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Internacional

Entrevista

'Cultura cristã é superior à islâmica'

por Gabriel Bonis publicado 18/10/2011 13h48, última modificação 19/10/2011 08h45
Em entrevista a CartaCapital, escritora Ayaan Hirsi Ali, ex-muçulmana, defende a conversão de islâmicos ao cristianismo para conter extremistas religiosos

Em 1992, Ayaan Hirsi Ali foi para a Holanda fugindo de um casamento arranjado pelo pai. No pequeno país europeu, onde viveu como refugiada e depois cidadã, a somali viu seus valores islâmicos entrarem em colapso. Passou de militante da Irmandade Muçulmana à agnóstica, parlamentar e crítica ao Islã.

Na Holanda, despertou a ira dos muçulmanos ao produzir o curta Submissão (2004), no qual uma muçulmana aparece vestida com uma burca parcialmente transparente, enquanto reza e critica o Islã. O vídeo resultou no assassinato de Theo van Gogh, diretor holandês do filme, por um extremista religioso.

Mutilada genitalmente na infância, a autora do best seller de memórias Infiel virou alvo de extremistas religiosos. Atualmente vive sob escolta nos EUA, de onde conversou com o site de CartaCapital, por telefone, sobre seu novo livro, Nômade (Companhia das Letras, 392 págs., R$ 46,00).

O trabalho traz uma postura polêmica da autora: o Ocidente precisa enxergar o perigo do Islã. Ali sugere também que o cristianismo conquiste os muçulmanos para conter os extremistas.

Na íntegra da entrevista abaixo, a somali fala, entre outros tópicos, sobre os valores que enxerga no cristianismo, a proibição do uso de trajes cobrindo o rosto em diversos países europeus e do sexo para as muçulmanas no Ocidente.

CartaCapital – No livro Nômade, a sra. afirma que o Ocidente precisa reconhecer a ameaça do Islã e sugere uma aproximação da Igreja Católica para converter imigrantes muçulmanos. Sua justifica é de que o cristianismo tem melhores valores que o Islã. Quais seriam esses valores?
Ayaan Hirsi Ali –
Como analistas, podemos olhar para diversas religiões e culturas e dizer qual é melhor. Para os politicamente corretos, analisando a perspectiva do multiculturalismo, não há como compará-las, não se deve fazer isso. Contudo, creio que é um desperdício de oportunidade não fazê-lo devido aos desafios do Islã. Olho a cultura islâmica e a cristã e vejo que a cristã passou por um longo período de esclarecimento. As pessoas aceitaram a separação entre a religião, Estado e assuntos de sexualidade, embora isso não se aplique a todos os cristãos. Muitos deles são incapazes de fazer essa separação, mas em geral na cultura cristã ocidental essa separação foi reconhecida e aplicada. Neste sentido, creio que essa nova cultura cristã, que passou por uma reforma e esclarecimento, é superior à cultura islâmica, isenta desse processo. No Ocidente, a Igreja não é a legisladora, a lei é feita de forma independente no Parlamento e no Congresso. As pessoas que as produzem são eleitas por outras pessoas, o presidente dos EUA não é eleito por Deus. Isso é um grande progresso em termos de humanidade se compararmos o cristianismo ao islamismo, um progresso que os muçulmanos ainda não enfrentaram por completo.

CartaCapital – Mas esses itens apontados não estão relacionados apenas com o cristianismo, há aí valores da Revolução Francesa, por exemplo...
AHA –
Na história do cristianismo quando a Igreja legislava, as pessoas se revoltaram e quiseram melhorar esse aspecto. Disseram que Deus não poderia legislar, porque quem fala por Deus? Se olharmos a propaganda islâmica e sua agenda, o que estão dizendo é que as pessoas têm que viver pela lei da Sharia, a lei divina. É claro que há lei secular e questões de liberdade e governos que não têm nada a ver com religião. Porém, é possível ter uma discussão e uma opinião diferente sobre os seculistas e problemas como governo e sexualidade, mas tradicionalmente o principal problema tem sido entre pessoas que querem a religião no centro da moralidade e do governo e as outras que dizem 'não, a religião deveria ser pessoal'.

