Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Conflito no Oriente Médio é mais do que religião

Internacional

Síria

Conflito no Oriente Médio é mais do que religião

por The Observer — publicado 12/06/2013 10h40, última modificação 13/06/2013 12h07
O Hizbollah está envolvido e há confrontos entre xiitas e sunitas, mas somente o sectarismo não explica a escalada da tensão
Mahmoud Zayyat / AFP
Síria - Líbano

Em Sidon, no Líbano, sírios e libaneses exibem a antiga bandeira da independência síria, símbolo dos rebeldes, e a bandeira do Líbano, com o cedro no centro. O evento era em solidariedade à queda de Qusair

Por Peter Beaumont

Há alguns dias, o influente religioso sunita Yusuf al-Qaradawi denunciou o movimento xiita libanês Hizbollah – cujos combatentes ajudaram o regime de Bashar al-Assad a retomar a cidade síria de Qusair na semana passada – como o "partido de Satã".

Falando em Doha, pouco antes da queda de Qusair, Qaradawi não parou por aí: o religioso, cujos discursos e sermões são ouvidos por milhões de pessoas, deu um passo perigoso, pedindo que os muçulmanos sunitas com treinamento militar apoiem os rebeldes sírios contra Assad.

Foi um sermão que não apenas marcou uma clara mudança nas tensões sectárias no Oriente Médio entre sunitas e xiitas, mas uma escalada na própria retórica de Qaradawi. Quando o ouvi pregar sobre a Síria na mesquita lotada de al-Azhar no Cairo, no outono passado, ele foi firme ao condenar o regime Assad, mas não chegou a endossar uma jihad.

Em Doha, porém, os comentários de Qaradawi abrangeram uma noção sectária mais perigosa. "O líder do partido de Satã vem combater os sunitas... agora sabemos o que os iranianos querem... eles querem continuar os massacres de sunitas", disse Qaradawi. "Como 100 milhões de xiitas poderiam derrotar 1,7 bilhão [de sunitas]? Só porque os muçulmanos [sunitas] são fracos."

Os comentários de Qaradawi -- endossados na semana passada pelo grande mufti da Arábia Saudita, Abdul Aziz al-Asheikh – não saíram do nada. Foram uma resposta direta ao discurso feito pelo secretário-geral do Hizbollah, Hassan Nasrallah, em Beirute, que não apenas admitiu que seus combatentes estavam na Síria, como prometeu que seus homens ajudariam Assad – um membro da secto xiita alauíta – até a "vitória" final.

Se houvesse necessidade de prova da escalada da dimensão sectária da crescente instabilidade regional no Oriente Médio – na qual o agravamento do conflito na Síria tem uma grande papel – ela ficou clara na semana passada.

É visível nos destroços de Qusair, na Síria, agora esvaziada da maior parte de sua população e dominada por uma força conjunta do Hizbollah e do governo Assad, assim como o balneário libanês de Trípoli, o segundo maior do país, onde as batalhas entre milícias alauítas e sunitas continuam.

Também foi visível no Iraque, onde tensões letais, inspiradas em parte pela Síria, mas mais amplamente pelas próprias tensões políticas do país, vêm crescendo quase semanalmente, como testemunham as mais de mil mortes em maio, o maior número mensal desde 2008.

E tem sido a Síria -- principalmente -- que serviu como ímã para os que desejam lutar, tanto para os jihadistas sunitas quanto para xiitas iraquianos e libaneses.

Tornou-se um clichê nos últimos meses falar sobre uma divisão sectária inevitável e insuperável entre sunitas e xiitas, por causa de um cisma que ocorreu no islã há 1.400 anos. A realidade é que o momento atual das tensões no Oriente Médio é muito mais complexo do que o simples ódio religioso. Ele reflete sobretudo um atrito crescente que se origina em rivalidades mais recentes sobre poder, direitos e identidade que foram exacerbados pela guerra no Iraque e pelas reconfigurações da Primavera Árabe.

No próprio cerne do debate está o quanto as tensões sectárias em si impulsionam os novos conflitos, ou se as tensões sunitas-xiitas foram usadas em rivalidades locais e regionais cuja natureza tem tanto a ver com poder, política e distribuição de recursos quanto com a religião.

