intransigente mesmo antes de sua derrota torna a perda do Senado duplamente debilitante e a corrida para preencher o vazio de poder ainda mais crucial. Em uma era em que até sua política externa provavelmente será restrita pela necessidade de manter o Congresso ao seu lado, os Estados Unidos e o mundo estarão observando cuidadosamente quem emerge como o próximo possível comandante-em-chefe.

O uso por Paul do nome de Clinton teve justificativas. Desde que o impopular Obama foi banido da campanha nos estados indecisos pelos democratas nervosos, restou a Bill e a Hillary Clinton fazer a maior parte do trabalho de apoio em estados republicanos como Kentucky, Iowa e Arkansas, onde seu tipo de política de centro era considerada mais palatável. Embora nenhum dos dois tenha declarado oficialmente que está na disputa, Clinton e Paul não foram os únicos prováveis candidatos em 2016 que engataram com sucesso seu vagão às eleições intermediárias.

O governador de New Jersey, Chris Christie, usou sua posição como presidente da Associação de Governadores Republicanos para reabilitar uma reputação pessoal prejudicada, ajudando seu partido a capturar enclaves democratas em Maryland, Illinois e Massachusetts.

Scott Walker, o menos conhecido mas atuante governador de Wisconsin, também demonstrou sua habilidade para afastar os democratas em um estado onde ele fez nome reprimindo a atividade sindical. E o senador do Texas Ted Cruz cimentou sua reputação como cão de ataque da direita republicana com uma série de bravatas sobre como os próximos dois anos serão gastos para desfazer o legado de Obama.

De maneira mais intrigante, o ex-governador da Flórida Jeb Bush voltou à trilha de campanha – desta vez por seu filho, George P. Bush, que se tornou com sucesso o quinto membro da dinastia familiar a ganhar um cargo público em uma eleição para o poderoso cargo de comissário da terra no Texas. A especulação sobre se Jeb tentará se tornar o terceiro Bush na Casa Branca tinha diminuído depois que sua mãe sugeriu em 2013 que o país já teve "Bushes suficientes", mas George P. deixou claro que qualquer dessas rusgas familiares internas tinha terminado, dizendo aos entrevistadores que agora é "mais que provável" que seu pai se candidate.

A perspectiva renovada de mais uma batalha Bush versus Clinton ainda pode deixar muitos americanos aterrorizados, especialmente aqueles que pensavam ter escapado do regime dinástico há 238 anos, mas paradoxalmente a possível entrada de Jeb na corrida é considerada por alguns democratas uma boa notícia para Hillary, porque pode "cancelar" as críticas sobre seu próprio caminho privilegiado ao poder.

De modo geral, a derrota eleitoral dos democratas na terça-feira 4 não foi tão ruim quanto se poderia esperar para seus principais candidatos em 2016. Hillary, que disse que vai declarar se é candidata em janeiro, está tão à frente do bando que é relativamente resistente a qualquer contágio das derrotas humilhantes sofridas pelos candidatos pelos quais fez campanha.

Mas, como Paul, seus poucos potenciais adversários à esquerda terão obtido alguma ajuda do relativo fracasso desses democratas moderados junto à base partidária. O resultado magro foi o grande problema nas últimas duas eleições intermediárias, e embora Obama ainda pudesse motivar os fiéis do partido em 2012, a mensagem cada vez mais cautelosa projetada pela maioria de seus candidatos desde então deixou de inspirar o mesmo tipo de esperança.

Líderes sindicais como Richard Trumka, presidente da federação sindical AFL-CIO, afirmam que a lição da derrota democrata nesta eleição é que os futuros líderes do partido precisam ser mais explícitos ao abordar a atual insatisfação econômica dos eleitores com alternativas mais ousadas. "Todo mundo deveria ter sido mais agressivo ao falar de economia", disse ele ao Observer quando perguntado se Obama deveria ter defendido seu histórico de modo mais agressivo. "É isso que os eleitores queriam, ouvir pessoas falarem sobre soluções para suas ansiedades, e não ouviram o suficiente", disse. "Não são as pessoas; foi a mensagem", disse Trumka, quando pressionado a atribuir culpas. "A mensagem que eles queriam ouvir era como você vai solucionar nossos problemas econômicos."