CartaCapital – A sra. sugere no livro uma forma mais “ocidentalizada” de Islã. O que seria e como criá-la?
AHA –
Sugiro que o Islã se reconcilie com a modernidade. Os líderes islâmicos têm que reconhecer a liberdade dos membros das comunidades. Se eles quiserem podem aprender com a história do cristianismo, porque as pessoas foram reconhecidas não como inferiores à comunidade, mas o indivíduo é superior à comunidade. O indivíduo possui direitos e a liberdade para formar sua livre associação, sua própria comunidade. Nasci muçulmana e decidi não ser muçulmana, deveria ser decaptada por isso? É o que pensam os radicais muçulmanos. Você não pode deixar a fé? Isso é errado.

CartaCapital – Você vive agora nos EUA, como a sociedade americana enxerga os muçulmanos, especialmente após os dez anos dos atentados de 11 de setembro?
AHA –
Creio que nos últimos dez anos, o 11 de Setembro mudou mais o Islã e os imigrantes muçulmanos neste país do que os EUA. Porque agora, pela primeira vez, os muçulmanos estão vivendo em um ambiente onde as pessoas perguntam sobre a fé, livros sobre o Islã são publicados e debates livres e discussões sobre o assunto são possíveis. Um fato profundo e extremamente raro na história do Islã.

CartaCapital – Há mais preconceito contra os muçulmanos nos EUA?
AHA –
Não há mais preconceito e sim atenção. Antes de 11 de Setembro de 2001, havia pouca ou nenhuma atenção aos muçulmanos. Após os atentados, isso mudou e essa atenção é em parte positiva e negativa.

CartaCapital – Em julho, Anders Behring Breivik realizou dois atentados na Noruega, matando centenas de pessoas. Ele escreveu um manifesto justificando o seu ato como uma forma de combater a invasão do Islã na Europa. Não era cristão, mas dizia ser defensor de um cristianismo capaz de converter muçulmanos. Como você analisa as ideias dele?
AHA –
Há muitos críticos do Islã e muitas pessoas que reconhecem o problema na Europa e culpam os muçulmanos por um lado e os não muçulmanos por outro. A grande diferença é que ele vê a violência como solução para o problema. Isso é algo que não proponho, assim como outros críticos do Islã. A resposta não é atirar em pessoas ou deportá-las, mas sim esclarecê-las e isso é um exercício de envolvimento na troca de ideias em uma sociedade livre. No livro, proponho que o cristianismo talvez seja mais atraente para os muçulmanos vivendo na Europa. Qualquer muçulmano pode concordar ou não, mas não proponho o uso da força. O uso da força da forma como ele propôs seria o fim da sociedade.

CartaCapital – Você acredita que as suas sugestões, caso colocadas em prática, poderiam aumentar a tensão entre muçulmanos e o Ocidente?
AHA –
Em Nômade reconheço o que todos já haviam feito desde 11 de Setembro de 2001: há uma corrente muito radical no Islã, violenta e querendo uma guerra com o Ocidente. Isso não se aplica a todos os muçulmanos, ou a maioria deles. É uma minoria. Proponho que, para derrotar essa minoria, a maioria examine as idéias dos radicais e se essa sugestão significa adotar valores ocidentais, então seria ainda melhor. A maioria dos muçulmanos diz não gostar do pensamento radical, mas também não quer ser vista como ocidentalizada, uma traição aos valores islâmicos. Tento dizer que há outras opções disponíveis sem rótulos ocidentais. Muitos muçulmanos com quem encontro e converso, por exemplo, são atraídos pela ideia de libertar mulheres, mas crêem que isso seria trair o Alcorão e o profeta Maomé. Digo que é correto trair os seus ensinamentos por um bem maior: a liberdade das mulheres e sua igualdade perante a lei.

CartaCapital – Quando você diz libertar as mulheres, como explica aquelas que defendem o uso de trajes cobrindo os rostos em países como Bélgica, Itália e França, que já adotaram medidas para proibir o seu uso?
AHA –
Quero destacar que na França, Suécia e Suíça elas vivem em uma cultura na qual podem identificar quais são os seus direitos e lutar por eles de acordo com a lei. Para a pessoa que é religiosa, tem que fazer um balanço. Tomar uma decisão, porque cobrir o rosto nesses países é contra a lei.

