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Paris

Cidade-luz nas trevas

por Gianni Carta publicado 17/03/2014 10h33, última modificação 18/03/2014 23h15
Uma Torre Eiffel cinzenta como pulmões de quem fumou a vida inteira deveriam fazer as pessoas repensar se vale a pena ter um carro. Por Gianni Carta, de Paris
AFP
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Vista geral de Paris no último dia 11 de março, um dos picos de poluição deste mês

de Paris

A imagem da Torre Eiffel quase invisível graças a um intenso nevoeiro roda o mundo. Ela é cinzenta, como radiografias de pulmões de pessoas que fumaram a vida inteira. Londres e Roma também ultrapassam os níveis de poluição de Pequim, uma das capitais mais poluídas do planeta.

No domingo, o jogo de futebol de meu filho foi cancelado. Uma colega de minha filha teve um ataque de asma em plena sala de aula. De sexta a domingo o transporte público foi gratuito, mas não mais a partir desta segunda-feira 17.

As autoridades encorajaram o povo a usar as Vélib, as bicicletas com pontos espalhados por toda a cidade. De graça. Mas com um adendo: “Pedalem devagar”. Mais: caminhar é, depois da bicicleta, a melhor maneira para evitar problemas de saúde. Ah, e evitem fazer esporte. Melhor ainda: fiquem em casa.

Por que tanta poluição em uma cidade com um excelente transporte público, carros elétricos e bicicletas disponíveis ao público? Isso sem falar de um prefeito que estreitou as ruas para reduzir o uso do automóvel, ampliou calçadas, criou ciclovias. E fez mais: fechou as principais avenidas para automóveis e motocicletas nos fins de semana para que as pessoas possam caminhar, correr, pedalar, patinar.

A mescla de dias quentes com noites frias impediu a dispersão de partículas emitidas pelos escapamentos, emissões industriais e sistemas de aquecimento. Para se ter uma ideia do estrago, na sexta tivemos níveis poluição de 180 microgramas de PM10 por metro cúbico, ou seja mais do que o dobro do tolerável limite de 80.

Há 17 anos Paris atravessou o mesmo problema. Mas, é evidente, não aprendeu nada. E segundo o artigo 1 da Carta do Meio-Ambiente, “cada indivíduo tem o direito de viver em um ambiente equilibrado e que respeite sua saúde”. Em um blog do site do vespertino Le Monde, Sébastien Vray, da Associação Respire, disse: “Não defendemos os direitos das vítimas, mas daquelas que as matam”.

O maior culpado, é claro, é o automóvel, especialmente aquele movido a diesel. É uma praga comparável ao cigarro. E o governo subsidia essa indústria, visto que ela cria empregos, gera exportações. Anúncios de automóveis não escasseiam na tevê. Neles vemos famílias felizes, homens e mulheres sorridentes. O automóvel encarna a liberdade, e, por vezes, o status social.

Como diz Vray, da Respire: “Nosso país aumenta seu PIB com a poluição, não com a prevenção”.

Por exemplo, a menos de uma semana de eleições municipais, o líder direitista da oposição Jean-François Copé acha que o rodízio “não tem coerência, e na verdade se baseia apenas em pânico”. A oposição socialista-verde diz o contrário.

Já a Associação de Automobilistas defende seus interesses: a atitude das autoridades criou um caos generalizado. E os que pagam mais caro são “as famílias que vivem nos subúrbios”.

As autoridades pelo menos têm reagido. Agora automóveis e motocicletas terão de respeitar um rodízio. Caminhões terão de ficar estacionados.Táxis, carros elétricos, híbridos, ou com pelo menos três passageiros poderão circular.

Centenas de policiais estarão atentos em Paris e nos subúrbios. Contraventores pagarão 22 euros.Vários estão dispostos a desafiar a lei. Em Roma, menos mal, foram mais rigorosos: a multa será de 155 euros.