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The Observer

Batalha por Aleppo pode ser o final da guerra na Síria

por The Observer — publicado 29/05/2014 04h45, última modificação 29/05/2014 04h57
Forças pró-Assad se preparam para cortar as linhas de suprimento rebeldes e pôr fim a quase dois anos de insurreição na cidade em ruínas
Baraa al-Halabi / AFP
Síria - Aleppo

O pai de um bebê de três meses segura o corpo da garota, resgatado dos escombros em Aleppo após um ataque do governo Assad. Essa e todas as fotos nesta reportagem são de Baraa al-Halabi, da AFP, e foram feitas nesta semana

Por Martin Chulov

Em plena primavera, a batalha final chegou à maior cidade da Síria. De sua posição privilegiada em uma linha de frente no nordeste de Aleppo, o comandante rebelde Abu Bilal passou o último mês olhando para as montanhas a cerca de 1,5 quilômetro de distância que marcam a posição militar síria mais próxima.

Uma grande casa branca, o único edifício que continua de pé, havia sido alvo do tanque em poder de seus homens. Ela brilhava no calor crescente e às vezes figuras pareciam surgir brevemente na névoa distante. Estariam realmente lá?

Mas não havia nada ilusório nos soldados e tanques sírios que apareceram na quinta-feira 22. Pouco depois do amanhecer, a serra e o céu azul-cobalto irromperam com uma intensidade que Bilal e sua unidade não haviam visto em dois anos de luta por Aleppo.

Depois de ganhar vida e então estagnar muitas vezes, a batalha para a qual eles se prepararam – possivelmente o embate definitivo sobre quem prevaleceria na guerra da Síria – dependia dos rebeldes que defendiam a área do xeque Najjar. As fábricas e moinhos do bairro foram por muito tempo uma sala de máquinas da economia síria. Hoje são cruciais para seu destino.

"Eles estão tentando cercar a cidade", disse um líder rebelde em uma sala na casa marcada por tiros. "E desta vez acham que vão conseguir."

Mais tarde naquele dia, os piores temores dos combatentes da oposição estavam prestes a se realizar. Pouco ao norte deles, a prisão central de Aleppo, vista pelos dois lados como um alvo vital, tinha sido invadida por soldados do regime, lutando com um batalhão de irregulares xiitas iraquianos. O controle da prisão permitiria que as forças do governo começassem a fechar a brecha entre o nordeste da cidade e seu enclave no noroeste.

Essa medida comprometeria ainda mais as linhas de suprimento já vulneráveis dos rebeldes e tornaria quase impossível sua campanha para controlar Aleppo.

No interior da cidade velha – um dos mais antigos centros urbanos habitados continuamente no mundo –, as tensões já são visíveis. Quase nada se move aqui. Durante quase dois anos de caos e insurreição, os moradores que permaneceram no leste sob controle rebelde foram às ruas na hora das refeições, dirigiram seus carros, andaram até as mesquitas, fizeram compras nos mercados entre os bombardeios. Não mais.

Aleppo está abandonada e fantasmagórica. Suas ruas parecem mais limpas e bem cuidadas que antes, principalmente porque restaram muito poucos moradores. A única sujeira para limpar é produzida pelos bombardeios regulares de aviões e helicópteros sírios, que destroem casas e edifícios com uma selvageria incansável. Em alguns bairros periféricos a leste, cerca de 30% dos prédios foram destruídos. Bairros inteiros foram esvaziados ou abrigam seus últimos habitantes teimosos, muitos dos quais não têm opção além de ficar.

Abu Mahmoud estava na mesquita quando uma "bomba-barril" [contendo óleo, explosivos e estilhaços, lançada por aeronave] destruiu a metade de sua casa no distrito de Shaar em fevereiro. Ele passou o resto do inverno morando na outra metade, exposto aos elementos e à ameaça constante de bombardeios. Diz que pretende morrer lá.