CartaCapital – Na sua opinião, uma lei que força pessoas de outras culturas a abandonarem seus valores é correta?
AHA –
Os legisladores da França apresentaram diversas razões sérias para essa lei, que vem de um processo democrático pelo qual foi possível convencer a maioria dos franceses. Não sou uma legisladora francesa e quando estava na Holanda não votei pelo banimento do véu, mas nesse contexto é o que a maioria deseja. As mulheres muçulmanas têm que viver de acordo com essa lei. Além disso, a legislação vale para todas as demais pessoas religiosas. Houve um processo democrático e, neste caso, os valores religiosos pessoais devem passar para o segundo lugar.

CartaCapital – A sra. considera isso uma violação dos Direitos Humanos?
AHA –
Não é uma questão de Direitos Humanos querer cobrir o seu rosto. Creio que os Direitos Humanos têm sido banalizados de tal forma que agora discutimos sobre assuntos como esse. Não há nenhum dano corporal ao se dizer a uma mulher que ela não pode usar o véu.

CartaCapital – Em Nômade, a sra. afirma que o multiculturalismo não funcionou e criou guetos. Porém, não seria possível a coexistência de culturas diferentes?
AHA –
Quando pessoas de diferentes culturas se reúnem há sempre uma oportunidade de viver em harmonia, mas culturas também colidem. Não é especialmente a islâmica ou a ocidental. Valores diferentes colidem e isso cria uma cultura dominante, que neste momento é a ocidental. Há conflitos desses valores diariamente, com vitórias para os dois lados. É assim que devemos vê-los e não exagerar as diferenças culturais. Surge um problema quando determinado grupo diz que a única forma de acabar com essa situação é pela violência. É o que os radicais islâmicos estão propondo e a sociedade precisa ser cuidadosa para não ser pega entre esses extremistas.

CartaCapital – No Ocidente, as mulheres realizaram vários movimentos para conquistar mais direitos. A sra. vê isso acontecendo em países islâmicos?
AHA –
Todos os dias vejo pequenas boas notícias. A última é que o rei da Arábia Saudita permitiu o voto às mulheres no nível municipal. No Ocidente isso é uma piada, porque as mulheres podem votar há décadas. Na Arábia Saudita, é outra piada porque ninguém pode votar, é uma monarquia. Mas o fato de reconhecer as mulheres, mesmo que simbolicamente, é importante.

CartaCapital – Como as muçulmanas no Ocidente lidam com o sexo?
AHA –
Há três categorias de mulheres: aquelas nascidas em famílias muçulmanas nas quais os pais e irmãos as dão liberdade. Elas podem escolher quem amar ou casar, têm o direito de ir e vir, trabalhar ou não. Essa é uma porcentagem muito pequena, mas existe. Há uma segunda categoria de mulheres que vivem uma vida hipócrita. Desfrutam a liberdade ocidental quando saem de casa e ao retornar comportam-se conforme o Islã. Um exemplo é uma mulher que sai de casa com o hijab e quando chega à esquina, o tira. Isso é interessante, pois algumas famílias sabem e outras não, sendo impossível manter essa farsa por muito tempo. A terceira categoria, que acredito ser a maioria, inclui as mulheres obrigadas a obedecer aos desejos de suas famílias. Possuem irmãos como guardiões masculinos e essas famílias, mesmo sabendo que vivem no Ocidente livre, são excluídos da liberdade.

CartaCapital – A sra. se considera uma exceção?
AHA –
Sou uma exceção no sentido de que fui até o final. Não pertenço à primeira categoria, porque meus pais não concordam com o meu estilo de vida. No momento não estou na segunda, pois me recuso a viver na hipocrisia, mas já o fiz no passado. Também não me enquadro na terceira, uma vez que obviamente me revoltei contra isso. Há ainda uma categoria de mulheres muito pequena, as que decidiram enfrentar os problemas. Precisamos garantir que elas tenham ajuda.

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