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Crise na Ucrânia ameaça relação Berlim-Moscou

por Deutsche Welle publicado 11/12/2013 06h43, última modificação 11/12/2013 07h44
Enquanto o Kremlin critica ministro alemão por se encontrar com manifestantes, Merkel acena com possível apoio à oposição
Genya Savilov / AFP
Guido Westerwelle e Vitaly Klitschko

Imagem de 4 de dezembro mostra o ministro do Exterior da Alemanha, Guido Westerwelle, entre os líderes da oposição ucraniana, Vitaly Klitschko (à esq.) e Arseniy Yatsenyk, durante manifestação em Kiev

Há nove anos, o então chanceler federal da Alemanha, Gerhard Schröder, telefonou para o presidente da Rússia, Vladimir Putin. O assunto era a Ucrânia. Na ocasião, centenas de milhares tomavam as ruas de Kiev em protestos contra fraudes nas eleições presidenciais. Era a chamada Revolução Laranja. "Deixe-nos ajudar para que a situação não saia do controle", disse Schröder. "Precisamos de uma Ucrânia democrática e pacífica."

Em 2004, a Rússia estava ao lado de Viktor Yanukovytch, o candidato acusado de estar por trás das fraudes eleitorais. Putin chegou a parabenizá-lo pela vitória. No fim, Moscou deixou de interferir – os protestos continuaram pacificamente, e a eleição foi remarcada, consagrando a vitória da oposição. Só em 2010 Yanukovytch pôde se eleger presidente.

Até o momento, a atual chanceler federal alemã, Angela Merkel, ainda não telefonou a Putin para conversar sobre a crise ucraniana. Ela, no entanto, teria diversas razões para fazê-lo. A situação na Ucrânia é tão tensa quanto a de 2004. Centenas de milhares vão há semanas às ruas de Kiev, em protesto em prol de uma aproximação com a União Europeia.

A crise foi deflagrada, entre outros motivos, pela pressão da Rússia sobre a Ucrânia – Moscou ameaçou Kiev com restrições comerciais caso assinasse o tratado de associação à UE. O governo Yanukovytch acabou congelando o acordo e gerou o estopim para o início dos protestos.

Chance de ajudar

Alguns na Ucrânia desejam a participação da Alemanha em dois aspectos: Berlim poderia contribuir com o diálogo entre o presidente e a oposição, no intuito de evitar derramamento de sangue; ou atuar junto aos russos para que Moscou não exerça pressão sobre Kiev na questão da aproximação com a UE.

Jens Paulus, chefe da equipe para a Europa do Instituto Konrad Adenauer – ligado à União Democrata Cristã (CDU), o partido de Merkel – não acredita nessa iniciativa. "Acho esse papel intermediário, que sempre é esperado de nós, bastante difícil", opina. "A Alemanha não pode e não deve exercer essa função."

Entretanto, ele admite que a Alemanha conhece a Rússia "um pouco melhor" do que os outros países europeus. Berlim poderia, nas conversações sobre uma associação da Ucrânia à UE, contribuir para um melhor entendimento dos "interesses russos na região".

Sabine Fischer, chefe da divisão de pesquisa sobre a CEI (Comunidade dos Estados Independentes) do instituto alemão SWP, também têm suas dúvidas. "Acho que, em todo caso, a Alemanha deve atuar juntamente com seus parceiros europeus para que não ocorram choques violentos entre os manifestantes e as forças de segurança", diz a especialista. "Essa seria basicamente uma atividade mediadora."

Na última semana, o ministro alemão do Exterior, Guido Westerwelle, viajou a Kiev para participar de um encontro da Organização para a Segurança e Cooperação (OSCE). O ministro aproveitou a ocasião para visitar os manifestantes na Praça da Independência. Ele se encontrou com líderes da oposição, mas também com membros do governo.

Indignação russa

Sua passagem por Kiev acabou gerando indignação em Moscou. O primeiro-ministro russo, Dimitri Medvedev, e seu ministro do Exterior, Sergei Lavrov, acusaram Westerwelle de interferir nos assuntos internos da Ucrânia.

O governo alemão rejeitou as acusações. Mas a intenções de Berlim parecem ir mais além. Merkel estaria planejando se encontrar com o líder da oposição, Vitali Klitschko, em meados de dezembro, durante conferência da UE em Bruxelas, para dar-lhe um apoio moral. Os russos certamente não iriam apreciar muito essa atitude.

Parte da imprensa alemã, como o tradicional jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), vê a Ucrânia como um "peso nas relações Alemanha-Rússia". Ao mesmo tempo, alguns analistas russos não concordam com essa observação.

Para Vladislav Belov, diretor do Centro de Estudos Alemães da Academia Russa de Ciências, Westerwelle estava em Kiev na condição de um ministro que está perto de deixar o cargo, e o significado de sua visita não deve ser superestimado.

Belov ressalta que Merkel já afirmou que Alemanha e Rússia não devem conversar em tons extremos sobre uma futura cooperação, ou seja, o debate não deve se basear nas opções "ou a Ucrânia se une à Europa ou à Rússia".

A chanceler federal também já afirmou que vai tratar do assunto com Putin em seu próximo encontro, no início de 2014. Vladislav Belov também não acredita que as relações bilaterais entre os dois países deverão ser afetadas pela crise em Kiev.

Roman Goncharenko (rc)

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