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Internacional

Crise de 2008

Bancos dos EUA receberam empréstimos secretos

por Gabriel Bonis publicado 28/11/2011 15h25, última modificação 06/06/2015 18h57
Banco Central americano financiou 7,7 trilhões de dólares para os seis maiores bancos do país, que aumentaram seus lucros e continuaram pagando bônus a funcionários

O resgate aos bancos durante a crise da bolha imobiliária de 2008 foi maior do que o divulgado pelo governo dos Estados Unidos. Segundo reportagem da revista americana de economia Bloomberg, o Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos EUA, e os grandes bancos do país tentaram esconder detalhes do maior resgate a instituições financeiras da história do país.

A Bloomberg LP, braço da Bloomberg News, ganhou uma ação na Justiça contra o Fed e o grupo dos maiores bancos dos EUA (Clearing House Association LLC), para ter acesso a detalhes dos empréstimos. O processo, que chegou a Suprema Corte, abriu mais de 29 mil paginas de documentos e mais de 21 mil transcrições de gravações do órgão governamental entre 2007 e 2009.

Em 2008, o Fed não informou quais bancos estavam com profundos problemas, sendo que apenas em 5 de dezembro de 2008 as maiores instituições somadas pediram um empréstimo de 1,5 trilhão de dólares. Por outro lado, os banqueiros esconderam os créditos de emergência dos investidores, garantindo os investidores a saúde de suas firmas. Além disso, aponta a Bloomberg, os bancos lucraram cerca de 13 bilhões de dólares tirando vantagem das taxas do Fed, abaixo do mercado.

O comportamento dos bancos foi mantido em segredo pelo Fed até mesmo dos legisladores do país, que na época trabalhavam para aprovar medidas de apoio aos bancos. Em outubro de 2008, o Congresso dos EUA criou o mecanismo Troubled Asset Relief Program (TARP) após a falência do Lehman Brothers - que tornou difícil a aquisição de financiamentos no mercado.

O programa do Departamento do Tesouro emprestou cerca de 700 bilhões de dólares com algumas exigências, como a taxação de 90% sobre os bônus de executivos de instituições que receberam mais de 5 bilhões de dólares que não tivessem devolvido o auxilio até o final de 2009. Enquanto isso, o Fed se comprometeu com 7,77 trilhões de dólares para salvar o sistema financeiro no mesmo período sem nenhuma exigência. Esse valor equivale a mais da metade do que foi produzido no país naquele ano.

Segredo

Integrantes do Congresso ouvidos pela Bloomberg, como o senador democrata por Ohio Sherrod Brown, disseram que se soubessem dos empréstimos a votação para limitar o tamanho dos bancos poderia ter tido um resultado diferente. “Isso é um assunto que pode unir o Tea Party e o Occupy Wall Street. Há legisladores nos dois partidos que mudariam os seus votos agora.”

Além de deixar os legisladores sem informações, o Fed não se manifestou sobre o lobbie dos banqueiros, que após serem salvos da falência, lutaram contra a regulações propostas pelo governo para prevenir o próximo colapso e aceitaram mais dinheiro do Congresso.

Os seis maiores bancos teriam sido responsáveis por 29,4 milhões de dólares em lobbies capazes de mudar a legislação em 2010, contra 22,1 milhões de quatro anos antes.

O Banco Central americano ainda teve papel de destaque na aplicação da TARP, pois auxiliou o Departamento do Tesouro a decidir quais bancos estavam saudáveis o bastante para receber ajuda e quanto ganhariam. Neste cenário, JPMorgan, Bank of America, Citigroup, Wells Fargo & Co., Goldman Sachs e Morgan Stanley receberam 160 bilhões de dólares do governo e mais 460 bilhões do Fed, dinheiro que financiava o crescimento das instituições.

De acordo com a Bloomberg, entre 30 de setembro de 2006 e a mesma data de 2011, houve um aumento de 39% do valor de propriedades dos seis maiores bancos dos EUA. O grupo passou de 6,8 trilhões de dólares para 9,5 trilhões no período.

A bonança com o dinheiro dos contribuintes se prolongou também aos empregados. Os funcionários destas empresas receberam em 2010 mais que o dobro da média dos trabalhadores do país, segundo a Agência de Estatísticas de Trabalho. Os bancos gastaram em compensação 146,3 bilhões de dólares, uma média de 126,3 mil dólares por trabalhador.

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