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Battisti

As provas irrefutáveis

por Paolo Manzo — publicado 05/09/2011 11h24, última modificação 05/09/2011 11h24
Em livro recém-publicado, o magistrado italiano Giuliano Turone apresenta a reconstituição definitiva do Caso Battisti ao demonstrar que o ex-terrorista mente

Às muitas perguntas que ainda cercam a negativa à extradição de Cesare Battisti responde em definitivo o magistrado Giuliano Turone, autor de O Caso Battisti (Garzanti, 2011). Trata-se de uma reconstrução tão precisa e detalhada, a merecer a apreciação positiva de Giorgio Napolitano, primeiro presidente comunista na história da República italiana, em carta aberta de agradecimento publicada no diário italiano La Stampa no dia 31 de agosto.

Giuliano Turone é quem, em 1981, em parceria com o colega Gherardo Colombo, descobriu as listas da loja maçônica P2. Procurador de Justiça no Tribunal Internacional de Haia, hoje leciona Técnicas Investigativas na Universidade Católica de Milão.

CartaCapital:Napolitano o elogia pela precisa reconstrução do Caso Battisti. Por que o senhor escreveu este livro?

Giuliano Turone: O Caso Battisti foi deveras muito complexo: 53 grossos volumes do processo, uma dezena de sentenças, muitos tecnicismos. Agora, se de um lado isso é a confirmação de quanto seja rigoroso o trabalho da magistratura italiana, de outro percebi que quem não conhece a fundo o assunto terá dificuldade para ter uma ideia clara, por causa, justamente, da abundância das informações técnicas. É o que senti ao percorrer novamente todo o caso judiciário, traduzindo-o para uma linguagem acessível a todos e sempre mantendo separados os fatos das opiniões.

CC:Trabalho importante para a finalidade de uma correta reconstrução histórica...

GT: A memória histórica deve assentar suas bases sobre informações corretas e não sobre uma poeira de erros. Cuidei de ficar ligado apenas aos fatos, deixando de lado qualquer sensação pessoal.

CC:Em seu livro, o senhor escreve que “se os anos atormentados do terrorismo não foram analisados e percebidos em toda a própria trágica complexidade no exterior, é necessário também reconhecer que nem na Itália iniciou-se uma real e profunda reflexão histórica sobre os anos de chumbo...”

GT: Já disse a mim mesmo que, antes de levar os países amigos, vizinhos e distantes a compreender certos fatos, é necessário antes de tudo que nós mesmos passemos a compreendê-los. Assim, encontrei outra razão para escrever este livro: contribuir, dentro dos meus alcances, para preencher não apenas a lacuna para o setor externo, mas também para o interno. E também, naturalmente, as lacunas minhas, pessoais.

CC: Battisti não foi extraditado. Qual é sua reação à decisão do presidente Lula, avalizada ao cabo também pelo Supremo Tribunal Federal?

GT:O meu livro trata do caso até a libertação. Veja bem, no livro não acuso ninguém, e tampouco o Brasil, país pelo qual tenho grande simpatia. Penso, porém, que os brasileiros tenham sido iludidos por alguém que chegou da França e divulgou informações que não correspondem à realidade.

CC: Refere-se a quem?

GT: A Fred Vargas, a escritora que chegou ao Brasil em 2009 com a história das procurações falsas, que já havia sido desmontada pela Corte Europeia dos Direitos do Homem e pelo Conselho de Estado francês.

CC:De que se trata?

GT:Battisti sustenta que o seu advogado, Giuseppe Pelazza, de Milão, que pelas atas processuais resulta tê-lo defendido durante todo o transcorrer do procedimento até a sentença definitiva, teria “jogado contra ele”. Pena, porém, que o próprio Battisti, em carta escrita na prisão da Papuda, endereçada ao STF, diga que ele mesmo, antes de sua fuga em 1981, teria enviado ao seu advogado italiano, por meio de um antigo companheiro, algumas folhas com sua assinatura em branco. Mas, então, não se entende por que alguém teria forjado documentos para efetivar a falsa nomeação como defensor de confiança daquele advogado. Justamente Pelazza, que sempre foi o seu defensor de confiança. De fato, foi a ele que Battisti fez entregar folhas assinadas em branco. Battisti e seus defensores recorreram no Brasil à velha versão das procurações falsas, acusando Pelazza de ter falsificado as procurações, acusação já desmontada em Paris e em Bruxelas. Simples: porque as assinaturas eram iguais, já que o mesmo Battisti, antes de fugir, tinha-lhe enviado as folhas em branco assinadas por ele.

CC:Por que Pelazza nunca falou?

GT: Acredito que ele tenha mais de um freio para falar mal de seu assistido. Contatado, Pelazza admitiu: “Nesse ponto nem eu sei se sou, ainda, o seu defensor ou não. Colocou em discussão todo o meu trabalho”.

CC:Battisti declarou que não se arrepende de nada porque tinha saído dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC) na época dos homicídios que lhe foram atribuídos.

GT: Battisti foi preso no decorrer de uma batida em 26 de junho de 1979, juntamente com outras quatro pessoas. Quando ele viu os policiais irromperem, ele e Marco Moretti (outro membro dos PAC) tentaram jogar pela janela uma bolsa, mas foram bloqueados: na bolsa havia dois revólveres com a numeração raspada, vinham da grande rapina de uma loja de armas consumada dia 24 de janeiro de 1979. O primeiro e o último homicídio dos PAC, aqueles de Santoro (6 de junho de 1978) e de Campagna (19 de abril de 1979) foram cometidos antes de sua prisão.

CC:Mas Battisti sustenta que não se arrepende porque já estava “fora da organização”.

GT:Os documentos falam claramente. Battisti estava na cadeia, no início de 1977, em Udine, para descontar um residual de pena por uma rapina nos Correios. Ali conhece Massimo Cavallina, o ideólogo dos PAC, pronto a aproximá-lo da ideia de que o ladrão “é um revolucionário in nuce”. Em maio de 1977, Battisti sai da cadeia, e no fim de dezembro de 1977 sai Cavallina. Os dois entram nos PAC no início de 1978, já que o primeiro episódio pelo qual Battisti é condenado é uma rapina praticada justamente naquele período. E ele ficou no grupo terrorista até o momento de sua prisão.

CC: Battisti sustenta que o seu único acusador é o arrependido Mutti.

GT:No caso do homicídio de Santoro, além da confissão de Mutti há vários indicativos a levar certeza. Um deles, curiosamente, escapou sem querer ao dissociato Cavallina (desassociado – os dissociati, diferentemente dos colaboradores de Justiça admitiam somente as próprias responsabilidades sem revelar os nomes dos cúmplices), numa declaração formulada em debate no decorrer da audiência de 19 de outubro 1988, quando acabou por admitir que um dos autores do homicídio era Battisti. Quando o presidente do tribunal perguntou sobre quem havia tido a ideia de matar Santoro (responsável pelo presídio de Udine), Cavallina respondeu: “A ideia não foi só minha, que estava preso lá”. O único integrante dos PAC detido em Udine, além de Cavallina, era Battisti.

CC:Outras evidências?

GT: O depoimento de Maria Cecilia Barbetta, na época companheira de Battisti, que declarou: “Na primavera de 1979, falando com Battisti, ao me contar o efeito que lhe fazia matar uma pessoa, referiu-se ao homicídio de Santoro e indicou a si mesmo como o autor”. Declarações confirmadas em debate: “Cesare disse-me que efeito produz ver o sangue sair de um homem atingido”. Mas sempre em relação ao homicídio de Santoro há outras relações individualizantes a respeito de Battisti, aquelas de Massimo Tirelli e de Alessandro Berzacola (mais dois membros dos PAC).

CC:O que dizem?

GT: Berzacola revela, por exemplo, que no período  em que Battisti era hóspede dele em Cisano, isso no outono-inverno de 1981, “teve umas tiradas com outros dois membros dos PAC, a respeito de beijos trocados em determinada ocasião com Enrica Migliorati (outra componente dos PAC), como se fossem namorados”. E Berzacola prossegue: “Naquela momento não compreendi o sentido da história, também porque me maravilhava o fato de que os dois trocassem tais efusões, não existindo entre eles qualquer ligação afetiva; poucos meses depois, lendo no jornal  a notícia de que  o casal que estava parado  na proximidade da moradia de Santoro fingia trocar entre si  carinhos amorosos, lembrei-me daquelas tiradas”.

CC: Battisti seria condenado hoje pelo homicídio de Santoro pelas leis italianas?

GT: Sim.

CC: Quem são, além de Mutti e dos outros arrependidos, os elementos que  indicam Battisti como responsável material do homicídio de Campagna?

GT: Muitos, começando por Stefano Veronesi, um jovem de Milão, que tinha hospedado Sante Fatone (membro dos PAC) quando homiziado. Esse jovem, precedentemente, tinha se oferecido para esconder em sua casa armas para os PAC e, na primavera de 1979, hospedara também Battisti. Um dia, em 1982, Fatone viu no armário da casa de Veronesi uma jaqueta de rena e, querendo vesti-la, foi desaconselhado por Veronesi. De fato, disse-lhe, tratava-se da jaqueta “famosíssima” que Battisti usara ao matar Campagna, conforme as testemunhas oculares Bruni e Manfredo.

CC:Battisti afirma que as provas contra ele foram obtidas por meio de tortura.

GT: No livro enfrento também a questão das “torturas” denunciadas, mas somente num primeiro momento, também pelos familiares de Fatone e de Bitti (outro membro dos PAC). O que Battisti afirma não corresponde à verdade objetivamente.

CC:Segundo o seu parecer, por que os brasileiros não levaram em conta as explicações da Itália?

GT: Penso, e escrevo também no meu livro, que os brasileiros podem ter sido desviados pelo fato de que Battisti é um escritor originário de um país atual-mente a amargar uma grave crise. Como já escreveu de forma bastante clara o jornalista francês Eric Jozsef, “é provável que a opinião pública estrangeira não consiga imaginar um escritor, mesmo sendo ex-terrorista, extraditado por fatos que remontam a 30 anos atrás  num país governado por um primeiro-ministro que não perde ocasião para atacar os juízes. Tudo isso com uma parte da oposição que clama contra o regime e denuncia  um novo fascismo na Itália”. “Mas é também verdade – explica Jozsef – que “o que parece sempre mais intolerável, no Caso Battisti, é a teimosia do ex-militante dos PAC de sustentar, ainda hoje, de ter fugido de um ‘estado  de exceção’ e de ser uma vítima inocente, apesar das testemunhas e das sentenças contra ele”.

CC:Talvez, com outra Itália, com outra imagem da Itália no mundo, as coisas poderiam ter ido diferentemente?

GT: Não cabe a mim dar pareceres sobre a política italiana, o certo é que, nesses últimos anos, a Itália perdeu credibilidade internacional

CC:O senhor leu os romances de Battisti?

GT:Li Ma Cavale, no qual fala de sua fuga. Os outros livros não, não sou crítico literário.

CC:Falemos agora dos companheiros de Battisti. O que se deu com eles?

GT:Em muitos casos tiveram um fim menos traumático daquele que se poderia imaginar. De todos aqueles que fizeram parte dos PAC e que pagaram a própria dívida à Justiça, cumprindo suas penas e conseguido obter a semiliberdade, quase todos hoje se dedicam ao voluntariado, quase todos tiveram uma espécie de impulso, no sentido do resgate. E isso é muito positivo. É um ulterior sintoma do Estado de Direito, porque, se não houvesse um Estado de Direito e se os processos não tivessem seguido uma linha de equidade e civilização, não haveria esse tipo de relativa serenidade. Mas Battisti permanece fora desse coro, porque nunca poderá jogar atrás das costas os anos de chumbo.

CC:Por quê?

GT: Porque ele diz que nunca derramou sangue e, pelo contrário, sangue ele derramou. Para jogar às suas costas esses fatos é necessário realizar algo positivo para serenar o clima. E então sim, pode-se superar o tormento, impossível conseguir sem metabolizar o que aconteceu.

CC:Battisti afirma que deseja se dedicar ao voluntariado, criando no Brasil uma ONG.

GT: Não sei que atividade Battisti pretende desenvolver, mas a premissa é que ele não pagou a conta, e os outros pagaram a conta.

CC: No lugar de Battisti, o senhor faria o quê?

GT: Faria o que escrevi no final do livro, na anotação em que falo sobre como superar os anos de chumbo. Diria a Battisti que a sua prisão perpétua, pelo benefício da Lei Gozzini, não seria muito diferente dos 30 anos de reclusão a que foram sentenciados Sebastiano Masala, Gabriele Grimaldi e Giuseppe Memeo (todos eles companheiros nos PAC). E então chamaria a sua atenção para o fato de que esses seus três companheiros não tiveram grandes vantagens com a desassociação, mas saíram da prisão relativamente cedo, porque usufruíram dos benefícios de leis consistentes também para os condenados à prisão perpétua. Gostaria de sugerir a Battisti de contatar possivelmente Giuseppe Memeo, que era talvez seu companheiro mais íntimo naquela época, e perguntar por que ele e Masala disseram, em 2009, à agência Ansa, que sua atitude “não ajuda, passados os anos, o debate para poder superar aquela trágica história que tantos lutos e sofrimentos tem provocado. E ainda gostaria de levá-lo a considerar que as coisas evoluem, mudam, não permanecem imóveis e imutáveis.

CC:Em que sentido?

GT: As coisas mudaram na França, onde parecia que a Doutrina Mitterrand o teria protegido para sempre, pelo contrário, em certo momento a ordem de extradição chegou. Mas a situação poderia mudar também no Brasil. E poderia mudar também na Itália. •

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