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Cardeal Maradiaga, o homem por trás das reformas do papa

por Deutsche Welle publicado 27/01/2014 10h00
O arcebispo de Tegucigalpa é o encarregado por Francisco para a reforma administrativa do Vaticano
AFP
Maradiaga

Maradiaga, de 71 anos, ficou mundialmente conhecido em 2002 ao se tornar o patrono da campanha pelo perdão da dívida dos países em desenvolvimento

Apesar de tocar cada vez menos, o cardeal Oscar Rodrigues Maradiaga ainda se encanta com as teclas. Em visita à Alemanha, ele não resistiu a testar os teclados após a missa na Catedral de Bonn. Além de teologia, psicologia e várias ciências naturais, Maradiaga também estudou música e é fascinado por jazz e ritmos brasileiros.

Maradiaga, de 71 anos, sabe como conquistar a atenção da opinião pública para si e para suas questões. Ele ficou mundialmente conhecido em 2002 ao se tornar o patrono da campanha pelo perdão da dívida dos países em desenvolvimento, que reuniu instituições de políticas desenvolvimentistas e organizações não governamentais.

Apesar da idade, o arcebispo de Tegucigalpa, capital de Honduras, tem disposição para viajar pelo mundo para cumprir com suas muitas obrigações.

O cardeal Maradiaga é, entre outras coisas, o presidente da Caritas International – a agência humanitária da Igreja Católica – e membro do conselho da Don Bosco Mondo, uma ONG católica que atua em prol dos jovens desfavorecidos e marginalizados.

No entanto, sua mais recente incumbência é provavelmente a mais difícil. Desde outubro, o hondurenho preside uma comissão de oito cardeais que, sob a orientação do papa Francisco, é responsável pela reforma da Cúria, a administração da Igreja Católica no Vaticano.

"As expectativas são muito altas", declarou o cardeal em Bonn sobre a chamada C8. Após as duas reuniões iniciais dos oito cardeais que integram a comissão, em outubro e dezembro de 2013, as primeiras propostas de reforma já foram delineadas.

Leigos poderão se beneficiar das reformas
Assim como um governo é administrado pelos ministérios, a administração da Igreja Católica é dividida nos chamados dicastérios. Entre eles estão as congregações. "Temos uma congregação para bispos, outra para o clero, uma para a doutrina da fé, então por que não uma congregação para os leigos?", comentou o cardeal, mencionando uma das propostas analisadas pela comissão.

Os leigos – fiéis não ordenados – compõem a maioria da Igreja. Atualmente, eles possuem representação na forma de um conselho, o que faz com que sua influência seja muito reduzida em Roma. "O Papa quer, sem dúvida, uma nova representação para os leigos", afirmou o cardeal, reforçando que isso vale para homens e mulheres. Essa nova congregação incluiria um conselho para as famílias, da qual poderiam participar casais.

Não é surpreendente que o cardeal hondurenho defenda um papel maior dos leigos na Igreja. Ele já conhece os benefícios do envolvimento dos fiéis. Em Honduras, a quantidade de padres é pequena, e os inúmeros povoados são de difícil acesso. Maradiaga é provavelmente o único cardeal que se desloca de um ponto a outro pilotando seu próprio helicóptero.

Em 1966, a Igreja Católica de Honduras realizou o primeiro treinamento de leigos para conduzir os serviços da Páscoa nas comunidades remotas do país. Hoje, os delegados de la palabra, como são chamados, são em torno de 17 mil. Esses homens e mulheres estão acostumados a se encarregar de suas comunidades – mesmo sem ordenação.

Melhorar a comunicação
A última reforma da Cúria Romana data do final dos anos 1980, durante o papado de João Paulo 2º. E há outros setores que também necessitam ser reformados. A comunicação, por exemplo, deve ser melhorada. "Após as preces matinais, eu verifico meus e-mails em meu telefone celular", conta o cardeal Maradiaga. Aparentemente, ele é uma exceção. O próprio papa não tem esse hábito. "Essa é uma outra galáxia", acrescenta, sorridente, o cardeal.

Ele defende que o Sínodo dos Bispos seja permanente. Segundo o cardeal, trata-se de um excelente instrumento para a troca de ideias, mas os encontros a cada três anos, além de ocasiões especiais, são insuficientes. É muito importante que todos possam ouvir uns aos outros, ressalta Maradiaga.

Melhorar a comunicação é também um dos objetivos da comissão presidida pelo cardeal. Mesmo após a implementação das reformas, a C8 deverá permanecer como um órgão de consulta do papa. "Estaremos nas nossas regiões, e de lá poderemos relatar." Essa seria a razão para o papa Francisco ter nomeado para a comissão uma pessoa de cada parte do mundo.

A próxima reunião do C8 começa no dia 22 de fevereiro, quando as propostas para as reformas da Cúria deverão ser melhor especificadas. Um ponto o cardeal Maradiaga deixa claro desde já: "a cúria não existe para se seguir carreira nela, nós estamos aqui para servir".

  • Autoria Julia Mahnke (rc)
  • Edição Alexandre Schossler

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