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Internacional

Análise

Como Israel coloca em risco o apoio dos EUA

por José Antonio Lima publicado 21/08/2014 18h05, última modificação 20/10/2015 09h32
O diálogo dos governos Netanyahu e Obama chegou a um novo ponto baixo. A longo prazo, a tendência é Washington abandonar a política de ajuda incondicional aos israelenses
Manifestantes pró-Palestina pedem boicote a Israel durante manifestação em Madri, na Espanha, nesta quinta-feira 21
Avi Ohayun / Divulgação
Benjamin Netanyahu e Barack Obama

Netanyahu e Obama durante conversa na Casa Branca em 2011. O israelense aposta no Congresso enquanto espera as novas eleições nos EUA

Ninguém pode negar que o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, é um líder autoconfiante. Segundo em tempo de permanência na lista de primeiros-ministros do país, atrás do histórico David Ben Gurion, Netanyahu comanda um Exército formidável, tem apoio significativo da classe política e viu sua popularidade explodir desde o início da ofensiva contra o Hamas na Faixa de Gaza, em 8 de julho (apesar de agora ela já ter despencado novamente). A autoconfiança de Netanyahu, entretanto, está colocando em risco aquele que é o ativo mais importante do país – a parceria com os Estados Unidos. A longo prazo, isso pode significar a redução de um apoio precioso no ambiente hostil em que Israel vive.

A relação entre Estados Unidos e Israel tem sido bastante atribulada desde que Barack Obama tomou posse, no início de 2009. O atual presidente dos EUA e Netanyahu tiveram diversos atritos, alguns públicos, em especial a respeito do estabelecimento do Estado palestino e do programa nuclear do Irã. Em 2012, quando Obama buscava a reeleição, Netanyahu não fez questão de esconder seu apoio a Mitt Romney, o candidato republicano.

Na atual ofensiva contra o Hamas, a relação entre Estados Unidos e Israel chegou a um novo ponto baixo. No fim de julho, o Departamento de Estado enviou o rascunho de um possível cessar-fogo com o Hamas para o governo israelense, com o objetivo de consulta. O documento, visto como favorável ao Hamas, indignou o gabinete de Netanyahu, que não apenas decidiu votar o rascunho, dando a ele um caráter oficial que não tinha, como vazou o conteúdo para a imprensa. A imagem de John Kerry, o secretário de Estado dos EUA, ficou arranhada, e fez o Departamento de Estado atestar publicamente que se tratava de um rascunho. Aos poucos, a diplomacia norte-americana saiu de cena e e foi substituída pela da Egito, também hostil ao Hamas, como defensora dos interesses de Israel nos diálogos com o grupo palestino.

No início do mês, as coisas pioraram, com um ríspido telefonema entre Netanyahu e Dan Shapiro, o embaixador dos EUA em Israel. Segundo relatos, em 2 de agosto Netanyahu disse a Shapiro para a administração Obama "jamais questioná-lo novamente". No dia seguinte, o Departamento de Estado condenou o "vergonhoso" ataque a uma escola da ONU na Faixa de Gaza, a mais recente das diversas (e raras até a atual operação) críticas norte-americanas à morte de civis palestinos. No último dia 14, surgiu em reportagem do Wall Street Journal o problema mais grave na relação bilateral: Israel estava solicitando munições diretamente ao Pentágono (o Departamento de Defesa dos EUA) sem pedir autorização para a Casa Branca ou o Departamento de Estado. A descoberta do contato direto fez a administração Obama paralisar a entrega de mísseis Hellfire para as Forças Armadas de Israel, uma notícia que chocou muitos israelenses.

A "relação especial" com os EUA é preciosa política e militarmente para Israel, e se provou decisiva diversas vezes nas últimas décadas. Diante disso, parece ser um contra-senso o governo israelense provocar a Casa Branca. Não na cabeça de Netanyahu. O primeiro-ministro de Israel vê Obama como um idealista ingênuo, que não entende o Oriente Médio da forma correta. Ele se dá ao luxo de flanquear Obama pois sabe que o atual mandatário norte-americano tem apenas mais dois anos de mandato. Enquanto isso, Netanyahu aposta no forte lobby pró-Israel que funciona no Congresso dos EUA. A estratégia pode parecer boa a curto prazo, mas tem potencial desastroso para o futuro de Israel.

EUA longe de Israel?

Estados Unidos e Israel são parceiros antigos. Além do lobby, a aliança tem outras três bases fortes – os interesses estratégicos comuns, os valores liberais compartilhados e a tradição judaico-cristã que une os dois povos. Mudanças demográficas, que vão demorar algum tempo para se estabelecer, mas que já estão em andamento, tendem a erodir esta relação especial entre as partes. Em artigo apresentado no Congresso da International Studies Association em Buenos Aires, na Argentina, no fim de julho, Ilai Saltszman, pesquisador da Claremont McKenna College, nos Estados Unidos, mostrou como isso pode ocorrer. A tradição judaico-cristã é a única que tende a se manter a longo prazo, enquanto o mesmo não é verdade para os outros três fatores citados acima.

