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"Brasil precisa se envolver mais no Oriente Médio"

por Deutsche Welle publicado 12/05/2015 05h50
Em entrevista, chefe da agência da ONU para refugiados palestinos diz que diplomacia brasileira, focada em abordagens pacíficas, pode ajudar a região
UNRWA
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Krähenbühl: "Brasil é bem-vindo, porque tem uma visão diferente das relações internacionais"

Por Marina Estarque

Em sua primeira visita oficial ao Brasil, o comissário-geral da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos (Unrwa), Pierre Krähenbühl, defendeu uma maior aproximação com o país.

Nos últimos cinco anos, o Brasil aumentou as doações para a agência e, em 2014, foi o primeiro país da América Latina e do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) a ser admitido no Comitê Consultivo da Unrwa.

Entre 2012 e 2013, o Brasil doou 8 milhões de dólares e, em 2014, uma remessa de arroz no valor de 9,2 milhões de dólares. Segundo Krähenbühl, o país tem mostrado um interesse crescente em assuntos do Oriente Médio.

Sobre o emprenho brasileiro em obter um assento no Conselho de Segurança da ONU, Krähenbühl afirma que o país quer construir uma comunidade internacional com atores políticos e centros de influencia mais diversificados e equilibrados.

"O Brasil é bem-vindo, porque tem uma visão diferente das relações internacionais, muito focada em abordagens pacíficas. O que eu considero muito positivo e necessário hoje no Oriente Médio", afirma.

Deutsche Welle: Nos último cinco anos, aumentaram as doações brasileiras para a UNRWA. Na sua opinião, qual é o objetivo do Brasil em participar mais ativamente da agência? Isso está relacionado a uma tentativa do país de conseguir um assento no Conselho de Segurança da ONU?

Pierre Krähenbühl: Eu acredito que o Brasil tem uma ambição de contribuir para uma comunidade internacional mais equilibrada, com centros de influência e atores mais diversificados. Eu, pessoalmente, acho que isso não somente é legítimo, mas é uma evolução necessária para o mundo.

Dentro do conselho consultivo da UNRWA há vozes e experiências políticas distintas. Por isso, o Brasil é bem-vindo, porque tem uma visão diferente das relações internacionais, muito focada em abordagens pacíficas. O que eu considero muito positivo e necessário hoje no Oriente Médio. A UNRWA oferece alguma dignidade e estabilidade para uma região muito vulnerável, e isso se encaixa bem com os valores que o Brasil promove de direitos humanos.

DW: No Brasil, as comunidades árabes e israelenses convivem em paz. Como o senhor acha que o país pode contribuir para esse debate?

PK: Eu acho a comunidade internacional, incluindo o Brasil, precisa, uma vez mais, se envolver politicamente para solucionar a questão entre Israel e a Palestina. Não importa se um país tem uma posição mais aberta em relação à Palestina ou a Israel, esse não é mais o problema. Não se pode deixar as coisas sem solução por 65 anos. O Oriente médio está se tornando muito instável, e todo mundo tem que se envolver. E o Brasil tem essa abordagem de resoluções de paz, que é uma importante contribuição para essa zona tão instável.

DW: Como foi a reunião com o chanceler Mauro Vieira? Há alguma parceria prevista para 2015?

PK: O Brasil está tendo um papel cada vez mais importante no cenário internacional e tem demonstrado um forte interesse nos assuntos relacionados ao Oriente Médio. Também tem solidariedade profunda com a Palestina. Desde o presidente Lula, e agora com Dilma, há um forte interesse e apoio para a UNRWA e isso é muito-bem vindo.

A visita é parte de um esforço de desenvolver ainda mais essa relação. Principalmente sobre a presença da UNRWA aqui. Estamos estabelecendo parcerias, diplomáticas e financeiras. Em 2014, nós recebemos 11 mil toneladas métricas de arroz, que cobriu todas as nossas necessidades do tipo para o ano. Em 2015 estamos tentando confirmar um acordo para arroz novamente. Queremos desenvolver uma base para contribuições financeiras mais regulares para a agência.

DW: A UNRWA já foi acusada de ter ligações com o Hamas. Como o senhor responderia a essas acusações?

PK: Nós trabalhamos em Gaza, e o Hamas é muito presente e ativo na região. Por isso, as pessoas acham que se você está em Gaza, tem que haver uma conexão com o Hamas. Mas nós somos uma agência humanitária e de desenvolvimento, nós não nos misturamos com política, não apoiamos nenhum lado. Em Gaza, de 1,8 milhão de habitantes, 1,2 milhão são de refugiados palestinos. Então, claro, nós estamos muito presentes e temos muitas atividades. Mas não há nenhuma conexão com o Hamas. Às vezes nós estamos em contato pela nossa segurança, o que é necessário, qualquer agência humanitária precisa fazer isso.

Essa questão surgiu porque, durante a guerra em 2014, armas foram colocadas em escolas vazias da UNRWA em três ocasiões. Então a pergunta surgiu: a UNRWA está colaborando de alguma forma? Claro que não. Aliás, nós descobrimos que as armas foram colocadas lá e nós informamos o mundo disso. Nós denunciamos. Se grupos palestinos ou israelenses estão fazendo algo de errado, nós vamos contar. Nós somos muito rigorosos com a nossa neutralidade. Caso contrário, se tornaria impossível trabalhar na região.

DW: Como é o contato da UNRWA com a comunidade árabe aqui no Brasil?

PK: Nós estamos começando a explorar essas relações com as comunidades brasileiras de origem árabe e muçulmana. As associações muçulmanas no Brasil têm um interesse real e desejo genuíno de ajudar a UNRWA. A Câmara de Comércio ajudou projetos médicos em Gaza, e nós gostaríamos muito de ver isso replicado.

Eu gosto de pensar que as relações da UNRWA com o Brasil podem servir de modelo para o resto da América Latina, porque também há outros países com comunidades do Oriente Médio, como Argentina, Chile e Uruguai. É importante em termos de relações diplomáticas e conscientização social, mas também para apoio financeiro.

Deutsche Welle