A separação dos dois ramos do islamismo é quase tão antiga quanto a própria religião, resultado de uma disputa política pela liderança entre seguidores do profeta Maomé depois de sua morte. O que surgiu foram interpretações às vezes sutilmente diferentes – e às vezes radicalmente – dos ensinamentos de Maomé. Apesar disso, não houve equivalente na história islâmica a uma Guerra dos Trinta Anos entre protestantes e católicos na Europa, enquanto por longos períodos e em muitos lugares – principalmente no Iraque, apesar de seus problemas recentes – xiitas e sunitas não apenas coexistiram como se misturaram amplamente através do casamento.

Marc Lynch, diretor do Instituto para Estudos do Oriente Médio na Universidade George Washington, escrevendo recentemente na revista Foreign Policy, advertiu que a ênfase estreita para o sectarismo não é útil. "A narrativa mestre sectária", escreveu Lynch, "obscurece mais que revela as linhas principais do conflito no Oriente Médio emergente. A próxima era será definida pela concorrência entre candidatos ao poder domésticos (na maioria sunitas) em países transnacionais radicalmente incertos e candidatos (na maioria sunitas) ao manto da liderança regional árabe. O antixiismo não garante mais a unidade sunita do que o pan-arabismo produziu a unidade árabe nos anos 1950."

Em outras palavras, os conflitos emergentes são principalmente intersunitas, mais que sunitas-xiitas. Lynch também aponta para a rivalidade entre o Catar e a Arábia Saudita para armar facções rebeldes diferentes, uma concorrência que minou a unidade da oposição síria, como ele sugere.

Geneive Abdo, uma associada no grupo de pensadores Stimson Centre e autora de The New Sectarianism [O novo sectarismo], entretanto, admite ser "razoavelmente pessimista" sobre a atual trajetória das tensões entre as duas seitas islâmicas, afirmando que ela ocorre em meio a uma "intensificação" mais ampla da identidade sectária em todo o Oriente Médio que não pode ser facilmente explicada com referência ao contexto social, econômico ou político.

"Não devemos esquecer que parte do novo sectarismo começou com o Iraque [depois da invasão]. A queda dos regimes autoritários durante a Primavera Árabe", ela acrescenta, "coincidiu com um interesse maior pela política de identidade de todo tipo, incluindo a identidade sectária."

Abdo – como vários outros analistas – situa as raízes das atuais tensões entre xiitas e sunitas nos anos 1960 e 70, e não mais para trás no tempo. Nesse período começou o movimento de renascimento xiita no Líbano, que – como o movimento de oposição na Síria hoje – pedia igualdade de direitos inclusivos para os xiitas em Estados governados por sunitas.

Abdo acredita, entretanto, que o novo sectarismo é promovido por fatores concorrentes, que incluem tanto a maneira como os Estados sunitas e xiitas estão envolvidos na Síria, as tensões sectárias na própria Síria e "a percepção" em lugares como Bahrein, onde uma monarquia sunita concorre com uma maioria xiita sobre direitos políticos, que a concorrência é sectária por natureza – uma profecia que se cumpre por si mesma.

A questão de como o sectarismo está influindo nos conflitos emergentes na região – principalmente na Síria – torna-se duplamente difícil pelo fato de que o espectro do conflito sunita-xiita ampliado também está sendo cinicamente explorado, uma alegação feita pelo estudioso iraquiano Harith al-Qarawee, que escreveu sobre o Iraque na National Interest no início deste ano.

Lá, ele afirma, "as identidades sectárias são usadas por empreendedores políticos para alcançar objetivos políticos. Embora o simbolismo cultural e as narrativas coletivas façam parte desse processo, os verdadeiros objetivos são políticos – e amplamente calculados".

Qarawee e outros também apontam para o recente processo de "sunificação". Em um nível local no Iraque, a minoria sunita – que já dominou o país e foi política e economicamente excluída em um Iraque pós-Saddam dominado por xiitas – adota uma identidade cada vez mais sectária.