"O que vou fazer?", perguntou, queixoso, oferecendo chá em xícaras de porcelana que salvou das ruínas. "Esta guerra ficou muito maior que qualquer um de nós. O país está sendo destruído e a região, sugada para um buraco do qual jamais poderá ressurgir. Isso tudo poderia ter sido evitado se as pessoas se comunicassem desde o início, se os líderes reconhecessem que as pessoas têm o direito de esperar coisas deles."

Mais a leste, na direção do aeroporto de Aleppo, que foi retomado pelas forças do regime este ano, Hamid Mahmoud e sua família voltavam para sua casa. Um grupo de meninas lavava o quintal – a água tinha sido religada no início da semana, um dos poucos fatos positivos nesta guerra inclemente. Em um quarto, mulheres mais velhas cuidavam do fogão e no outro único cômodo seis homens estavam sentados em silêncio na escuridão.

"Minha mulher foi morta há quatro dias", disse Mahmoud. "Nós tínhamos nos mudado para Bustan al-Basha [bairro a leste de Aleppo] e uma bomba-barril atingiu nossa casa. Eram 10 da noite e eu arrastei seu corpo para fora do entulho. Ele olha para a frente em silêncio, e as lágrimas brotam enquanto ele descreve como duas meninas muito feridas foram resgatadas por vizinhos. Ambas foram levadas para um hospital na Turquia.

Outros homens, irmãos e primos, pegam seus celulares que usaram para registrar os efeitos do bombardeio: uma horrível coluna de fumaça, gritos e sirenes que parecem muito conhecidos para os que permanecem em Aleppo.

A cerca de três quilômetros dali, os militares sírios e seus apoiadores espreitam. "São libaneses e iraquianos", disse um combatente rebelde. "Eles dizem palavras duras para nós na rádio – estão sempre falando sobre os imames [xiitas] Ali, Hussein e Abas. E quando tentam avançar eles exibem suas bandeiras."

A dimensão cada vez mais sectária da guerra na Síria, e da insurgência que assola o Iraque, não é percebida por Mahmoud, seus irmãos e primos, que dizem nunca ter imaginado encolher-se de medo em suas casas quase dois anos depois que a oposição entrou em Aleppo.

"Pensei que isto terminaria em alguns meses. É inacreditável que as coisas tenham chegado a este ponto e é aterrorizante saber que elas provavelmente vão piorar. Pensamos que nos livrar da Al Qaeda [Isis] seria o início do fim."

A luta para expulsar o Isis, um grupo jihadista virulento e ultrafundamentalista, durou três meses e foi decisiva na batalha por Aleppo, mas pelos motivos errados, como descobriram grupos rebeldes que lideraram a luta.

"Perdemos 550 homens", disse um antigo membro do Liwa al-Tawheed, o maior grupo de oposição na Frente Islâmica, um dos dois blocos militares rebeldes no norte da Síria. "A Frente Islâmica perdeu 2.500. Fizemos isso porque precisávamos. Eles não nos representam. E nos disseram que se os expulsássemos seria mais fácil que outros nos ajudassem. Bem, fizemos isso e veja as coisas agora."

Na direção do centro da cidade, a antiga base do Isis, em um hospital a leste da cidadela, não foi atingida pelos jatos sírios, assim como durante toda a guerra. A base do Tawheed, ao lado, estava em ruínas.

Os rotores de um helicóptero rugiam acima, voando tão alto que ninguém podia vê-lo. Em poucos minutos surgiu um caça a jato, também fora do alcance de mísseis antiaéreos, mesmo que os rebeldes em terra os tivessem.

No final da semana, a batalha pelo xeque Najjar – e por Aleppo – se intensificou. Reforços rebeldes chegavam constantemente à posição de Abu Bilal e a serra em frente fervilhava de tropas sírias, que se aproximavam cada vez mais da artéria principal de Aleppo.

"Depois de tudo isso, não vamos perder", disse um combatente que trabalhou com Abu Bilal.

Indagado sobre como ele e seus companheiros de luta pretendiam vencer, ele encolheu os ombros e sugeriu: "Sabemos que lutamos por uma boa causa. A vitória chega lentamente e de maneiras estranhas."

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