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The Observer

Copa do Mundo do Catar: 400 nepaleses mortos em obras desde que o país ganhou a proposta

por The Observer — publicado 19/02/2014 11h14, última modificação 24/02/2014 11h15
Crescem os pedidos para que a Fifa tome uma ação decisiva; grupo humanitário vai lançar relatório sobre o crescente número de vítimas

Por Jamie Doward

Mais de 400 trabalhadores migrantes do Nepal morreram em obras de construção no Catar, país do Golfo que se prepara para sediar a Copa do Mundo de 2022, conforme um relatório. A triste estatística vem do Comitê de Coordenação Nepalês Pravasi, uma respeitada organização de direitos humanos que compila listas de mortos usando fontes oficiais de Doha. Ela vai aumentar a pressão sobre as autoridades do Catar – e o órgão mundial do futebol, a Fifa – para conter o crescente número de mortes que, segundo alguns, poderá chegar a 4 mil quando ocorrer a Copa de 2022.

Ele também levanta a questão de quantos trabalhadores migrantes ao todo morreram em obras desde que o Catar ganhou a proposta em 2010. Os trabalhadores nepaleses compreendem 20% da força de trabalho migrante do Catar, e muitos outros são recrutados em países como Índia, Bangladesh, Paquistão e Sri Lanka.

Com o enfoque nas mortes de nepaleses, a Fifa e o Catar enfrentam uma crise de publicidade que ameaça projetar uma longa sombra sobre o evento. Na semana passada, diante de autoridades da União Europeia, Theo Zwanziger, um importante executivo da Fifa que criticou publicamente a decisão de organizar o campeonato no Catar, prometeu que sua organização estará realizando "visitas no local" para garantir que os direitos dos trabalhadores sejam respeitados.

Mas é improvável que a promessa tranquilize as organizações de direitos humanos e os grupos trabalhistas que manifestaram repetidas preocupações sobre o sistema de emprego "kafala" do Catar, pelo qual os trabalhadores migrantes estão amarrados a seus empregadores "patrocinadores".

As autoridades da Copa do Mundo no Catar emitiram recentemente diretrizes detalhadas com as quais pretendem abordar as preocupações sobre as leis de emprego. O relatório de 50 páginas, Padrões de Bem-Estar dos Trabalhadores, oferece uma explicação das diretrizes que os organizadores esperam que as empreiteiras e subempreiteiras observem. Mas isso não impediu o aumento do número de mortes, nem a continuação das críticas internacionais.

O ministro do desenvolvimento internacional na sombra, do Partido Trabalhista britânico, Jim Murphy, que deverá visitar o Catar em breve, levantou a questão novamente esta semana. Escrevendo no Guardian, Murphy disse: "As pessoas não precisam morrer para nos dar esta Copa do Mundo ou qualquer outro evento esportivo; nenhum trabalhador morreu construindo os locais das Olimpíadas de Londres em 2012. Segundo o Congresso Internacional dos Sindicatos, a Copa do Mundo de 2022 põe em risco 4 mil vidas".

As constantes críticas serão embaraçosas para o Catar, que se prepara para uma visita do príncipe Charles da Grã-Bretanha.

O total simbólico de 400 mortes, que o "Observer" entende que será confirmado nos próximos dias, desperta questões não apenas sobre as condições de trabalho nas obras, mas também sobre o tratamento dos trabalhadores da construção.

O "Observer" soube do terrível caso de Noka Bir Moqtan, um jovem de 23 anos que teria morrido de "parada cardíaca súbita" em outubro de 2013, embora fotos de seu cadáver mostrem que ele sofreu um afundamento do peito, aparentemente consistente com maus-tratos.

A família de Moqtan vem de uma aldeia pobre no Nepal. Seu pai idoso pediu emprestadas 175 mil rupias (cerca de 1 mil libras esterlinas) para pagar sua passagem e as taxas de agência para o Catar, na esperança de que ele pudesse enviar sua renda para casa. O dinheiro foi emprestado de um agiota e deveria ser reembolsado pelo empregador de Moqtan no Catar, mas isso não aconteceu. Agora a família teme que o agiota exija que as duas irmãs de Moqtan, de 14 e 16 anos, que eram garantias do empréstimo, sejam enviadas para trabalhar em bordéis em Mumbai (Índia) para saldar a dívida.

O caso trágico de Moqtan não é incomum. Em novembro passado, a Anistia Internacional emitiu um relatório advertindo que muitos trabalhadores se queixavam das más condições de saúde e segurança, incluindo alguns que disseram que não recebiam capacetes nas obras. Um representante do principal hospital de Doha declarou que mais de 1 mil pessoas foram admitidas em sua unidade de traumatologia em 2012 por terem caído de alturas no trabalho.

Pesquisadores também encontraram trabalhadores imigrantes vivendo em acomodações sujas e superlotadas, sem ar-condicionado e com esgoto a céu aberto. Vários acampamentos não tinham energia elétrica e os pesquisadores encontraram um grande grupo de homens vivendo sem água corrente.

"É simplesmente indesculpável em um dos países mais ricos do mundo que tantos trabalhadores migrantes estejam sendo explorados impiedosamente, privados de pagamento e tenham de lutar para sobreviver", disse na época em que o relatório foi publicado o secretário-geral da Anistia Internacional, Salil Shetty.

Alguns chegaram a pedir que o Catar perca o direito de sediar o campeonato. Mas Zwanziger disse que a medida seria "contraproducente". Ele explicou ao Subcomitê de Direitos Humanos do Parlamento Europeu que "simplesmente faria que a atenção seja desviada deles".

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