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Contradições fazem de Cuba um país entre dois mundos

por Deutsche Welle publicado 14/04/2014 10h38
Governo vem promovendo reformas econômicas, mas impressão é de que há na ilha uma dissonância entre o ideal de uma sociedade sem classes e a realidade
Flickr / Doug

O pavilhão vazio por trás das grades de ferro é sintomático. Poucos meses antes, em dezembro, nele se aglomeravam barracas de pequenos comerciantes. A maioria vendia roupas por conta própria. E riscos também próprios.

Mas em janeiro de 2014 entrou em vigor uma lei com a qual o governo de Raúl Castro quer combater o que considera o uso abusivo dos novos direitos conquistados pelos cubanos. Por exemplo, costureiras autônomas não podem mais vender roupas importadas, um negócio que prosperou nos últimos meses. Consequência: o pavilhão está agora vazio.

Dois passos para frente, um para trás. Assim avança a ilha caribenha em direção à nova era. Em 2008, Raúl, irmão de Fidel Castro, assumiu o governo. Ele é considerado mais pragmático e mais aberto a mudanças, dando início a uma série de reformas econômicas. Entre elas está, por exemplo, a permissão de que cubanos possam, de forma autônoma, exercer cerca de 200 profissões.

Eles podem ganhar dinheiro com seus próprios restaurantes luxuosos ou, de forma mais simples, recarregando isqueiros. Em 2013, o número de trabalhadores autônomos chegou a 450 mil. Mas não podem ser empresários. Segundo a diretriz oficial do governo, embora sejam a expressão de uma transformação, esses trabalhadores não devem ser precursores do capitalismo: têm que se limitar a preencher o que o Estado não pode executar.

Algo está se movendo em Havana. Mas não de forma radical: depois de apenas dois anos, as reformas retrocederam para alguns dos autônomos. Além das costureiras, também os operadores privados de cinemas 3D perderam as suas licenças – e o dinheiro que investiram na tecnologia.

Duas moedas
Através da questão do dinheiro, pode-se facilmente entender que Cuba vive entre dois mundos. Há duas moedas: o peso cubano (CUP) e o peso conversível (CUC).

O CUC foi introduzido em 1994 como uma alternativa ao mercado negro do dólar americano. Hoje é atrelado ao dólar e é nada menos que uma espécie de Bezerro de Ouro: com ele, é possível comprar tudo, até produtos importados. Mas não se chega a ele através de empregos estatais.

Os cubanos recebem os salários estatais em pesos cubanos: em média, 470 pesos mensais (45 reais). Com esse dinheiro, é possível comprar um pequeno número de mercadorias baratas, como arroz, frango e açúcar. Para macarrão, carne de gado ou chocolate, é preciso pagar em CUC. Para chegar ao CUC, os turistas são a melhor fonte, já que eles precisam do peso conversível para pequenas despesas diárias.

Em consequência, os médicos preferem vender pizza a trabalhar nos hospitais estatais. Os professores preferem cuidar dos hóspedes de pensão a lidar com os alunos. Assim, eles ganham muito mais – e na moeda "certa". O governo Castro está ciente das distorções da economia. Em outubro de 2013, anunciou o fim do sistema dual. Mas esse passo parece ser algo particularmente difícil.

Um carro por 1 milhão de reais
O brilho dos carros antigos nas ruas de Havana não corresponde ao seu funcionamento interno. Muitos deles têm 50, 60 anos de estrada, quebram com frequência e precisam ser consertados novamente. Não há peças de reposição.

Quando a importação de carros estrangeiros foi oficialmente permitida, em dezembro do ano passado, eram grandes as esperanças no país. Mas a freada foi brusca: o governo divulgou o preço estabelecido para cada tipo de automóvel. Um carro europeu de médio porte custa cerca de 1 milhão de reais. Os cubanos se sentiram ridicularizados, o que externaram em sites e fóruns na internet.

Agora, a web também permite olhar para fora do país – ao menos em teoria. Desde meados do ano passado, os cubanos têm acesso à internet em cerca de 120 novos cibercafés. Por um preço de quase 5 CUC por hora, um quarto do salário mensal, os cubanos têm pouco tempo para navegar na internet. Além disso, a conexão é lenta, e páginas como o Twitter ou Facebook são quase impossíveis de serem acessadas.

Oficialmente, no entanto, Cuba abriu as portas para os seus habitantes. Já há um ano, qualquer cubano pode viajar com seu passaporte para o exterior e lá permanecer por, no máximo, dois anos, até mesmo aqueles que o governo considera como dissidentes. Mas, para a maioria, as portas permanecem fechadas. Somente alguns poucos países querem emitir vistos de entrada para um cubano. Desde então, 200 mil cubanos fizeram uma viagem ao exterior.

À procura de parceiros
Os médicos podem deixar oficialmente Cuba. Eles trabalham, por exemplo, no Brasil ou na Venezuela, trazem divisas para o país e atuam como uma vitrine do bom sistema de ensino cubano. As escolas e universidades estão entre as melhores da América Latina.

Mas quem quiser promover a tecnologia de ponta e a pesquisa precisa de intercâmbio internacional e cooperações, como na área de biotecnologia. Empresas estatais apresentaram seus avanços na pesquisa farmacológica, por exemplo, em medicamentos contra o câncer. Mas, para elas, é difícil encontrar parceiros no exterior.

As empresas lembram que Cuba ainda está sob o embargo dos EUA. Assim, se companhias europeias quiserem fazer negócios com cubanas, podem acabar tendo desvantagens econômicas em suas atividades nos Estados Unidos.

Mas o principal entrave para o avanço do país está na contradição entre o ideal de uma sociedade sem classes e a realidade. O governo de Cuba se apega ao passado e, ao mesmo tempo, tem de permitir reformas. Já há muito tempo que o país deixou para trás o socialismo puro, mas ninguém parece realmente saber para onde é que tudo isso vai.

  • Autoria Grit Hofmann (ca)
  • Edição Rafael Plaisant / Alexandre Schossler


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