Mais amplamente, embora muito menos perigosamente, isso coincidiu com a emergência de novos governos islâmicos em toda a região, estreitamente associados a ou dominados pela Fraternidade Muçulmana.

Outros afirmam que o sentido de uma crise sectária – mais notadamente em relação à Síria – foi criado pelo regime Assad.

"O elemento sectário foi introduzido na revolução em março de 2011 pelo próprio regime Assad, que quer identificá-lo com o conflito sectária", diz a escritora e analista síria Rime Allaf. "Ele deliberadamente abraçou essa ideia porque sabe que as pessoas têm medo dela... O regime e seus aliados no Hizbollah tentaram apresentar sua posição como defensiva, mas as pessoas não a estão comprando." Ela também argumenta que a recente assimilação do Hizbollah por Assad tem tanto a ver com sua falta de confiança em setores de suas próprias forças armadas quanto com uma aliança estratégica pan-regional que se estende do Irã ao Líbano.

E se foi a intervenção aberta do Hizbollah no combate em Qusair que fez disparar um alarme ainda mais forte, vale a pena notar que o interesse do Hizbollah na Síria tem menos a ver com o destino de seus correligionários alauítas e tudo a ver com sua própria sobrevivência e seus interesses.

Um cliente libanês do Irã, o Hizbollah há muito tempo contou com o regime Assad como canal para as armas sofisticadas e outros apoios que permitiram ao movimento exercer uma influência desproporcional no Líbano.

Não foi só na Síria que o alegado perigo da interferência sectária foi usado para justificar abusos aos direitos humanos. No Bahrein, que teve protestos intermitentes durante dois anos e uma constante repressão pelos governantes sunitas contra os xiitas marginalizados, a família reinante tentou pintar os protestos legítimos como interferência inspirada pelo Irã.

Vali Nasr, um membro do Conselho de Política Externa do Departamento de Estado dos EUA e autor de The Shia Revival [O renascimento xiita], que mapeou a crescente importância da influência e da política xiitas desde a queda de Saddam, suspeita que também pode haver considerações doutrinárias mais sutis em ação nos comentários cada vez mais febris de pessoas como Qaradawi. Nasr indica o comentário de Qaradawi de que os sunitas só podem ser derrotados se "forem fracos".

"O Hizbollah e o Irã armaram uma coisa grande. Eles mostraram [em Qusair] que são mais capazes de combater que os sunitas. Para aqueles como Qaradawi – para os quais o discurso é sobre o empoderamento dos seguidores da verdadeira religião – não se pode permitir que os sunitas sejam mostrados de alguma forma como frágeis."

Enquanto Nasr há muito tempo previu uma mudança decisiva no centro de gravidade no Oriente Médio em direção ao Iraque e ao Irã xiitas, ele toma cuidado para distinguir entre as motivações de combatentes xiitas individuais que estão sendo atraídos para a Síria de lugares como o Iraque, e jihadistas sunitas que viajaram para combater por grupos como o Jabhat al-Nusra, depois das recentes alegações da emergência de um novo tipo de "jihadismo xiita".

"Para os xiitas, a Síria não é a guerra civil espanhola ou o Afeganistão. Muitos desses xiitas que vão lutar vêm de lugares como o Líbano e o Iraque, porque acreditam que estão lutando por si mesmos.

"É considerado uma mobilização por aqueles que temem que, se Assad perder, os sunitas virão persegui-los. Eles a consideram uma defesa preventiva." E acrescenta: "As pessoas no Oriente Médio em geral se importam com a Síria não necessariamente porque se importem com os sírios, mas porque se importam com suas próprias lutas".

Nasr, que é mais otimista que a maioria, sugere também que as atuais tensões podem ser vistas como o desenrolar final da forma da região concebida no acordo anglo-francês de Sykes-Picot, que previu o desmembramento do Império Turco-Otomano.

"Aquelas estruturas estão se desfazendo agora: primeiro sob as botas dos soldados americanos no Iraque e, mais recentemente, sob os calcanhares dos manifestantes pró-democracia na Primavera Árabe."

Leia mais em guardian.co.uk

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

registrado em: