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Internacional

Entrevista - Jonathan Metzl

"Americanos permitem a insanidade da violência armada"

por Deutsche Welle publicado 02/10/2015 18h26, última modificação 02/10/2015 18h39
Especialista em violência armada e saúde mental diz que lobby da indústria armamentista impede mudança na legislação
Josh Edelson / AFP
Roseburg

Mulheres durante vigília em Roseburg, Oregon, onde Chris Harper Mercer, de 26 anos, matou 13 pessoas na quinta-feira 1º

Por Spencer Kimball

O massacre de nove pessoas numa faculdade comunitária na cidade de Roseburg, no Oregon, voltou a chocar os americanos e a confrontá-los com uma velha discussão: a controversa lei de armas dos Estados Unidos.

Segundo dados da ONG Everytown for Gun Safety, que promove a segurança contra o uso de armas de fogo, desde o massacre de Newtown, que deixou 20 mortos em dezembro de 2012, foram registrados ao menos 141 tiroteios em escolas americanas. Isso corresponde a quase um tiroteio por semana em alguma escola do país.

Em entrevista à Deutsche Welle, Jonathan Metzl, especialista em violência armada e saúde mental da Universidade Vanderbilt, no Tennessee, diz que existem muitos lobbies poderosos e interesses financeiros que fazem tudo para que a legislação de armas de fogo não seja endurecida nos EUA.

"É a vontade do povo contra a vontade de alguns lobbies e corporações muito poderosas", afirma o psiquiatra. "Os americanos estão permitindo a praga, a insanidade da violência armada massificada."

Deutsche Welle: Tiroteios em escolas e universidades estão ficando mais comuns nos EUA?

Jonathan Metzl: Tiroteios em escolas estão se tornando cada vez mais frequentes e cada vez mais horríveis. Se alguém estiver determinado, é praticamente impossível impedi-lo de fazer isso, porque temos diferentes leis sobre armas de fogo em cada estado, mesmo no que diz respeito à presença de armas de fogo em escolas. Em minha opinião, precisamos de um referendo nacional sobre a questão.

Esses tiroteios servem de modelo para outros massacres. Para chamar a atenção nacional, é preciso superar o último aluno [atirador]. Vimos isso em Newtown. Com todos esses tiroteios em escolas, é preciso criar realmente uma grande confusão para que o nome do agressor fique conhecido.

No geral, as escolas e particularmente as faculdades onde hoje ocorrem os tiroteios estão entre os lugares mais seguros dos EUA. E tais lugares são também os mais seguros para jovens em idade universitária, que formam, como sabemos, a faixa etária mais propensa a atirar em outras pessoas ou a levar tiros.

A probabilidade de que alguém seja atingido por um tiro num campus universitário é inferior a 1% para cada 100 mil pessoas. Entre o público em geral, essa cifra gira em torno de 6% a 7% para cada 100 mil. O que observamos com frequência em campi universitários é que o estabelecimento de zonas livres de armas é altamente eficaz na proteção contra a violência armada. Campi universitários são lugares particularmente seguros.

DW: Como estes tiroteios continuam a acontecer em espaços supostamente seguros?

Jonathan Metzl
Metzl: lobby das armas ainda é forte demais nos EUA
JM: Campi universitários refletem cada vez mais a sociedade. Como existem mais armas e mais tiroteios, mais pessoas descontentes recorrem às armas como forma de resolver uma série de problemas. As armas se tornam o instrumento de resolução de conflitos. Tudo, desde problemas interpessoais, descontentamento com notas escolares ou com alguns aspectos sociais da faculdade.

Vimos um docente atirar em outro docente numa faculdade no Mississippi, há algumas semanas. Parte desse problema se deve ao fato de haver mais armas disponíveis ao redor.

DW: Depois do massacre de Newtown, houve um estímulo para que se introduzisse uma legislação de controle de armas mais acirrada em nível nacional. Esses esforços falharam. O massacre no Oregon pode levar à implementação de um controle mais forte de armas?

JM: As pessoas estão cada vez mais horrorizadas com o que está acontecendo por aqui. Não se trata de um grande mistério. Tiroteios em massa são difíceis de prever ou conter, mas, com eles acontecendo quase diariamente, pode-se ter uma ideia de como acabar com isso.

Queremos controles de antecedentes criminais. Queremos que sejam rastreadas pessoas com histórico de violência e outros fatores. Deve haver um sistema de avaliação como aquele que se faz para tirar a carteira de habilitação. Talvez isso não teria evitado o último tiroteio, mas vai pôr um fim à violência e aos massacres cotidianos. Nos EUA, anualmente, 32 mil pessoas morrem vítimas da violência armada.

Existem muitos lobbies poderosos e interesses financeiros que fazem tudo para que isso não aconteça. É a vontade do povo contra a vontade de alguns lobbies e corporações muito poderosas.

DW: Após o tiroteio no Oregon, o presidente Obama disse que, permitir que massacres assim aconteçam é uma escolha política. Isso é verdade?

JM: Os americanos estão permitindo a praga, a insanidade da violência armada massificada ao facilitar que qualquer pessoa possa conseguir uma arma. Isso é absolutamente verdade. Os estados com leis sensatas de armas de fogo são muito eficazes em conter os tiroteios diários e é isso é o que temos de fazer.


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