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Crise humanitária

Crianças são abandonadas durante travessia

por Gabriel Bonis publicado 22/08/2011 14h41, última modificação 23/08/2011 15h26
Fugindo da seca, somalis cruzam a fronteira com o Quênia e lotam o campo de refugiados. 'As tendas vão aparecendo e já não é mais possível reconhecer os endereços', conta médica carioca Luana Lima a Gabriel Bonis. Fotos: Michael Goldfarb/MSF
Crianças são abandonadas durante travessia

Em direção ao Quênia, somalis lotam campo de refugiados. 'As tendas aparecem e já não reconhecemos os endereços', conta médica carioca Luana Lima. Fotos: Michael Goldfarb/MSF

No campo de refugiados de Dadaab, no Quênia, a médica carioca Luana Lima passa a maior parte de seu tempo dentro do hospital e nos seis postos de saúde do local. A cada vez que sai das instalações - uma vez por semana, como ela diz - encontra uma paisagem diferente.  “É tão estranho, as tendas vão aparecendo e já não é mais possível reconhecer os blocos, os endereços”, explica em entrevista ao site de CartaCapital, por telefone, diretamente do país africano.  “Hoje não há mais como localizar um paciente depois da alta, porque nem mesmo ele sabe onde está”.

A situação retratada pela pediatra é o reflexo de conflitos internos na Somália e, principalmente, da mais intensa seca enfrentada pelo país nas últimas décadas. Famintos e desnutridos, milhares de somalis cruzam a fronteira rumo ao Quênia, em busca de alimentos e tratamento médico, inflando a população do campo de refugiados de Dadaab. O local já acumula 440 mil pessoas e deve atingir 550 mil até o fim do ano.

“Eles caminham por 20 dias no meio do deserto, sem comida e água. Quando chegam estão desnutridos ”, diz a médica, que trabalha na unidade de tratamento de desnutrição infantil. “Todas as patologias que conhecemos em crianças saudáveis, aqui acarretam uma resposta muito pior”, completa, dizendo que, naquele momento, sua seção estava com 135 pacientes contra os 40 registrados em 2010, antes da crise.

“Quando cheguei e vi as crianças nessa situação, comecei a trabalhar muito para conseguir mudar alguma coisa. Não tive a sensação de pena, quis logo melhorar as coisas”, diz a pediatra. “No início, o índice de mortalidade era 7% e agora está em 1,4%”.

Segundo a coordenadora médica e atualmente chefe da missão da organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Dadaab, a espanhola Natália Cobo, os índices de desnutrição são elevados nos três campos. “A cada dez crianças, quatro apresentam sintomas do problema, sendo que uma precisa ser admitida no hospital para ter cuidados intensivos por uma semana”, diz, de Dadaab, também por telefone.

Cobo explica também que as condições extremas estão fazendo com que os protocolos nutricionais de atendimento da organização, antes focados em crianças de até cinco anos, as mais vulneráveis, sejam alterados. “Estamos vendo que as crianças de cinco a dez anos chegam mais mal nutridas. A cada dez, cinco se encaixam nesta condição”.

Com a voz embargada, a coordenadora conta que os médicos estão testemunhando casos de abandono de crianças pelos pais no trajeto da Somália ao Quênia, pois não conseguem alimentá-las. "Isso é algo muito difícil de ouvir”.

Mesmo com as fronteiras oficialmente fechadas, o campo de Dadaab continua recebendo um número cada vez maior de refugiados somalis. Cobo afirma que na segunda semana de agosto, quase seis mil pessoas chegaram à região, o equivalente ao total de indivíduos recebidos em todo o mês de janeiro.

Nas próximas duas semanas, o MSF deve instalar mais três centros de tratamento no local para atender a demanda. “Isso significa mais pessoas, medicamentos e equipamentos. Hoje a nossa equipe médica internacional tem cerca de 60 integrantes e esperamos reforços”.

Quando chegam no campo, as pessoas são cadastradas em postos de registro, o que permite o recebimento de alimentos frequentemente. Devido ao fluxo elevado, a triagem pode demorar dias, mas todos recebem um kit com mantimentos para três dias ao chegarem no local.

No momento, os três campos de refugiados, que poderiam receber 30 mil pessoas cada no início do ano, estão lotados. “Cada um está abrigando cerca de 130 mil indivíduos e esperamos 550 mil até dezembro. As pessoas estão acampando do lado de fora”, afirma Cobo. “Estamos pressionando o governo do Quênia e Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) para abrir um novo local”.

Porém, as instalações precisam possuir padrões mínimos de atendimento aos refugiados, como moradias, alimentação e acesso a tratamento de saúde, direitos garantidos por tratados internacionais. Contudo, os novos assentamentos de Dadaab ainda não têm água e latrina. “Nos três campos, as pessoas recebem menos de 20 litros de água por dia e há locais onde recebem apenas oito litros”, conta Cobo.

Acompanhe abaixo mais imagens do campo de refugiados em Dadaab:

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