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Oriente Médio

Apoio a Assad é prioridade para o Irã

por Deutsche Welle publicado 01/10/2015 16h08, última modificação 02/10/2015 09h18
Um ponto é intocável para o regime em Teerã em negociações para a paz na Síria: Bashar al-Assad deve ficar no poder. Exigência evidencia discurso afinado entre Irã e Rússia
HO / Sana / AFP
Bashar al-Assad

Assas durante oração matinal na mesquita Al-Adel, em Damasco, em 24 de setembro

Por Shabnam von Hein

Na Assembleia Geral das Nações Unidas, o Irã deixou claro que pretende participar dos esforços internacionais para uma solução do conflito na Síria, mas que descarta a saída do ditador Bashar al-Assad. Assim, os iranianos se posicionam ao lado da Rússia nos esforços divergentes da comunidade internacional para conter o "Estado Islâmico" (EI) e encontrar uma solução para a guerra civil síria.

"Nós [Irã e Rússia] estamos de acordo que o governo em Damasco não deve ser enfraquecido agora", afirmou o presidente iraniano, Hassan Rohani, antes de seu discurso no plenário da ONU. Rohani afirmou em seguida que o Irã estaria disposto a apoiar seus países vizinhos na luta contra o terrorismo e na "preparação do caminho para a democracia", tanto na Síria quanto no Iêmen.

Em seu discurso, o presidente iraniano não se referiu diretamente a Assad. Um dia antes, no entanto, ele assinalou que a expulsão do governante transformaria a Síria num "paraíso para terroristas".

"Pode-se pensar sobre uma reforma do governo na Síria, mas isso não deve ter precedência, a prioridade máxima é a luta contra o terrorismo", afirmou Rohani. Em entrevista à emissora de TV americana CNN, ele afirmou: "Não existe outra solução que não seja fortalecer a autoridade central e o governo [da Síria]."

Estreita colaboração com a Rússia

Teerã continua a não abdicar da sua tradicional aliança com a Síria e seu governante xiita-alauíta. "A boa relação com o governo xiita de Assad mostra a força da influência iraniana na região. Ao mesmo tempo, a Síria é uma importante ponte logística para o apoio ao movimento xiita Hisbolá no Líbano. O fato de que um amigo do Irã, Assad, esteja no poder na Síria fortalece a posição de negociação de Teerã perante as potências regionais e mundiais", explica Kamran Matin, professor de Relações Internacionais na Universidade de Sussex, na Inglaterra.

O discurso afinado entre o Irã e a Rússia nas Nações Unidas não surpreende. Em meados de setembro, o general Kassem Suleimani, comandante das Forças al-Quds, viajou pela segunda vez a Moscou em curto espaço de tempo. Essa unidade de elite da guarda revolucionária iraniana realiza missões especiais fora do país. "Nos últimos anos, Irã e Rússia têm combinado sua política para o presidente Assad", explica Mohsen Milani do Centro de Estudos Estratégicos e Diplomáticos da Universidade do Sul da Flórida, nos EUA. "Segundo a mídia, Suleimani já é há muitos anos responsável por operações iranianas na Síria", completa.

Nos últimos dois anos, fotos e reportagens sobre Suleimani na mídia iraniana têm mostrado o comandante como um dos principais líderes das milícias xiitas na luta contra o grupo terrorista "Estado Islâmico" no Iraque e Síria. Na imprensa americana, o general é considerado um dos homens mais importantes do Oriente Médio, um articulador na guerra civil na Síria. O que chama a atenção é que a Rússia passou a fortalecer a sua presença militar na Síria após a visita de Suleimani a Moscou.

Temor de crescimento do EI

"Nos últimos meses, o Exército sírio teve que suportar várias derrotas", afirma Matin. Segundo ele, o Exército de Assad não oferece quase nenhuma resistência ao EI. "Se o regime sírio se esfacelar, o EI seria a única força na Síria que poderia tomar o poder. Um súbito colapso do regime sírio teria consequências devastadoras na região", adverte o cientista político de Sussex.

Aparentemente, os Estados Unidos também já chegaram a essa conclusão. "Conversar com funcionários do governo iraniano sobre a Síria faria sentido na atual situação", declarou a vice-secretária de Estado Wendy Sherman pouco antes do início da Assembleia Geral da ONU. O chefe do Departamento de Estado, John Kerry, afirmou após encontro com o colega iraniano, Mohammed Javad Zarif, que vê esta semana na Assembleia Geral da ONU como uma "oportunidade importante para uma série de países desempenharem um papel importante na solução dos problemas mais difíceis do Oriente Médio."

No início de setembro, Zarif já havia falado sobre um novo plano de paz para a Síria, que o Irã quer levar adiante ao lado da Rússia. A reconciliação nacional na Síria deve ser possibilitada em nível nacional por meio de eleições democráticas, teria afirmado o ministro iraniano do Exterior.

O teor desse plano ainda é desconhecido. "Eu não sei como o Irã vai querer acabar com a guerra civil sangrenta na Síria. Mas o principal objetivo do país continua sendo a manutenção de um regime sírio pró-iraniano – com ou sem Assad", avalia Milani. O especialista acredita que, no final, o Irã também vai se mostrar disposto a conversar sobre o destino de Assad como parte de um plano de paz.

Deutsche Welle