Em primeiro lugar, Saltszman lembra que os interesses estratégicos dos Estados Unidos e de Israel estão, cada vez mais, percorrendo caminhos separados. Para os EUA, a existência no Oriente Médio de problemas mais urgentes que a questão palestina, como o Iraque; a decrescente dependência do petróleo, proporcionada pelo sucesso da exploração do gás de xisto em solo norte-americano; e o desejo de conter a China, o famoso "pivô para a Ásia" de Obama; têm feito Washington perder interesse no Oriente Médio como um todo e, em Israel, sua ponta-de-lança na região, em particular.

Em segundo lugar, há também uma importante mudança no perfil do lobby pró-Israel. Tradicionalmente estruturado como um grupo de pressão da direita beligerante israelense, o lobby tem um novo ator poderoso, o J-Street, criado por judeus-americanos pró-Israel, mas também pró-paz, postura contrastante com a do atual governo israelense. O J-Street apoiou abertamente a campanha de Obama e tem inúmeras divergências públicas com a direita israelense.

Por fim, o compartilhamento de valores liberais entre as sociedades também parece ameaçado. Enquanto os judeus norte-americanos se encontram entre os grupos demográficos mais progressistas do país, a sociedade israelense tem dado exemplos gritantes de fanatismo, político e religioso. Saltszman lembra que, na ala jovem-liberal da comunidade judaica dos EUA, que está em ascensão, o progressismo é ainda mais acentuado. Para este grupo, diz o pesquisador, as "políticas de Israel em relação aos palestinos constituem um teste decisivo crucial para a viabilidade e capacidade de resistência de seus alicerces morais e éticos". Tal postura dá legitimidade às críticas contra Israel, em especial porque, segundo uma pesquisa do instituto Pew feita em 2013, 89% dos judeus norte-americanos enxergam como compatíveis as condições de ser judeu e a de ter posições "fortemente críticas" a Israel.

Israel deve pensar no futuro

Outras mudanças na sociedade e na política norte-americanas podem prejudicar a relação especial entre os dois países. No fim de julho, o mesmo instituto Pew mostrou que 40% dos americanos culpavam o Hamas pelo conflito na Faixa de Gaza, enquanto 19% responsabilizavam Israel. Entre os maiores de 65 anos, a tendência melhorava para Israel (53% a 15%), mas caía para no grupo entre 18 e 29 anos (29% a 18%). O corte "racial" também mostrava dados importantes. Enquanto 47% dos brancos culpavam o Hamas pelo conflito e 15% responsabilizavam Israel, os negros se dividiam (25% a 27%) e os hispânicos atribuíam mais culpa a Israel (20% a 35%).

As críticas da sociedade ao governo israelense dialogam com a postura da imprensa norte-americana. Tradicionalmente favorável a Israel, representantes da mídia têm se sentido à vontade para criticar a ofensiva israelense. A operação atual é um marco, pois as críticas a Israel se tornaram, como se diz nos EUA, jogo limpo. Isso tem dificultado a tentativa de Israel de tornar consenso a sua versão do conflito: a de que essa é uma guerra de defesa, em nome do sofrimento de uma população que vive sob a ameaça constante dos foguetes do Hamas. Cada vez mais, ganha força a narrativa contrária, a de que o sofrimento maior é dos palestinos, em especial os da Faixa de Gaza, 1,8 milhão de pessoas que vivem sob um cerco de Israel e do Egito, em uma espécie de prisão a céu aberto, cujas vidas já miseráveis estão sendo destruídas pelos bombardeios e pela incursão terrestre israelense.

Mais um agravante demográfico para Israel é a perda de poder dos brancos evangélicos dentro do Partido Republicano. Este grupo é majoritária e ferrenhamente pró-Israel, por motivos religiosos inclusive, e está na base do lobby tradicional. Como mostrou recente reportagem do jornal The Washington Post, os evangélicos têm se sentido isolados politicamente no partido, diante do crescimento de ativistas libertários e da Tea Party, cujas prioridades se concentram em questões econômicas, não sociais. Se essa tendência interna do Partido Republicano continuar, os brancos evangélicos vão ver reduzido seu poder de eleger deputados e senadores, diminuindo a base suscetível ao lobby da direita israelense.

Todos esses fatores são, por enquanto, meramente indicativos de mudança. Israel é e vai continuar sendo um parceiro importante dos Estados Unidos, mas a longo prazo pode perder sua condição de aliado preferencial e o apoio incondicional do qual desfruta hoje. Se fosse um bom líder, Netanyahu transmitiria este diagnóstico a sua coalizão de extrema-direita e à sociedade israelense. Além disso, buscaria alterar as atitudes de seu governo de forma a torná-las mais palatáveis não apenas para quem já apoia o país. Em vez disso, Netanyahu transmite sua autoconfiança e empáfia ao Estado de Israel, e esquece que a existência do país, em segurança, está visceralmente calcada no apoio de Washington. Com apoio reduzido dos EUA, Israel pode ter de confrontar, enfraquecido, desafios até hoje inéditos, como o boicote internacional que vem sendo gestado por conta da questão palestina, cujo objetivo é transformar Israel em um pária internacional. Quanto mais cedo os israelenses acordarem para essa realidade, mais seguros estarão.