O potencial candidato para 2016, que provavelmente oferecerá tal radicalismo econômico, é a senadora por Massachusetts Elizabeth Warren, que construiu um público de estrela do rock com um tipo fogoso de críticas aos bancos e preocupação com a desigualdade social. Infelizmente, dentre todos os prováveis candidatos, ela se mostrou contrária a declarar seu interesse na disputa, evitando críticas diretas a Hillary, mais amiga do establishment, e até aparecendo ao seu lado durante eventos de campanha.

Outro democrata à esquerda do centro que poderá disputar em 2016, o atual governador de Maryland, Martin O’Malley, sofreu um sério revés nas intermediárias quando seu sucessor designado – o vice-governador Anthony Brown – foi derrotado no que já foi considerado um dos estados mais democratas, apesar da ajuda da equipe de campanha de O’Malley.

Não obstante, seja a senadora Warren, o ex-governador O’Malley ou o vice-presidente inclinado a acidentes Joe Biden, parece provável que alguém à esquerda de Clinton vai disputar a nomeação democrata. Um candidato genuinamente anti-establishment tem uma boa chance de aproveitar o clima predominante revelado mais claramente nestas eleições: desconfiança ou decepção pelos detentores do poder em Washington, em ambos os partidos.

Pesquisas de boca de urna sugerem que os que votaram contra os democratas na terça-feira 4 não estavam votando tanto nos republicanos quanto contra o partido governante, em protesto por seu fracasso. Embora possivelmente os republicanos do Congresso sejam ainda mais culpados que Obama pela disfunção e a paralisia em Washington, eles conseguiram projetar uma imagem rebelde que os futuros candidatos presidenciais provavelmente desejarão copiar.

"Os democratas levaram uma surra", disse Trumka. "Mais pessoas ouviram uma mensagem econômica dos republicanos do que dos democratas. Foi uma péssima mensagem... mas foi apresentada com força e clareza, e em tempos difíceis as pessoas reagiram porque estão machucadas. "Elas não têm uma alternativa econômica real para sua infelicidade e seu medo real do futuro", disse ele. "É muito simples: os políticos têm de estar junto dos trabalhadores, em vez de pedir que os trabalhadores estejam do lado dos políticos."

Críticos como Trumka apontam para o sucesso das iniciativas eleitorais realizadas em vários estados para aumentar o salário mínimo e o forte desempenho de democratas mais comunicativos, como o senador Ed Markey de Massachusetts, como um sinal de que os eleitores continuam famintos por novas ideias. Mas eles poderiam igualmente apontar para a crescente atração de figuras como Paul no Partido Republicano, que compartilha em grande parte o desprezo por Wall Street de Elizabeth Warren e uma rejeição semelhante às tentativas limitadas de reforma de Obama. Suas prescrições sobre como abordar a morte do sonho americano não poderiam ser mais diferentes, mas os diagnósticos proferidos por Warren, Paul e, até certo ponto, Cruz, têm muito em comum.

Assim, enquanto o sistema bipartidarista provavelmente não se romperá tão cedo, a batalha subjacente pela Casa Branca em 2016 poderá não ser realmente entre democratas e republicanos, mas entre continuidade e mudança.

De um lado, haverá candidatos como Hillary Clinton, Jeb Bush e Chris Christie, com um tipo conhecido de política centrista, que provavelmente vão comparar sua experiência e competência administrativa com os fracassos percebidos de Barack Obama para governar com eficácia. Do outro lado, poderá haver um grupo de vozes mais radicais à esquerda e à direita, como Paul, Cruz e Warren, que prefeririam ver tudo explodir e recomeçar. Enquanto o resto do mundo aguarda para ver quem surgirá no comando da superpotência restante, poderá reconhecer um conjunto muito familiar de dinâmica política em jogo.

