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Internacional

Nas urnas

As eleições mais importantes de 2014

por José Antonio Lima publicado 06/01/2014 17h03
Nos EUA, Obama pode virar um "pato manco" no fim do ano. Na Índia, maior eleição do mundo deve ter 788 milhões de votantes
Prakash Singh / AFP
Rahul Gandhi

Rahul Gandhi, número dois o Congresso Nacional Indiano, deve ser o candidato do partido para o posto de premier da Índia

Depois de um ano em que Angela Merkel reafirmou seu poder na Alemanha e a eleição presidencial do Irã criou uma chance de pacificar uma das várias crises no Oriente Médio, outros pleitos podem afetar os rumos do mundo em 2014.

Três dos quatro países mais populosos do planeta vão às urnas neste ano. Na Índia, a corrupção deve ser o tema central da escolha do novo primeiro-ministro. Nos EUA, as eleições legislativas de meio de mandato vão acirrar ainda mais a rivalidade entre democratas e republicanos e afetar o mandato de Barack Obama. Na Indonésia, maior país muçulmano do mundo, um novo presidente tentará colocar a economia no rumo certo.

Na América Latina, a Colômbia vai se mostrar dividida entre o atual presidente, Juan Manuel Santos, e seu antecessor, Álvaro Uribe, enquanto no Uruguai José Mujica deve fazer seu sucessor. Na África, a Líbia tenta estabelecer as bases de uma inédita democracia em um país de maioria árabe, enquanto a África do Sul tenta consolidar seu regime democrático. Na União Europeia, o Parlamento Europeu terá uma nova configuração, que pode trazer à tona alguns dos lados mais horrendos do bloco.

Abaixo, os oito principais pleitos do ano. As eleições legislativas e presidenciais do Brasil não entram na lista pois são, obviamente, as mais importantes para o brasileiro.

1) Estados Unidos – eleição legislativa

Depois de um 2013 em que o Congresso dos Estados Unidos teve seu ano mais inoperante desde a década de 1940, 2014 deve ser ainda pior. Engajados em uma disputa ideológica com contornos quase existenciais, republicanos e democratas devem passar os próximos meses se digladiando acerca de temas controversos, como o controle do porte de armas e a reforma no sistema de imigração, sem chegar a um acordo a respeito deles.

Isso porque nos próximos meses os parlamentares devem continuar a defender ideias radicais na tentativa de garantir os votos de seus eleitores para o pleito de novembro. As eleições, conhecidas como de meio de mandato, devem afetar duramente a administração Barack Obama, que depois disso terá ainda mais dois anos para completar seu mandato. Se depois de novembro o presidente democrata se deparar com um Congresso dominado por republicanos, será desde então um presidente “pato manco”, incapaz de realizar reformas que mudem os rumos do país.

2) União Europeia – eleição parlamentar

Entre 22 e 25 de maio os eleitores dos 22 países da União Europeia vão às urnas escolher os novos integrantes do Parlamento Europeu. Tradicionalmente, essas eleições costumam servir para os eleitores expressarem sua insatisfação com a UE, vista cada vez mais pelo eleitor comum como um antro de burocratas desconectados da realidade de um continente abalado pela crescente desigualdade social e por altos índices de desemprego.

Este contexto pode fazer com que candidatos extremistas (à esquerda e, principalmente, à direita) recebam muitos votos e ganhem palanque para divulgar suas ideias radicais. O possível radicalismo do Parlamento Europeu pode criar instabilidade, pois a partir deste ano o legislativo deve eleger o presidente da Comissão Europeia, cargo que em tese serve como o “Executivo” da UE. Ocorre que muitos governos nacionais, como o da Alemanha, exigem que a escolha seja aprovada por eles. Assim, um parlamento europeu radical poderia colocar a EU em pé-de-guerra com os governos nacionais e ampliar a desilusão dos eleitores com o projeto de integração.

3) Índia – eleição geral

A maior democracia do mundo, com cerca de 788 milhões de eleitores, vai às urnas no primeiro semestre de 2014, obrigatoriamente antes de 31 de maio. Manmohan Singh, primeiro-ministro desde 2004, anunciou em 3 de janeiro que não estará à frente de seu partido, o Congresso Nacional Indiano, nas eleições. Essa missão deve caber a Rahul Gandhi (sem relação com o líder pacifista Mahatma Gandhi), cuja família controla o partido há décadas e busca agora livrar a legenda da imagem de corrupta adquirida nos últimos anos.

O grande adversário do Congresso Nacional Indiano será o partido Bhartiya Janata, comandado pelo líder nacionalista Narendra Modi e que conseguiu importantes vitórias em recentes eleições regionais.

Outra força importante nas eleições deve ser o partido Aam Aadmi, liderado por Arvind Kejriwal e fundado sobre uma plataforma anticorrupção. Criado em 2012, o partido obteve o segundo lugar nas eleições de Nova Déli, a capital da Índia, resultado que catapultou a legenda para o cenário nacional.

