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Brasil precisa se voltar mais para a América Latina, diz pensador colombiano

por Fernando Vives — publicado 28/10/2010 15h58, última modificação 28/10/2010 15h58
O filósofo Bernardo Toro entende que o papel de líder regional do País passa obrigatoriamente por estreitar os laços com os vizinhos; Amazônia e educação são assuntos prioritários

O filósofo Bernardo Toro entende que o papel de líder regional do País passa obrigatoriamente por estreitar os laços com os vizinhos; Amazônia e educação são assuntos prioritários

Por diversas razões históricas, o Brasil tem como referência maior as potências da Europa e os Estados Unidos e nem tanto os vizinhos latino-americanos, muito mais próximos uns dos outros que do vizinho gigante que fala português. E isso tende a ser um problema para um país que veste cada vez mais o papel de líder de uma região em uma época na qual a água, ainda abundante na América do Sul, passa a ser foco das atenções internacionais.

“Nenhum país é um líder regional se não dialogar com seus vizinhos”. A frase, que pode ser um conselho para o governo brasileiro que assumirá em 2011, tem a autoria do filósofo e educador colombiano Bernardo Toro, um dos grandes pensadores da educação na América Latina e um dos precursores do tema sustentabilidade na região. “A Amazônia compreende 8 países e 46 milhões de pessoas, mas muita gente no Brasil pensa que o bioma é exclusivamente brasileiro. E o Brasil tem que discutí-la em conjunto”, afirma.

Bernardo Toro falou a CartaCapital durante palestra promovida pela Fundação Bradesco, em São Paulo, na quarta-feira 27, na qual expôs os desafios para a educação no século XXI para a América Latina. O pensador colombiano reafirma que o baixo índice educacional é um empecilho crônico para o desenvolvimento dos países latino-americanos e criticou a cultura da educação baseada em vencedores e perdedores vigente no mundo. “Vemos a valorização da cultura guerreira, de supremacia, e não altruísta. Precisamos mudar o foco da relação ganhar/perder para ganhar/ganhar. A sustentabilidade depende disso”, diz.

CartaCapital: Você falou que o Brasil se volta pouco a América Latina. Em quais pontos você entende que o Brasil precisa melhorar em relação ao restante da região?
Bernardo Toro: Grande parte do futuro da América Latina depende do bioma amazônico. Infelizmente, muita gente no Brasil pensa que o bioma é exclusivamente brasileiro. Não é. Nele existem oito países envolvidos e aproximadamente 46 milhões de pessoas. Grande parte da significância da América Latina vai depender do tratamento que terá o bioma amazônico em plenos menos três aspectos. Primeiro, a transparência amazônica, ou seja, que aceitemos que a região seja cuidada e vigiada por todos os países que a compõem, o que significa levar toda a região a satélites, como faz o Google Maps. Segundo, que é necessário desenvolver a economia da Amazônia em conjunto com todos os países da selva, não só o Brasil. Terceiro, na Amazônia vivem 46 milhões de pessoas, e lá habitam do seu modo há séculos. O modo de vida desse povo deve ser valorizado, porque as formas que vêm de fora da região costumam ser degradadoras. Terceiro, há a questão da água que deve ser discutido em conjunto - a América Latina é uma das maiores fontes do mineral e o mundo sabe disso. E por último, o Brasil tem a Embrapa, que tem a melhor tecnologia da América Latina, que pode ser usada para compartilhar um modelo de tecnologia útil e sustentável para todos.

CC: O Brasil, como toda a América Latina, tem um problema crônico de baixos índices educacionais, o que acaba sendo um problema para o desenvolvimento pleno do país. Você já enxerga o governo brasileiro trabalhando este ponto?
BT: O problema maior disso é que, na América Latina como um todo, quando falamos de educação, falamos apenas de pedagogia, e não de todo o sistema educacional, e precisamos discutir toda a arquitetura do sistema de educação para que possamos desenvolvê-lo. Muitos desses problemas requerem um esforço político muito forte, mas se o parlamento de um país usa a educação como mecanismo ideológico para ganhar voto, esse problema nunca vai ser solucionado. A educação tem que ser encarada como um problema de Estado, não de partidos. Nos países latino-americanos, hoje acha-se normal a diferença entre o ensino particular e o público, e isso é terrível. Como os filhos dos que pensam a educação estudam fora do ensino público, estes não se sentem implicados com o problema. Se governador, prefeitos ou diretores de grandes companhias tivessem filhos no ensino público, junto com os filhos das empregadas que trabalham em suas casas, aí sim melhoraríamos a educação.

CC: Você diz que temos enraigado, em nossa sociedade, essa cultura do vencedor/perdedor de maneira muito forte, e que isso se reflete na escola...
BT: Sim, estamos apenas engatinhando para mudar isso. O que vemos é a valorização da educação guerreira, e não altruísta. É um mundo dividido entre vencedores e perdedores onde a inteligência é um bem privado, individual e que prega a supremacia. A sustentabilidade, por exemplo, ainda é encarado como um problema ecológico, e não também como um problema político, social ou espiritual, além de global, como de fato é. As relações do planeta precisam mudar para uma relação ganhar/ganhar, e não mais ganhar/perder. A escola tem papel fundamental nisso.

CC: No seu entender, um dos vários motivos que ainda fazem a educação na América Latina ser tão precária é a ausência de métodos de aprendizagem dos professores. Como ocorre - ou como não ocorre - isso?
BT: Os professores são educados para trabalharem com os alunos o conteúdo das matérias, e não as estratégias para aprender. Na América Latina, a tradição luso-espanhola pregou que a erudição é um valor. Criar condições para que os alunos aprendam, nem tanto. Imagine que um professor em formação na Alemanha chega a aprender até 25 métodos de ensino. Seu par da América Latina, nenhum - ele acaba usando em sala de aula o método do professor que mais o agradou na faculdade. Essa situação requer um grande pacto nacional entre os centros formadores de educadores para produzir profissionais que enxergam o lado solidário de educar. Isso é delicado, porque implica em fazer com que essas instituições também enxerguem que o professores tem o que, em inglês, se chama da accountability social, responder para a sociedade pelo aprendizado. E isso é uma evolução que tem quer ser discutida e entendida por todas as partes.

CC: E o professor do século XXI, precisa ter quais características fundamentais?
BT: O novo educador sabe que cada aluno tem singularidades psicológicas e genéticas específicas e trabalha isso. Procura desenvolver inteligências múltiplas e integra disciplinas no dia-a-dia. Outro ponto importante para melhorar a educação como um todo: é necessário desenvolver a capacidade para criticar das crianças. Um estudante que sabe como funciona a política, democracia e cidadania vai ser um adulto melhor.

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