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Internacional

Entrevista - Jacob Funk Kirkegaard

"Decisão final sobre a Grécia será dos europeus e não do FMI"

por Deutsche Welle publicado 10/07/2015 09h18
Há consenso quanto à necessidade de uma reestruturação da dívida grega, mas o FMI quer o corte imediato e europeus desejam primeiro ver as reformas
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Por Gero Schliess

Tanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) como os europeus já entenderam que a Grécia vai precisar de um corte da dívida, afirmou o economista Jacob Funk Kirkegaard, do Instituto Peterson de Economia Internacional, em Washington, em entrevista à DW.

"Não se trata mais de se isso deve acontecer, mas de quando e como", afirmou. Segundo ele, o grande ponto de discórdia é que boa parte do FMI defende o corte imediato, enquanto os europeus querem primeiro ver as reformas estruturais implementadas pelos gregos. "No final, quem vai decidir são os europeus, e não o FMI, porque se trata de empréstimos europeus", assegurou.

O economista disse ainda que o novo relatório do FMI apoiando a exigência grega por um corte da dívida pode ajudar o premiê grego, Alexis Tsipras, junto ao seu eleitorado, mas não tem impacto onde realmente importa: nos governos europeus.

DW: O FMI apoia a posição grega de que Atenas precisa urgentemente de um corte da dívida. Mas até agora os chefes de governo europeus não demonstraram nenhuma disposição a isso. Há discordância entre os credores sobre uma questão crucial?

Jacob Kirkegaard: Eu não acho que essa discordância seja realmente substancial. Quando se conversa a portas fechadas com representantes da zona do euro, todos afirmam que, para eles, está claro que a maior parte do dinheiro emprestado à Grécia está perdida. As dívidas têm de ser reestruturadas, portanto. Não se trata mais de se isso deve acontecer, mas de quando e como.

DW: O que isso significa exatamente?

JK: A verdadeira divisão entre o FMI e a zona do euro está no fato de que uma grande parte do FMI defende um corte imediato da dívida para que a economia grega volte a ganhar impulso. Outro grupo no FMI está mais próximo da posição da zona do euro e pretende conceder um alívio da dívida somente quando a Grécia tiver feito o seu dever de casa e cumprido as promessas de reforma. No final, quem vai decidir são os europeus, e não o FMI, porque se trata de empréstimos europeus. E espero que os europeus mantenham a sua posição: redução da dívida somente em troca de reformas.

DW: Mas o novo relatório do FMI não reforçaria a posição grega e enfraqueceria o ponto de vista do governo alemão?

JK: O relatório ajuda Tsipras especialmente em casa, porque ele pode explicar aos eleitores gregos o motivo pelo qual ele aguentou tanto tempo, por que os gregos tiveram de aceitar o fechamento dos bancos e outras medidas duras. Mas o relatório vai ter pouco impacto onde realmente importa: nos outros governos europeus. Eles têm o seu próprio eleitorado em seus países. No final, o documento do FMI não vai auxiliar os gregos.

DW: A divergência entre as instituições não dificulta ainda mais as negociações?

JK: Elas podem ficar um pouco mais complicadas caso os gregos consigam jogar as diferentes posições dentro da troica umas contra as outras. Mas aí devemos também indagar: quem lucra com um atraso? Ninguém! E quem vai sair prejudicado com um atraso? A Grécia. Os bancos gregos permanecerão fechados até que se chegue a um acordo.

Alexis Tsipras
Tsipras, o premiê grego, durante reunião no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, na França, na quarta-feira 8

DW: O relatório do FMI não espelha, no geral, a posição dos EUA?

JK: Com a sua exigência por uma redução da dívida, ele se aproxima de conhecidas posições americanas, embora não exista uma posição bem definida do governo Obama.

DW: Em editorial, o jornal New York Times criticou que os chefes de governo europeus teriam piorado a crise com sua má gestão. Isso reflete a posição do governo e dos mercados financeiros americanos?

JK: Há uma opinião generalizada aqui [nos EUA] de que a crise do euro deve finalmente passar. Nesse ponto de vista, a Europa está focada num pequeno país com apenas 2% do Produto Interno Bruto europeu, em vez de cuidar melhor do autoproclamado Estado Islâmico, da Ucrânia e de outras coisas. Existe um certo estranhamento por os europeus não terem conseguido superar a crise.

Isso não significa que os EUA concordem com a exigência grega de um corte da dívida. Considere o seguinte: na prática, a política americana para a Grécia é executada pelo FMI. Foi o FMI quem, em grande parte, codesenvolveu e implementou o programa de reformas grego. Se o presidente Obama se pronuncia repetidamente de forma crítica sobre a política de austeridade, é porque ele está mirando a política interna americana.

Deutsche Welle