4) Colômbia – eleição geral

Em março, os colombianos elegem um novo Congresso. Dois meses depois, voltam às urnas para o pleito presidencial. Juntas, as duas eleições devem institucionalizar a polarização política que configura o cenário colombiano nos últimos anos.

A estrela das eleições legislativas deve ser o ex-presidente Álvaro Uribe, linha-dura que se opõe ao acordo de paz com os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Uribe vai encabeçar a lista de senadores de seu partido e deve ser eleito com facilidade. No pleito presidencial, Juan Manual Santos, candidato da coalizão Unidade Nacional, buscará a reeleição e é o favorito. O candidato presidencial de Uribe deve ser o ex-ministro da Fazenda Óscar Iván Zuluaga, que por enquanto parece ter poucas chances.

5) África do Sul – eleições gerais

Em 2014, pela quinta vez desde o fim do regime segregacionista do Apartheid e pela primeira vez após a morte de Nelson Mandela, a África do Sul vai às urnas escolher um novo Parlamento e um novo presidente. O Congresso Nacional Africano, o partido de Mandela, é liderado pelo atual presidente do país, Jacob Zuma, um líder controverso que aposta na história do partido para superar as denúncias de corrupção e o aumento da desigualdade social para se reeleger.

O domínio do CNA sobre a política sul-africana, entretanto, não é mais uma certeza. O principal adversário do partido deve continuar a ser a Aliança Democrática, fundada a partir da luta dos brancos contra o Apartheid e liderada pela ex-prefeita da Cidade do Cabo Helen Zille. Ataques duros ao CNA devem partir do Guerreiros da Liberdade Econômica, sigla formada por Julius Malema, ex-líder da Juventude do CNA. Outros partidos fundados por ativistas anti-Apartheid, como o Agang e o África do Sul em Primeiro Lugar, podem surpreender e romper com o domínio do partido de Mandela.

A África do Sul é observada de perto pois apesar de todos os seus problemas é um raro bastião de democracia no continente africano.

6) Líbia - eleição constituinte

Em fevereiro, os líbios escolhem 60 representantes da Assembleia Constituinte, grupo que terá a missão de criar o documento base do país. A tarefa não será fácil, pois será preciso conciliar os interesses das três províncias que formam o país (Tripolitânia, Cirenaica e Fezan) além das diversas minorias líbias.

O trabalho constituinte será supervisionado pelo Congresso Nacional Geral, instância máxima política da Líbia, que em dezembro estendeu seu próprio mandato por mais um ano. A extensão foi necessária pois o Congresso interino não conseguiu cumprir sua escala de trabalho, que deveria terminar no começo de 2014 com o referendo constitucional e eleições legislativas. A expectativa de observadores da Líbia gira em torno da capacidade que o parlamento, dividido entre seculares e adeptos do islã político, terá para controlar o processo constituinte e a onda de violência iniciada por milícias armadas que atuaram na derrubada de Muammar Khadafi, em 2011.

7) Indonésia – eleição presidencial

Assim como o Brasil, a Indonésia tem uma plataforma de exportação baseada em commodities. O país, assim, se beneficiou tremendamente da alta dos preços de produtos como carvão, borracha e minerais após a crise iniciada em 2008. Com a queda das commodities nos últimos anos, uma infraestrutura atrasada e uma indústria fraca, a economia da Indonésia vem experimentando dificuldades recentemente.

É neste cenário que o país vai às urnas em julho para eleger o sucessor de Susilo Bambang Yudhoyono, atual presidente, que não pode mais se candidatar. O Partido Democrático, do atual presidente, não conseguiu formar um líder capaz de seguir seus passos e deve ter muitas dificuldades no pleito. Isso deve abrir espaço para o Partido Democrata da Indonésia-Luta, cuja provável candidato, Joko Widodo, aparece como um dos favoritos.

Além de ser uma importante economia emergente e ter a quarta maior população do mundo, a Indonésia é observada de perto pelos analistas pois é, ao lado da Turquia, um dos único países de maioria muçulmana onde vigora um regime democrático.

8) Uruguai – eleição geral

Eleito em 2009, José Mujica, o homem que vem redefinindo a esquerda latino-americana, não poderá concorrer a um novo cargo de presidente do Uruguai no pleito de outubro. Ainda assim, a Frente Ampla, sigla que em 2005 rompeu o domínio dos partidos Colorado e Nacional na política uruguaia deve continuar no governo. Segundo as pesquisas mais recentes, a FA lidera a corrida presidencial (superando 40% das intenções de voto) com qualquer um dos candidatos que apresente: a senadora Constanza Moreira ou o antecessor de Mujica, Tabaré Vázquez. A oposição, entretanto, conta com um desgaste de quase dez anos de governo da Frente Ampla e pode aproveitar o significativo número de indecisos (que chegam a 15%) para retomar o poder.