Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Charlie Hebdo: busca por suspeitos de atentado termina com mortes

Internacional

França

Charlie Hebdo: busca por suspeitos de atentado termina com mortes

por Redação — publicado 09/01/2015 17h41, última modificação 09/01/2015 18h01
Quatro reféns e três radicais islâmicos foram mortos nesta sexta-feira, após horas de cerco na região metropolitana de Paris
AFP
Charlie Hebdo

Imagem mostra explosão de bomba lançada pela polícia antes de invadir supermercado judaico em que Coulibaly, um dos suspeitos, mantinham reféns

Terminou na noite desta sexta-feira 9 (tarde em Brasília) a busca aos radicais islâmicos que, segundo as autoridades francesas, mataram 12 pessoas na redação da revista satírica Charlie Hebdo na quarta-feira 7. O total de mortos no período é de 20 pessoas, e inclui, além das 12 primeiras vítimas, quatro reféns feitos nesta sexta, uma policial morta na quinta-feira 8 e os três suspeitos – os irmãos Said e Cherif Kouachi, 32 e 34 anos, respectivamente, e Amédy Coulibaly, 32 anos. Os três foram mortos durante operações simultâneas realizadas pelas forças especiais da Gendarmerie nationale, a principal força de elite francesa.

Os quatro reféns mortos nesta sexta-feira ainda não foram identificados. Na quarta-feira, foram assassinados o cartunista Stéphane Charbonnier, conhecido como Charb e editor do Charlie Hebdo; os cartunisas Wolinski, Jean Cabu, Bernard Verlhac (Tignous) e Phillippe Honoré; o economist Bernard Maris, subeditor do semanal; o revisor Mustapha Ourad e a colunista Elsa Cayat. Além dos funcionários do jornal, morreram Michel Renaud, que visitava a redação; Frédéric Boisseau, que trabalhava na Sodexo, empresa no mesmo prédio;  e os policiais Franck Brinsolaro e Ahmed Merabet, este executado com um tiro na cabeça quando já estava ferido.

Nesta sexta, a França viveu um tenso impasse por várias horas. Pela manhã, as forças de segurança cercaram uma gráfica em Dammartin-en-Goële, cidade a noroeste de Paris, nas proximidades do aeroporto Charles de Gaulle, onde Said e Cherif mantinham uma refém. Horas depois, Coulibaly invadiu um supermercado judaico na região leste de Paris, e teria ameaçado executar reféns caso a gráfica onde estavam os irmãos Kouachi fosse invadida.

Em entrevistas ao canal francês BFMTV, divulgadas apenas depois do fim das operações, Coulibaly afirmou que os dois sequestros desta sexta-feira foram coordenados. Ele disse apoiar o Estado Islâmico, grupo que age no Iraque e na Síria, mas Cherif Kouachi, que também foi entrevistado pelo canal de tevê, disse estar agindo em nome da Al-Qaeda no Iêmen e de Anwar al-Awlaki, norte-americano de nascimento e líder espiritual do grupo, morto em 2011 por um ataque aéreo dos Estados Unidos.

Segundo as autoridades francesas, Cherif e Said foram os responsáveis pelo ataque à redação da revista. Coulibaly, por sua vez, é o principal suspeito de ter matado a policial Clarissa Jean-Philippe, na quinta-feira 8, durante as buscas pelo irmãos Kouachi.

Os três se conheceram entre 2005 e 2006, afirmou a imprensa francesa, na prisão Fleury-Mérogis, no sul de Paris, conhecida por sua superlotação. Foi neste local que Coulibaly, preso inicialmente por assalto à mão armada, se converteu ao islã e se tornou um radical. Em 2010, Coulibaly foi preso por participar de um plano para tirar da prisão Smaïn Aït Ali Belkacem, condenado pelo ataque ao metrô de Paris em 1995.

A história dos dois irmãos, assim como a de Coulibaly, ilustra como se dá a radicalização de jovens muçulmanos na Europa de hoje em dia. Franceses de origem argelina, Said e Cherif estiveram sob o cuidado dos serviços sociais do país entre 1994 e 2000, em uma instituição educacional no centro da França. Eram, segundo o chefe do serviço educacional da instituição, Patrick Fournier, perfeitamente integrados e sem problemas de conduta.

