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França

Atentado terrorista deixa 12 mortos em Paris e leva 100 mil às ruas

por Redação — publicado 07/01/2015 11h33, última modificação 07/01/2015 22h40
O alvo foi a redação do jornal satírico 'Charlie Hebdo', que fora ameaçada após publicar caricaturas de Maomé; milhares de pessoas fizeram manifestações na França, na Bélgica e no Reino Unido
Jeff Pachoud/AFP
manifestação paris

Em silêncio, milhares de pessoas foram à praça da República, no centro de Paris, protestar contra o massacre

Mais de 100 mil pessoas se mobilizaram para protestar, em diversas partes da França, contra o massacre que matou 12 pessoas do jornal Charlie Hebdo nesta quarta-feira 7. O atentado foi realizado às 11h30 do horário local (8h30 em Brasília) por um grupo de homens fortemente armados, aparentemente profissionais, que invadiu a redação do jornal e fugiram após o crime. Conhecida por suas charges irônicas sobre figuras políticas e religiosas, a publicação se tornou alvo de terroristas muçulmanos após publicar charges de Maomé, o profeta do islã, e recebeu uma série de ameaças ao longo dos últimos anos.

Os manifestantes também deixam suas casas em outros pontos da Europa. Em Bruxelas, na Bélgica, 500 foram para a frente do parlamento Europeu. Em Londres, no Reino Unido, milhares foram parar no Trafalgar Square, no centro. O chamado veio das redes sociais, que também recomendava o uso de um cartaz escrito "Je suis Charlie", ou Eu sou Charlie em francês.

Na noite de quarta, policiais realizavam uma operação antiterrorista em Reims, a cerca de 150 km de Paris, em busca dos suspeitos. Até as 22h30, havia boatos de que estes tinham sido presos, o que logo foi desmentido pelas autoridades. De acordo com o jornal Le Monde, são procurados dois irmãos, de 32 e 34, e um terceiro homem, de 18 anos.

O ataque à Charlie Hebdo

Segundo fontes policiais, os autores do ataque gritaram "Vingamos o Profeta!", em referência a Maomé. Ao abandonar o prédio, os agressores atiraram contra um policial, atacaram um motorista e atropelaram um pedestre com o carro roubado. Vídeos amadores mostram ao menos dois homens, mascarados, vestidos de preto e portando armas automáticas, trocando tiros com policiais nas ruas da capital francesa. Em um dos vídeos, é possível ouvir os homens gritando allahu akbar, termo árabe que significa "Deus é grande", e um deles executa um policial ferido, caído no chão, com um tiro à queima roupa na cabeça.

"Ouvi disparos, vi pessoas encapuzadas que fugiram em um carro. Eram pelo menos cinco", declarou à AFP Michel Goldenberg, que tem um escritório na rua Nicolas Apert, onde fica a sede do jornal. Entre os mortos estão o diretor de redação Stéphane Charbonnier, o Charb, e três renomados chargistas: Jean Cabut, o Cabu, Georges Wolinski e Bernard Verlhac, conhecido como Tignous.

De acordo com informações da polícia francesa, após a invasão à redação da revista, localizada no oeste de Paris, três homens entraram em um carro em que um motorista os aguardava para a fuga. Eles seguiram para a Porte de Pantin, no noroeste da cidade, onde abandonaram o primeiro carro e roubaram um segundo. A polícia iniciou uma busca pelos agressores pelas ruas de Paris e as autoridades pediram à população que evitasse circular e utilizar transportes públicos. Após o ataque, todas as redações de jornais baseadas em Paris foram colocadas sob proteção policial, assim como templos religiosos e escritórios do governo.

O presidente da França, François Hollande, dirigiu-se até o local do atentado e confirmou tratar-se de um ataque terrorista, o mais violento registrado na França em 40 anos. "É um atentado terrorista, não há dúvida", disse Hollande, definindo o atentado como "um ato de uma barbárie excepcional".

Segundo fontes policiais, os homens envolvidos no ataque contra a revista demonstraram calma, determinação e eficiência, sinais de que eles teriam passado por treinamento militar intenso. "Vemos claramente pela maneira que portam suas armas que agem discretamente, bem ao estilo militar, com frieza. Eles receberam treinamento. Eles não agiram por impulso", afirmou uma fonte policial.

"O mais impressionante é a sua atitude. Eles foram treinados na Síria, no Iraque ou em outro lugar, talvez até mesmo na França, mas o certo é que eles foram treinados", enfatizou, destacando também o sangue-frio dos terroristas.

 

Atentado na França
Imagem de vídeo amador mostra policial sendo executado por um dos terroristas nesta quarta-feira 7, em Paris

Em novembro de 2011, após publicar uma caricatura de Maomé em sua capa, com a manchete "Charia Hebdo", referência à sharia, a lei islâmica, a redação do Charlie Hebdo foi atacada com uma bomba incendiária. O Maomé caricaturado pela Charlie Hebdo em 2011 prometia "100 chicotadas se você não morrer de rir". A edição, dizia a revista, era 'editada' por Maomé.

Em setembro de 2012, o Charlie Hebdo publicou novas caricaturas de Maomé. Na capa, o profeta muçulmano aparecia em uma cadeira de rodas, empurrada por um judeu ortodoxo, sob o título "Intocáveis 2". Era uma referência ao filme francês Untouchables, estrelado por François Cluzet e Omar Sy, que contava a história da amizade entre um homem rico e doente e seu cuidador, um imigrante. Dentro da publicação, novas caricaturas exibiam Maomé nu.

Retratar Maomé é um ato problemático, pois as imagens do profeta são consideradas proibidas por muitos muçulmanos. Para muitos líderes religiosos sunitas, as representações visuais de Maomé poderiam provocar “idolatria” e, por isso, são proibidas.

Edição desta quarta fazia referência ao islã

O Charlie Hebdo fez a divulgação em sua edição desta quarta-feira 7 do novo romance do controvertido escritor Michel Houellebecq, um dos mais famosos autores franceses no exterior. A obra de ficção política fala de uma França islamizada em 2022, depois da eleição de um presidente da República muçulmano. "As previsões do mago Houellebecq: em 2015, perco meus dentes... Em 2022, faço o Ramadã!", ironiza a publicação junto a uma charge de Houellebecq.

Com informações da AFP