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Rand Paul, em 3 de novembro, em Louisville, durante ato de campanha para Mitch McConnell
Rand Paul, senador republicano, 51 anos

Um ex-oftalmologista que se tornou senador pelo Kentucky, Paul se apresenta como um forasteiro em Washington. Mas ele também vem de uma dinastia própria e herdou grande parte de seu eleitorado de seu pai libertário, Ron Paul, um ex-congressista que se destacou como candidato presidencial independente e antes tentou a nomeação republicana por duas vezes. Rand é menos radical, mas é reprovado por muitos da corrente dominante republicana, que o consideram um isolacionista em política externa. Ele cortejou agressivamente o voto jovem falando de liberdades civis, com campanhas contra a vigilância do governo.


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Ex-governador da Flórida, Jeb Bush, filho de George H. e irmão mais novo de George W., pode ser o terceiro integrante da família na Casa Branca
Jeb Bush, republicano, 61 anos

Hoje é "mais que provável" que o ex-governador da Flórida se candidate em 2016, segundo seu filho, George P. Bush, que na semana passada ganhou o cargo de comissário da terra no Texas. O irmão de George W. Bush deixou o cargo de governador em 2006, e desde então os republicanos se inclinaram ainda mais para a direita. Sua esposa de origem mexicana, Columba, 40 anos, tem uma visão mais benigna da imigração que a maioria do Partido Republicano. Fluente em espanhol, Bush poderia se relacionar com partes do país que poucos outros republicanos podem alcançar, enquanto o nome da família garantirá um enorme orçamento de campanha.


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Elizabeth Warren durante entrevista coletiva
Elizabeth Warren, senadora democrata, 65 anos

A ex-professora de Direito em Harvard pode ter sido eleita para o Senado apenas dois anos atrás, mas gera uma excitação entre alguns democratas semelhante à de outro acadêmico de direito transformado em senador novato, Barack Obama. Infelizmente, ela tem insistido que não pretende disputar um cargo mais elevado, e caso o faça sua temível reputação por atacar grandes empresas como defensora de consumidores poderia limitar a potencial captação de fundos. No entanto, Warren é uma das poucas no Senado com alcance popular fora de Washington.

 

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Ted Cruz fala em ato de campanha de Greg Abbott, em Austin, no Texas, em 4 de novembro
Ted Cruz, senador republicano, 43 anos

Como seu estado natal, o Texas, Cruz é uma figura enorme, atraindo constante atenção em Washington por suas críticas ferozes a Obama e golpes de publicidade que incluem um discurso durante a noite inteira no Senado contra as reformas da Saúde do presidente, que também o colocaram contra o líder republicano no Senado, Mitch McConnnell. Mais perto dos conservadores sociais e da direita religiosa que ainda são uma grande força no partido, este filho de imigrante cubano também disputa com Rand Paul o apoio do movimento Tea Party, e será o primeiro nomeado latino do partido se tiver sucesso nas primárias de 2016.


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A ex-secretária de Estado Hillary Clinton durante evento de campanha para Mary Landrieu, em 1º de novembro
Hillary Clinton, ex-secretária de Estado, 67 anos

Clinton será apenas alguns meses mais moça que Ronald Reagan quando ele se tornou presidente, caso a ex-senadora democrata por Nova York tenha sucesso ao seguir os passos de seu marido. Mas é George Bush pai que ela realmente espera copiar, pois sua vitória em 1988 contra Michael Dukakis foi a última vez que os eleitores concederam ao mesmo partido um terceiro mandato consecutivo na presidência. Será estranho prometer mudanças ao país novamente, já que foi o slogan da campanha de Obama, mas a vitória republicana na semana passada poderá agir a seu favor: se Washington continuar "quebrada", poderá permitir que Clinton entre em cena e se declare o antídoto pelo qual os EUA estão gritando.

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Chris Christie, governador de New Jersey, após votar em 4 de novembro, no distrito de Mendham
Chris Christie, governador republicano, 52 anos

O governador de Nova Jersey havia sido considerado um claro favorito entre os republicanos, graças a sua atração em todas as fileiras do partido e sua reputação de falar com franqueza, cimentada depois do furacão Sandy. Mas um escândalo em que sua equipe se vingou de um político local fechando faixas de tráfego em uma ponte movimentada para Nova York confirmou a suspeita entre muitos de que ele abriga tendências prepotentes. Se conseguir afastar a memória disso tão rápido quanto está emagrecendo depois da cirurgia, esse grande candidato poderá mais uma vez ser o favorito.

 

 

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