A partir de 2003, os irmãos passaram a seguir os cursos religiosos do jovem "emir" Farid Benyettou em casas particulares ou mesquitas de Stalingrad, um bairro popular do nordeste de Paris. Em seus cursos, Benyettou apoiava a jihad no Iraque, um tema que tratou, em particular, com Cherif, a quem dizia que, neste contexto, o Islã considera legítimos os atentados suicidas. Cherif pouco a pouco foi se convertendo, o que o levou, entre outras coisas, a parar de fumar maconha e a respeitar os ritos religiosos.

Irmãos Kouachi
Os irmãos Cherif e Said Kouachi foram mortos na operação policial e, segundo as autoridades francesas, eram os responsáveis pelo ataque à redação da revista
CartaCapital

O grupo liderado por Benyettou, chamado pelas autoridades de rede de Buttes-Chaumont, referência ao nome de um parque do norte de Paris, onde os integrantes faziam exercícios físicos e recrutavam combatentes, foi eventualmente descoberto pela polícia e desbaratado. A investigação sobre Benyettou e os irmãos Kouachi ajuda a revelar a dinâmica do grupo.

"Quando Benyettou falava comigo, eu tinha a impressão que de certa maneira me dizia: 'Vê? As provas estão diante de você'", disse Cherif Kouachi aos investigadores. "Quando ele falava, tinha a impressão de que a verdade estava ali, na minha frente", contou. Naquele momento, Cherif negou qualquer intenção de agir na França e não foi processado. No entanto, Benyettou, que o descreveu como "muito impulsivo e muito agressivo", afirmou que Cherif teria falado "sobre sua intenção de atacar a comunidade judia em Paris antes de ir participar da jihad".

Em 2004, Cherif manifestou a Benyettou seu desejo de viajar ao Iraque. O "emir" confiou a ele a missão de "se unir ao grupo de Abu Musab al-Zarkawi", líder naquele momento do braço iraquiano da Al-Qaeda. Benyettou "me falou de setenta virgens e de uma grande casa no Paraíso" e de "detonar contra uma base americana um caminhão carregado de explosivos", disse Cherif. "Indivíduo indignado pelas torturas que os americanos infligiram aos iraquianos", Cherif não chegou a viajar ao Iraque. Em 2005, foi detido antes de pegar o voo rumo à vizinha Síria.

Cherif foi finalmente condenado em 2008 a três anos de prisão. Na detenção, conheceu Djamal Beghal, uma figura do islã radical francês, que exerceu, segundo as fontes, "uma grande influência" e o levou a praticar "um Islã muito rigoroso". Beghal estava preso por envolvimento com um atentado ao metrô de Paris em 1995 e também serviu como inspirador de Coulibaly.

Said, por sua vez, frequentou a Universidade al-Iman, estabelecimento religioso fundado pelo clérigo fundamentalista Abdel Majid al-Zindali, no Iêmen. No mesmo país, Said recebeu treinamento militar da Al-Qaeda para o manejo de armas. A pista de Said se perde entre 2010 e 2012, mas as autoridades de segurança do Iêmen acreditam que, neste período, ele teria recebido um treinamento militar.

Na Universidade al-Iman, Said Kouachi pedia para ser chamado de Mohammed, segundo o testemunho de um companheiro de classe que falou com a AFP sob anonimato. "Era disciplinado, calmo e discreto", disse o estudante iemenita.

Atualmente, Said e Cherif viviam em Gennevilliers, a noroeste de Paris. Segundos os responsáveis pela mesquita da cidade, eles não mostravam nenhum sinal de radicalização, mas antes das eleições presidenciais francesas de 2012 manifestaram contrariedade à solicitação feita pelo imã da mesquita para que os fiéis que fossem votar.

Ao jornal canadense The Glob & Mail, uma vizinha árabe da dupla em Gennevilliers contou que, há cerca de dois meses, seu marido e um amigo descobriram um “estoque de armas” na residência dos Kouachi. Os dois entraram na casa dos irmãos quando eles não estavam presentes, por temerem o comportamento recente dos dois, que incluíam orações em voz alta várias vezes por dia. Surpreendidos pelos irmãos, os vizinhos foram ameaçados e decidiram não relatar o que viram para a polícia.

Com informações da AFP