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Declaração de ódio

por Eduardo Graça — publicado 30/04/2013 12h00, última modificação 30/04/2013 12h35
Assim o economista Mark Weisbrot classifica a postura dos EUA quanto ao resultado das eleições na Venezuela
Venezuela

A oposição questiona a vitória eleitoral de Nicolás Maduro. Foto: Leo Ramírez / AFP

De Nova York

Codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington, e presidente da ONG Just Foreign Policy, o economista Mark Weisbrot rema contra a corrente dentro e fora de seu país. Para o economista, profundo conhecedor do continente, são claros os sinais da volta de uma política intervencionista dos Estados Unidos na América Latina, relevada, entre outros movimentos, pelo apoio à reação contra o resultado das urnas de Henrique Capriles, candidato da direita derrotado nas eleições venezuelanas. E reclama: a União das Nações Sul-Americanas deveria ter sido mais firme na denúncia da “declaração de ódio” do governo Barack Obama a Nicolás Maduro, chavista eleito presidente em 14 de abril.

Weisbrot é a estrela do seminário “A Venezuela pós-Chávez” promovido pelo Centro Celso Furtado, com apoio de CartaCapital. O evento acontece na terça-feira 30 no auditório do BNDES no Rio de Janeiro (informações em www.cartacapital.com.br). A seguir, os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: Henrique Capriles declarou que, se a recontagem dos votos não alterar o resultado final da eleição na Venezuela, ele lutará por um referendo popular contra o presidente Nicolás Maduro. Como o senhor analisa a movimentação dos grupos antichavistas?

Mark Weisbrot: O representante da oposição no Conselho Eleitoral Nacional da Venezuela, Vicente Diaz, declarou não ter dúvida sobre o resultado da eleição. Houve uma recontagem de 54% dos votos e representantes da oposição acompanharam todo o trabalho, sem apontar discrepâncias entre o resultado oficial e a nova contagem. A probabilidade de que o restante 46% mude o resultado das eleições é de menos de 1 em 25 mil trilhões. Ou seja, a demanda por uma recontagem de 100% dos votos é apenas política de espetáculo, uma tentativa de se retirar a legitimidade de Maduro. Tentativa essa, aliás, apoiada por Washington.

CC: Maduro declarou não dar importância ao reconhecimento de seu mandato pela oposição. Não é hora de os chavistas buscarem diálogo com uma oposição substancialmente mais forte do que quando Chávez era vivo?

MW: Cerca de 600 mil eleitores mudaram de lado, do chavismo para a oposição, desde a eleição de outubro, vencida por Hugo Chávez. Esses são, em sua maioria, votos não alinhados que Maduro terá de recuperar por meio da melhora de suas condições de vida, particularmente incrementando a economia venezuelana.

CC: Quais medidas econômicas Maduro deveria implementar?

MW: Ele tentará estabilizar o câmbio. Essa é a chave para reduzir a inflação e acabar com o racionamento de bens de consumo básicos. O governo terá de deixar claro que manterá o crescimento econômico e o aumento de postos de emprego ao mesmo tempo que investirá mais em infraestrutura. Apesar da grande desvalorização da moeda em janeiro daquele ano, desde meados de 2010 a economia venezuelana cresce, com um aumento de 5,6% do PIB no ano passado. E até o último quadriênio de 2012 a inflação vinha em queda, algo extremamente significativo. Ou seja, é possível reduzir a inflação e manter o nível de crescimento da economia na Venezuela.

CC: Foi estrategicamente correto o reconhecimento imediato da vitória de Maduro pelos países da Unasul?

MW: Sem sombra de dúvida. Teria sido interessante se eles tivessem se pronunciado oficialmente, em uníssono, de forma crítica, em relação à recusa da Casa Branca, sem precedentes na relação entre os EUA e a Venezuela, de reconhecer o resultado das eleições. Foi uma decisão política extremamente hostil. E, como os EUA têm uma influência enorme na mídia ocidental, essa posição de Washington contribuiu para a tentativa de se desafiar a legitimidade do governo eleito, alimentando a mídia e a opinião pública mundial. Essa foi uma movimentação política de consequências muito sérias, que contribuiu para o conflito e a violência. Se a América do Sul, a Unasul, condenasse esse tipo de esforço de desestabilização, talvez Washington pensasse duas vezes antes de voltar a agir dessa maneira na região.

CC: A Casa Branca classificou a recontagem total dos votos como “um passo necessário para a saúde da democracia venezuelana”. O senhor escreveu que, “ao contrário dos EUA, onde em uma eleição disputada não se sabe de fato quem venceu, o sistema eleitoral venezuelano é extremamente seguro, com todos os votos registrados duas vezes, em urnas eletrônicas e em papel...”

MW: O que vimos foi uma “declaração de ódio” da administração Obama. No cálculo da Casa Branca, ainda que esse fosse visto como um ato hostil e agressivo, o mais importante era demonstrar o apoio à oposição venezuelana. É bem provável que Capriles tivesse aceitado o resultado se não fosse pelas declarações oficiais de Washington. Elas também foram uma resposta, e rápida, aos esforços de Maduro de iniciar um diálogo com o governo Obama. A resposta do governo democrata foi essencialmente a seguinte: “Nós odiamos vocês e faremos tudo o que pudermos para atrapalhar sua vida e retirar a legitimidade de seu governo”.

CC: A mídia sul-americana, em geral, apresenta o voto chavista como resultado dos programas assistencialistas e clientelistas criados pelos socialistas. Foram essas as razões para a maioria dos venezuelanos apostarem em mais sete anos de bolivarianismo?

MW: As missiones, que oferecem acesso universal à saúde, à educação e à alimentação, foram um fator importante. Mas não se pode esquecer das mudanças econômicas, extremamente positivas, da era chavista, que não podem ser atribuídas apenas a elas. O desemprego caiu de 14,5% para 8% no ano passado. Desde que o governo assumiu o controle da indústria petrolífera, a pobreza diminuiu pela metade e a miséria foi reduzida em 70%. A maior parte dessas mudanças foi resultado do crescimento do PIB e o grosso do aumento dos postos de emprego se deu no setor privado.

CC: O senhor, que acompanhou a eleição de perto, constatou alguma supressão, pelos chavistas, da liberdade de expressão da oposição?

MW: Houve abusos dos dois lados. Obviamente, não há como esmiuçar o financiamento das duas campanhas, exatamente como no Brasil e nos EUA. As eleições venezuelanas não foram, porém, menos ou mais injustas do que qualquer outra disputa na América do Sul. A televisão pública venezuelana tem apenas 6% de audiência e a oposição tem uma vantagem imensa tanto na mídia impressa quanto no rádio. A oposição não sofre de desvantagem midiática, possivelmente acontece o contrário. Capriles fez uma campanha rica, com muita propaganda, e de qualidade, levando sua mensagem para todo o país, tanto ou mais do que Maduro. Ele fez duras críticas, maldosas, a Maduro, e todos as escutaram. Essa é uma das razões pelas quais as eleições foram tão apertadas. Não há evidência real de que a oposição teve qualquer desvantagem nas eleições venezuelanas, se comparadas com disputas eleitorais em qualquer outro país.