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Internacional

Integração

Avanço do Brasil assusta vizinhos da América do Sul

por Gabriel Bonis publicado 28/06/2011 17h49, última modificação 29/06/2011 11h27
Investimentos de grandes empresas no continente enfrentam desconfiança. País aposta em "integração regional"

Nas últimas semanas, empreendimentos bilionários de empresas brasileiras em países da América do Sul, que incluem a construção de uma hidrelétrica no Peru e a exploração de potássio na Argentina, foram suspensos ou enviados a consulta popular. Os desentendimentos, envolvendo a Vale e a Eletrobrás, entre outras empresas, teriam como motivação principal o fato de que os investimentos beneficiariam mais ao Brasil do que os locais onde seriam instalados.

A expansão cada vez maior de empresas brasileiras (privadas ou estatais), muitas vezes financiadas pelo Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), para outros territórios começa a despertar, em alguns países do continente, uma espécie de sentimento anti-imperialismo brasileiro.

“Tenho escutado de parlamentares sulamericanos, de esquerda e direita, que o Brasil adota essa postura, mas também ouço de outros que isso não procede”, diz o deputado federal Dr. Rosinha (PT-PR), integrante da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional.

O oferecimento de contrapartidas nas negociações, como transferência de tecnologia, garantias de geração de empregos e a escolha de investimentos que interessem à população local, poderia evitar desconfortos na América Latina, segundo o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), membro da mesma comissão. “As empresas brasileiras devem ter sensibilidade política, econômica e social e não visar apenas o lucro”, aponta.

A atuação supostamente agressiva de algumas dessas companhias em outros países da região é apontada como uma das principais causas de atritos. “Esse comportamento visando somente o lucro gera problemas sociais”, afirma Rosinha. No entanto, os esforços do governo brasileiro para a integração do continente, como as ações no Mercosul e na União de Nações Sul-Americanas (Unasul) – organização formada pelos 12 países da América do Sul visando melhores políticas sociais, educação e avanços na infraestrutura -, são elogiados, segundo o deputado.

Porém o projeto Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), que pretende melhorar as condições estruturais do países construindo gasodutos, oleodutos, hidroeléticas e estradas conectando a região, é acusado por Valente de seguir os interesses das grandes empresas. “Muitos empreendimentos estão atropelando interesses de comunidades locais”.

Liderança

Com a sétima economia do mundo e o maior território da América do Sul, o Brasil desponta como o líder do continente e, apesar das desconfianças de alguns vizinhos, é tido pelos países da região como uma possível voz em defesa dos interesses locais. “Na semana passada estive no Uruguai e o presidente José Mujica me disse que o Brasil tem que liderar o desenvolvimento da América do Sul”, conta Rosinha.

A região, que precisa de investimentos, ainda não possui uma agência de fomento exclusiva. Rosinha defende que o BNDES deveria se internacionalizar e assumir esse papel, capitalizando empresas locais. Uma alternativa que Valente contesta, por, segundo ele, ser onerosa demais para o Brasil, pois o banco é capitalizado por títulos do tesouro nacional com juros de quase 13% estabelecidos pela Selic.

“Quem está pagando a conta é o povo brasileiro com a enorme dívida pública e gasto estratosférico dos juros, que vai atingir 653 bilhões de dólares em 2011, segundo previsões do governo”.

A criação de um banco para a América do Sul também é uma opção, embora o Brasil encare essa proposta com maior distância, por ter interesse em expandir instituições financeiras fortes, como o Banco do Brasil e a Caixa.

Para o deputado do PSOL, uma integração eficiente entre os países da região deveria adotar uma lógica solidária. “O Mercosul se mantém estacionário, porque só defende o interesse das empresas, enquanto deveria discutir também direitos sociais e trabalhistas equânimes entre os Estados”, diz. “O Brasil deve intervir mais equilibradamente para garantir que as empresas nacionais que investem em outros países realizem um regime de colaboração comprometido com o desenvolvimento do local onde se instalarem”.

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